OPINIÃO

'Mãe, o que é Impeachment?'

19/08/2015 10:59 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
ASSOCIATED PRESS
Brazilian President Dilma Rousseff pauses as she speaks during a joint news conference with President Barack Obama in the East Room of the White House in Washington, Tuesday, June 30, 2015. Obama and Rousseff aim to show they've moved beyond tensions sparked by the revelation nearly two years ago that the U.S. was spying on Rousseff. (AP Photo/Carolyn Kaster)

Eu me lembro, não como se fosse hoje, mas lembro. Era 1992. Olimpíadas de Barcelona. Time de vôlei masculino trazendo medalha de ouro para o Brasil. Tenho vaga lembrança dos jogos, mas os nomes dos jogadores são inesquecíveis: Giovani, Marcelo Negrão, Tande.

Eu tinha 7 anos naquela época. Me lembro que foi um ano bom para uma criança com aquela idade que não tinha nada para reclamar da vida (ainda). Existia uma espécie de euforia, uma atmosfera agradável. Eu estava na segunda série do Ensino Fundamental. Adorava ler. Adorava televisão. Adorava a Xuxa: confesso que chorei (e quem não) quando o programa dela acabou no fim de 1992. Adorava assistir jornal pela TV na casa dos meus pais ou na casa dos meus avós. Meus pais ainda eram casados naquela época. Eles pareciam felizes. Mas todo o cenário para o divórcio que aconteceria três anos depois já estava montado. Do ponto de vista de uma criança de 7 anos, até as brigas que levariam à separação dos pais tinha uma atmosfera meio pitoresca. Ainda hoje consigo fazer os outros rirem transformando em comédia o que era uma completa tragédia.

Eu me lembro. Acho que naquele ano meu pai e minha mãe mudaram de casa umas duas vezes. A gente lá em casa sempre mudou muito. A única herança que minha mãe e meu pai me deixaram foi essa: tem que mudar de casa pelo menos uma vez por ano pra poder (tentar) ser feliz na vida. Uma herança da qual tenho tentado me desfazer.

Era agosto de 1992. Taylor Swift tinha 2 anos e Madonna, 35. Mas o que eu ouvia mesmo era os discos do Leandro e Leonardo e love songs às cinco da tarde deitado no sofá com minha mãe esperando meu pai chegar pro jantar. Minha irmã fazendo alguma coisa aleatória no chão e meu irmão no berço.

Era agosto de 1992. Collor. Impeachment. "Mãe, o que é impeachment?", perguntei aos 7 anos.

Todo mundo revoltado. Só se falava em vôlei e política lá em casa. Aquela fumaceira de cigarro e café e carteado de noite no meio da semana. Meu avô na ponta da mesa. Ele morreu 3 anos depois. Algo como cirrose hepática ou algum tipo de câncer que até hoje não sei o que foi ao certo, só sei que foi o que chamaram de "jurubeba". Era militar. Meu tio, militar. Meu pai, bom, meu pai. Minha avó lavando roupa como se ainda vivesse no norte de Minas/sul da Bahia. O melro-preto puxando o cabelo da minha tia. Minha mãe sem o batom vermelho e a jaqueta jeans que viriam simbolizar sua liberdade numa festa junina em 1994. Meus irmãos, bom, meus irmãos. E Collor, presidente do Brasil. Caras-Pintadas. "Regina cadê minha roupa?". "Mãe, o que é impeachment?". Cada um perguntava aquilo que não sabia.

E assim era o Brasil para aquela criança de 7 anos em 1992: Collor, caras-pintadas. Impeachment. Xuxa. Família. Muda de casa. Muda de novo. Verde-Amarelo.

Agosto de 2015.

Parece que nada mudou. Madonna faz 57 anos. Taylor Swift é a nova princesa do pop e eu troquei Leandro e Leonardo por Bad Blood. Impeachment. Xuxa está de volta com novo programa. Verde-Amarelo. Camisa da CBF em manifestação política. A Copa do Mundo de Futebol é mais velha do que nossa democracia. Talvez seja por isso que amamos mais futebol do que a democracia.

"Mãe, o que é impeachment?". Mas hoje sou eu quem fala pra minha mãe o que impeachment é.

Hoje tenho 30 anos. Sou historiador. "O quê?". "Sou historiador". "O quê?". Quase desistindo: "Sou historiador!" "Ah, amo história. Minha matéria preferida no colégio". Fim.

Sou historiador. Não sou jornalista. Não sou comunista. Não sou socialista. O irmão mais velho do meu pai se chama John Kennedy. Meu pai se chama Lyndon Johnson. O que me leva a crer que eu sou Democrata desde criança.

Não sou satanista. Poucos meses atrás, um tio, irmão da minha mãe, me perguntou: "É verdade que todo mundo que faz história não acredita em Deus?", como se, no mundo de hoje, fosse preciso fazer história pra duvidar que Deus exista.

