OPINIÃO

O que nós (homens) olhamos e não enxergamos

Na terra da rainha, 32% das mulheres já sofreram algum tipo de assédio enquanto corriam. Caramba. Se lá o número é alto, imagine no Brasil...

03/02/2017 19:40 -02 | Atualizado 14/02/2017 14:02 -02
AJ_Watt via Getty Images
32% das britânicas já sofreram assédio enquanto corriam.

Quando calço os tênis e vou correr na rua, não imagino o que passa na cabeça da mulher que cruza o meu caminho. Ouço a playlist no Spotify e checo, tranquilo, o aplicativo de corrida. O treino é o meu foco. Já ela, tem muitos motivos para se preocupar. Eu nem imagino.

Falo isso porque fiquei impressionado quando li o resultado de uma pesquisa realizada na Inglaterra. Na terra da rainha, 32% das mulheres já sofreram algum tipo de assédio enquanto corriam. Caramba. Se no Velho Continente o número é alto, aqui no Brasil deve ser ainda pior, acredito.

Sou homem e não tenho a real noção de como as mulheres são assediadas diariamente, ainda mais quando fazem atividade física, seja na rua, nos parques ou nas academias. Nós (homens) temos que ser alertados diariamente para uma realidade tão próxima que não conseguimos enxergar.

A culpa? É nossa (homens), claro.

A pesquisa britânica ouviu duas mil mulheres. O estudo foi encomendado pelo England Athletics, órgão do governo responsável pelo esporte na Inglaterra na ocasião do lançamento do programa Run Together, que pretende incentivar as pessoas a correr para manter a boa saúde física e mental.

Fiquei imaginando quantas mulheres deixam de praticar alguma atividade física ao ar livre por medo ou por não se sentirem seguras em ter um momento sozinhas para se exercitarem.

Já que calo no nosso pé dói mais do que no pé do outro, tentei me colocar na situação. Eu, sem a simples liberdade de calçar um tênis, um short e correr em um parque sem o receio de ser assediado. Infelizmente, só sentimos quando acontece na nossa casa.

Sou homem e sei que vivemos em uma sociedade machista. Na pesquisa britânica, mais de 60% delas se sentem ansiosas durante a corrida se estiverem sozinhas, além de sentirem medo de sofrer algum tipo de violência.

As inglesas acharam um caminho para não perder totalmente a vontade de praticar alguma atividade física ao ar livre.

O programa britânico vai conectar as mulheres a mais de 700 grupos de corrida. Assim, elas se sentem menos ameaçadas se praticarem atividade física em grupo.

Não usar short curto e evitar treinos noturnos são táticas usadas por mulheres para não serem expostas ao assédio. Está errado.

As mulheres têm o direito de usar o que quiserem e praticar atividade física no horário que bem entenderem.

Não sou ativista dos direitos das mulheres. Passo longe disso. Porém, vi que nós, homens, vivemos numa bolha social.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte do nosso time de blogueiros, entre em contato por meio de editor@huffpostbrasil.com.