OPINIÃO

Por que todo mundo tem medo de Nápoles?

13/12/2016 17:39 -02

"Lá é muito perigoso!". Essa frase não foi só dita por várias pessoas a mim, mas estava escrita até mesmo em um guia da Itália que uma vez li para saber mais sobre Nápoles. Sempre me disseram que Nápoles era perigosa, que não tinha nada para ver, que não havia razão para conhecer. Isso eu ouvi de brasileiros e também de italianos.

Quando fui à Pompéia para conhecer as ruínas causadas pelo vulcão Vesúvio, passei por Nápoles e sequer pisei na cidade, pois estava contaminada por todas as más impressões de outras pessoas. Impressões muitas vezes baseadas no que apenas ouviram falar. Mas, agora moro no sul da Itália e não tem como fugir de Nápoles. Num fim de semana qualquer fui conferir se lá é realmente um dos lugares mais perigosos da Itália.

Saindo da estação de metrô Municipio, tive a primeira surpresa: um castelo imenso no meio de uma avenida caótica. O Castel Nuovo, de 1279, é realmente impressionante. Ao seu redor, encontram-se prédios no estilo neoclássico, além do movimento dos carros e das vespas apressadas. No dia que cheguei, fiz o free walking tour e pude ter noção de toda a bagunça e energia de Nápoles.

Me hospedei em um hostel, cujo dono, embora não fosse napolitano, era do sul da Itália e apaixonado pela cidade. Giovanni dedicou algumas horas do seu dia para desmistificar a cidade. Além de me contar a história de Nápoles, também falou um pouco sobre de onde surgiu toda a fama de insegurança. Policial aposentado, Giovanni agora ocupa seu tempo cuidando do seu hostel, levando uma vida mansa e cercada de jovens do mundo todo.

Para acabar com o medo dos hóspedes, ele segue o mesmo protocolo com cada novo visitante: senta à mesa, abre um mapa, um livro velho e rasgado sobre Nápoles, e explica desde a origem da cidade até os problemas urbanos atuais. Segundo estatísticas que ele faz questão de mostrar e explicar, a cidade é menos perigosa que Milão, Roma e até Florença. Estupro e outras violências contra mulher, segundo os dados que ele tinha, eram raros. "Aqui é mais perigoso para homem do que para mulher", diz.

Giovanni acredita que o medo das pessoas é infundado, já que a única coisa que sabem sobre a cidade é que existe uma máfia. "Se você conhecer uma cidade grande que não tem crime organizado, pode me ligar e dizer que eu estava errado. Para ele, a máfia napolitana representa o menor dos problemas da cidade e as pessoas não deveriam usar a Camorra como desculpa pata conhecer Nápoles. "O crime organizado aqui já perdeu a força que tinha", afirma.

A Camorra ainda vive

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Infelizmente, Giovanni estava errado ao dizer que a Camorra não representa um perigo. A presença da organização ainda tem grande influência na criminalidade na cidade. O grupo mafioso surgiu no século XIX em Nápoles e estima-se que hoje seja comandada por cerca de 110 família e mais de 7 mil afiliados. As atividades da Camorra vão do contrabando de cigarros e do tráfico de drogas à fraude na União Europeia.

De acordo com o Rapporto sulla criminalità e la sicurezza a Napoli (Relatório sobre criminalidade e segurança em Nápoles), em 2016, a taxa de crimes violentos para 100 mil habitantes de Nápoles - com base em determinados tipos de crimes, tais como atentados, massacres, assassinatos, infanticídio, tentativa de homicídio, homicídio culposo, lesão intencional, roubo, estupro e sequestro - se sobressai por causa dos conflitos da máfia, ou seja, são crimes muitas vezes cometidos contra quem está envolvido com a organização criminosa - o que não deixa de ser preocupante.

Nápoles não é o inferno na terra

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O Rapporto sulla criminalità e la sicurezza a Napoli (Relatório sobre criminalidade e segurança em Nápoles) também revelou que a taxa média do índice de criminalidade metropolitana da cidade era de 4.426 crimes por 100 mil habitantes, enquanto Milão, Bolonha, Turim têm respectivamente 9.118, 7.411 e 7.044. Ainda de acordo com informações do relatório, Nápoles está em último lugar no ranking de registros de violência sexual contra mulheres. A cidade está atrás de Milão, Bolonha e Florença. Turim, ao norte da Itália, é a cidade que mais apresenta casos de estupro.

Analisando as taxas de diversos tipos de crime em Nápoles e comparando-as com outras áreas metropolitanas, o resultado é que, para muitos crimes, como roubo de casas e lojas, furtos, assaltos, crimes contra a pessoa, lesões corporais, crimes não convencionais - como clonagem de cartões bancários, phishing, fraude na internet, Nápoles ocupa cada vez mais as últimas posições do ranking nacional.

O relatório de 2015 do Overseas Security Advisory Council (OSAC) sobre a segurança em Nápoles afirmou que os crimes de rua, isto é, furtos e assaltos, não costumam ser violentos. Ou seja, é a situação que encontramos em outras grandes cidades da Europa, como Barcelona e Paris. A orientação dada aos turistas em Nápoles não é diferente da que é dada em qualquer outra grande metrópole: evitar exibir itens de valor na rua e não andar por ruas pouco movimentadas à noite.

"Vedi Napoli e poi muori"

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A expressão italiana significa literalmente "Veja Nápoles e depois morra", e os apaixonados pela cidade usam e abusam dessa frase. Para mim, Nápoles foi a cidade grande que mais me impressionou na Itália. Eu sempre fui fã de Roma, tendo visitado cerca de 3 vezes. Porém, Nápoles tem uma energia e um movimento contagiante. À noite, os bares do centro estão sempre cheios de pessoas de todas as idades.

Cada rua revela uma surpresa. Se entranhando nas vielas do Quartieri Spagnoli, você vivencia a cidade de verdade, com toda sua beleza e com todas as suas falhas - e essa é uma experiência única. A capela de Sansevero é imperdível, com obras que, segundo os napolitanos, "guardam mistérios". Não bastasse tudo o que há para ver em cima do asfalto, ainda tem uma cidade subterrânea, que está debaixo da terra desde 470 a.C.. E se for pouco, ainda tem o Castel dell'Ovo, um castelo ilhado no oceano.

Para uma vista panorâmica, há também diversos mirantes na parte alta da cidade. E quando você acha que já se surpreendeu o suficiente, descobre que tem uma cidade submersa nas águas que banham a costa de Nápoles. Além de tudo isso, é claro que não podemos esquecer das incontáveis pizzerias que fazem a verdadeira pizza italiana. A Gino Sorbillo é considerada a melhor do mundo, de acordo com os próprios italianos.

E foi nessa mistura de experiências que descobri que Nápoles - apesar de tudo o que falam e da sujeira na rua, que é bem real - é um lugar incrível e que desperta ainda mais a vontade de fazer uma imersão na história e na cultura da Itália. Não posso deixar de concordar com o que Giovanni havia nos falado no nosso primeiro dia na cidade: "Se você quer conhecer a Itália, tem que conhecer Nápoles".

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