OPINIÃO

Pergunte ao mosquito

11/08/2015 15:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
gagstreet/Flickr
And that's what happened !

Na segunda metade do século XIX, um filósofo alemão cujo nome não vem ao caso, refletia sobre a verdade, a mentira, a moral e doenças venéreas. Relembrando com nostalgia os ensinamentos de Aristóteles (385 a.C-322 a.C), ele se lembrou de uma história sobre o filósofo grego a qual havia lido num manuscrito considerado perdido. Eis a história.

Numa tarde de verão na Grécia, há mais de 2 mil anos, Aristóteles dava aos seus discípulos mais uma lição sobre a vida. O sol daquela tarde emitia uma luz que quase levava uma pessoa a ficar cega (dizem que o Sol na Grécia é muito diferente. Não sei, nunca fui). Alguns de seus discípulos tiveram problemas oculares enquanto outros não deram muita importância para aquela lição. Por fim, todos foram beber vinho, comer azeitonas gregas, discutir filosoficamente 1001 maneiras de sobreviver a uma crise econômica e criar pinturas de si mesmos, o que pesquisas recentes feitas por cientistas sociais consideram a origem da selfie.

Desde então, vários (não todos) filósofos, historiadores e pensadores repetem a mesma reação dos discípulos do filósofo grego. Essa indiferença talvez se deva ao caráter ultra-mitológico contido naquela lição. Entretanto, acho que vale a pena relembrar aquela história, digo, mito.

Segundo constava no tal manuscrito perdido, Aristóteles teria dito que, há milhões de anos atrás, num lugar onde o Universo costumava fazer uma curva, um velho herói grego, o único homem que havia sobrevivido a uma importante batalha entre gregos e os falácios (diz o tal mito grego que nessa época só existiam dois países no Universo - a Grécia e a Falácia), ouviu alguém chamar seu nome. Por um momento ele ficou feliz, mas perplexo, porque imaginava que não havia mais ninguém no Universo a não ser ele. De repente, um κουνούπι (que significa mosquito em grego) pousa no seu nariz. O herói grego tenta espantá-lo. O mosquito fala:

"Cuidado, não me mate! Eu sou o último mosquito do mundo!". O herói grego se espanta e descobre que, além de conseguir falar com os deuses, agora conseguia ouvir e conversar com os animais. Ele então se dirige ao mosquito: "Juro por Zeus que eu acreditava ser o último ser vivo no mundo! Por um minuto, cheguei a pensar que eu era o centro do universo! Mas essa sensação durou só um minuto...E você, mosquito, chegou a pensar que era o último ser vivo do mundo?". Neste momento, o mosquito pica o herói grego, que viria a falecer um minuto depois. Cientistas do século 20 descobriram que o herói grego foi a primeira pessoa a morrer de dengue.

Depois de constatar que o herói grego estava realmente morto, o mosquito, de modo triunfante e vitorioso, disse em alto e bom zunido para o morto: "Eu cheguei a pensar que eu era o último ser vivo e o centro do universo. Agora eu tenho certeza". Assim diz o mito.

Agora imaginem hoje. Imaginem um diálogo entre um homem e um animal. Imaginem um diálogo entre um leão e um homem desarmado. Quem ganharia a disputa? A razão humana, o discurso racional, seria capaz de vencer a "irracionalidade" selvagem? Quem seria o troféu?

A comoção nas redes sociais em torno da morte de Cecil Rhodes, o leão, lança luz para uma questão muito maior do que a preservação de animais (alguns em extinção): ela sugere um desejo (muitas vezes inconsciente) de que os limites da tolerância sejam ampliados, incluindo aí os animais. Que vivemos um período de intolerância, ninguém duvida, seja você um ser racional ou não.

Em matéria publicada no Brasil Post no último dia 3 de agosto, especialistas dizem que intolerância é principal causa de linchamentos no Brasil. Eu ousaria dizer que a intolerância é principal causa de vários problemas no mundo, seja hoje, seja há milhões de anos atrás.