História pra mim é tudo. É minha profissão. É uma das poucas coisas que acredito na vida. Não é igual minha crença de que a Madonna ainda vai lançar algum disco que supere Confessions on the Dance Floor. Eu acredito mesmo, de verdade, na história.

Mas o problema é que, apesar de as pessoas gostarem de história no colégio, esse gosto acaba ali. E no fim só restam as lembranças das datas que marcam alguns feriados nacionais. História, pra muita gente, é símbolo de coisa velha. "Ninguém" é historiador. Ninguém está acostumado com o som da palavra - "O que?" "Historiador". "Ok!".

Por que as coisas chegaram a este ponto, para nós, historiadores? Por que nos divorciamos da sociedade? Ou foi a sociedade que se divorciou da gente? Ou a relação foi se desgastando até não existir mais uma empatia entre sociedade e historiadores e a chama do amor foi se apagando? De quem é a culpa pelo fim desse relacionamento? Existirão culpados?

É agosto de 2015. Não sou mais criança. O país está em crise. Eu mudei de casa umas 4 vezes só esse ano e vim parar na Califórnia. Tô tentando ser feliz. E quem não tá? Chega o momento na vida de todo mundo que você bota aquele batom vermelho simbólico e aquela jaqueta jeans simbólica e vai tentar ser livre como aquela mulher de 25 anos numa festa junina em 1994.

No Brasil, os cara-pintadas cederam lugar aos panelaços. Cada dia mais manifestações contra o governo. "Dilma, podia ter morrido lá no Doi-Codi".

Cada dia é mais difícil defender a Dilma. Cada dia é mais difícil defender o PT. Cada diz é mais difícil defender qualquer coisa na política brasileira. Cada dia é mais difícil ser historiador no Brasil. Mas cada dia o passado assombra a gente: seja a ditadura, a saudade do Império, o impeachment de Collor que na verdade nunca chegou a rolar de verdade (hoje ele é senador e ocupa seu tempo chamando seus pares de "filhos de uma boa mãe").

Está tudo muito incerto. Tudo muito esquisito, tudo muito esquizofrênico. Há muito rumor pra pouca prova, muito pedido de cabeça rolando pra pouca guilhotina, e muita esperança para uma Revolução Francesa à brasileira acontecer.

Mas uma coisa é certa: tanto de um lado quanto do outro (porque o país resolveu se dividir entre um lado e o outro), todo mundo está mobilizando discurso sobre a história do país. De um lado, alguns afirmam que as pessoas precisam aprender a história do Brasil antes de irem às ruas proclamar a volta da ditadura. Do outro, as pessoas todas desejando (com a mesma sobriedade de John Lennon cantando Imagine) a volta da ditadura.

Eu estou do lado daqueles que defendem que a gente precisa discutir história. Até porque não gostaria de ser responsável pela morte de ninguém, muito menos defender a perda da dignidade humana sob a tortura física e psicológica.

Estou do lado daquelas pessoas que admitem que precisamos discutir a relevância social da história. Todo mundo sabe o que aconteceu no dia 7 de setembro de 1822 (Independência ou Proclamação da República?). Todo mundo sabe que teve ditadura. Mas história não é calendário. História é mais do que isso. História é mais do que aquela matéria que você mais gostava no colégio. Acredite.

O discurso da história é cada vez mais público. Ele está cada dia mais na boca do povo. De forma desenfreada, usado e abusado de forma esquizofrênica, mas está.

Você sabe o que é impeachment? Você sabe o que é democracia? Você sabe por que é de esquerda? Você sabe por que é de direita? A jovem F.*, 17 anos, trabalha num escritório, foi nas manifestações contra o governo na Av. Paulista em março deste ano. Ela é a favor da democracia, do impeachment da presidente Dilma. Ela diz que é o futuro (e é verdade). Mas quando perguntada se era de direita (ao que respondeu positivamente) e porque era de direita, teve que chamar sua mãe para responder por ela.

Era 1992. Isso eu me lembro como se fosse hoje. Perguntei pra minha mãe: "Mãe, o que é Impeachment?".

Hoje eu sei que as mães são excelentes conselheiras sobre a vida. Mas toda vez que me pergunto o que é democracia, porque sou de esquerda, ou o que é impeachment, eu preciso voltar pra 1992.

E eu não pergunto pra minha mãe. Eu pergunto para a História.

P.S: Para aqueles que tiverem interesse sobre uma discussão mais aprofundada, inteligente e sensata sobre a relevância social da história, recomendo a leitura deste texto do Prof. Dr. Valdei Araujo, da Universidade Federal de Ouro Preto.

*Foi usada apenas a inicial do nome para preservar a identidade da jovem.

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