A intolerância quase sempre acaba por produzir violência, às vezes física. Mas nem sempre. Um fator que está sempre cobrindo a tolerância e a violência é indiscutivelmente a arrogância humana e sua crença na racionalidade, a qual permite distinguir quem é melhor, quem é pior, quem pode comer, quem pode ser comido. Ela é mais complexa do que uma simples cadeia alimentar. Ela tem raízes históricas profundas que ainda precisam ser muito discutidas. Se a razão (ou o bom senso), como disse Descartes, é a coisa melhor distribuída no mundo, a arrogância da superioridade humana sobre outros seres humanos, sobre os animais e o que mais existir de vida na face da Terra também é bem distribuída na mesma medida. Nesse mundo dividido entre fortes e fracos, quando a razão desaparece, vale a máxima que vem desde a Grécia e que foi dita pelo historiador da guerra do Peloponeso: "os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem". Essa tem sido a lei da selva desde que o primeiro leão foi morto no mundo. Ou o primeiro homem.

Intolerância, violência e arrogância, mas também a pressa ("time is Money e eu preciso manter meu emprego"): "passem por cima do defunto na linha do trem, ele está me atrasando. Já passaram uma vez porque não duas", dizem mais de mil pessoas que tiraram uma parte do seu tempo para responder a uma enquete na internet. Talvez em seu smartphone, enquanto tentavam cortar o bife acebolado escolhido no restaurante na hora do almoço. Esperar a retirada de um ser humano morto na linha do trem, não dá. Esperar na fila do restaurante pra pegar o bife acebolado: pode.

A intolerância e a violência física, apoiada pela arrogância de quem se acha racional, tem sempre um alvo. No mundo atual, esse alvo é construído por camadas e mais camadas de preconceitos e julgamentos que foram construídos num contínuo histórico e que hoje sobrevivem simultaneamente e de forma nada pacífica, criando uma série de absurdos que somos obrigados a ver e a ouvir todos os dias. Para isso, a história muitas vezes serve, para uma população que insiste em salientar alguns resquícios do passado e apagar outros. É quase tudo muito conveniente. Egoísta, mas conveniente.

Faça um exercício e olhe para o passado: Quem ia para a cadeia há duzentos anos, por exemplo? Quem era condenado e porque era condenado? Quem era morto e por que? Agora, olhe para o presente. Reconhece alguma coisa?

Qual a diferença entre atirar num leão e num ser humano? Não temos imagens do momento da morte de Cecil Rhode, o leão. Mas temos imagens de Walter Lamar Scott sendo morto no dia 4 de abril de 2015.

Walter Scott shooting from The Post and Courier on Vimeo.

No fim das contas, a vida é como o bebê Abílio no conto "Autor de si mesmo", de Machado de Assis. Neste conto, baseado em fatos reais, o bebê de dois anos é abandonado pelos pais em uma estrebaria, onde ele passou três dias sem comer, beber, coberto de chagas e recebendo picadas de galinhas. Num monólogo, antes de iniciar um diálogo com o filósofo Arthur Schopenhauer, Abílio se lamenta, indignado com seus pais:

"Quem mandou aqueles dois casarem-se para me trazerem a este mundo? (...) Que mal lhes fiz eu antes, se não era nascido? Que banquete é este em que o convidado é que é comido?". Suas últimas palavras, sob a picada mortífera de galinhas esfomeadas, foram: "Ui! Ai!"

A vida é isso: um grande banquete, onde homens, animais, plantas, insetos, o mundo todo vivo se reúne todos os dias pra decidir sobre o destino de cada um.

O que não é levado em consideração é que todos têm sentimentos e emoções. E quem disse que o mosquito não sente? Você já perguntou pra ele?

P.S: A história da lição de Aristóteles é uma ficção. E o nome do filósofo alemão vem ao caso sim: seu nome é Nietzsche.

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