OPINIÃO

Praga, cidade das cem torres

Quando os ponteiros do relógio astronômico medieval, marcam a hora exata, quatro estátuas que representam a vaidade, a ganância, a morte e o prazer.

03/02/2017 08:38 -02 | Atualizado 06/02/2017 16:39 -02

Os primeiros raios de sol que chegam à praça da cidade velha em Praga, capital da República Checa, pousam sobre um formigueiro humano numa das laterais da câmara municipal. A divergência criada pelas línguas dessa Babel, que vai facilmente do árabe ao mandarim, do alemão ao japonês, se torna imperceptível a poucos instantes do início do espetáculo. Os olhos apontados para a torre da edificação aguardam atentamente um show de 40 segundos que se repete há 600 anos. Quando os ponteiros do Orloj, um relógio astronômico medieval, marcam a hora exata, quatro estátuas que representam a vaidade, a ganância, a morte e o prazer se movimentam para acionar os sinos. Por duas pequenas janelas acima do aparato central, os doze apóstolos aparecem para saudar a multidão.

O espetáculo mecânico, elaborado por Mikulas de Kadan a pedido do imperador Venceslau IV em 1410, termina aos sons do trompete de um guarda trajado a rigor no alto da torre de 70 metros de altura. Os últimos acordes da música embalam a lenda de que o imperador teria mandado cegar o mestre construtor do Orloj para que não pudesse repetir o feito em outra cidade.

O que faz o relógio astronômico de Praga tão fascinante é a marcação de quatro variações do tempo: o da Europa Central, o boêmio (tempo antigo alemão), o babilônico e o astral. A mudança da iluminação que incide sobre o aparelho no decorrer do dia e do ano auxilia o mecanismo nessa tarefa. No fundo azul com o planeta terra ao centro ainda é possível calcular os meses do zodíaco, os movimentos do sol, as fases da lua e as rotas celestiais usadas pelos viajantes da Idade Média.

A trágica lenda em torno do Orloj, contudo, está longe de ser a mais mirabolante entre as difundidas pelos cerca de 1,5 milhão de habitantes da cidade. A ponte Karlův, construída entre os séculos 14 e 15, poderia entrar para o Livro dos Recordes na seção de gastronomia. Uma história local conta que foram utilizados milhares de ovos, penas e frangos misturados na argamassa para dar ligamento às pedras. O objetivo dessa receita, planejada por matemáticos, filósofos, arquitetos e políticos a convite do rei Carlos IV, era fazer com que a construção suportasse as constantes inundações que atingem Praga. E pelo visto deu certo.

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Os turistas se acotovelam nos 515 metros de comprimento por 10 de largura da Karlův, entre vendedores de artesanato e artistas de rua que se esforçam para ganhar a vida. Em estilo gótico, sustentada por 16 arcos, a ponte é ornamentada nas laterais com 30 estátuas de pessoas ilustres da República Checa, santos, personalidades históricas e bíblicas. Aberta só para pedestres desde 1950, a Karlův liga a cidade velha ao bairro de Malá Strana, que fazem parte do trajeto entre o centro histórico e o Castelo de Praga.

Na margem esquerda do rio Vltava, no alto da colina de Hradcany, está o maior castelo do mundo. Fundado no século 9 para abrigar a nobreza da Boêmia, o Castelo de Praga ocupa 72,5 mil metros quadrados, área aproximada a de dez campos de futebol. O engraçado é que a maioria dos visitantes só se dá conta que está nas propriedades reais quando os guias turísticos avisam. Diferentemente de outros conjuntos arquitetônicos, o Castelo de Praga dispensa os muros e as grades. Ao invés das delimitações convencionais, é formado por ruelas, becos, minúsculas casas coloridas, jardins, uma igreja e edifícios menores. O prédio principal é usado como sede do governo desde 1918 e reúne turistas para assistir à tradicional troca de guardas.

E não foram apenas reis, duques e princesas que desfilaram pelas ruazinhas do castelo. A nobreza literária também esteve representada por um de seus mais enigmáticos criadores, o escritor Franz Kafka (1883-1924). Autor de livros controversos e perturbadores, como A metamorfose, Kafka viveu por poucos meses no número 22 da Viela Dourada. Nesse período, ele trabalhou na obra O castelo. Apesar de ter habitado outros endereços, essa é a moradia mais visitada. Hoje a casa abriga uma loja que vende os livros do escritor em vários idiomas.

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Os apaixonados por literatura podem visitar outros pontos turísticos relacionados com o mais importante escritor checo, como o Museu Kafka ou seu túmulo no cemitério Straschinitz. Mas nada substitui a sensação de caminhar pelo bairro judeu de Josefov, onde está localizada a casa onde ele nasceu. Filho de uma família de classe média judia, Kafka teve a sua vida fortemente relacionada com essa área da cidade. A visita à região é capaz de transcender as páginas de um livro e transportar os turistas para a história da formação da comunidade judaica na República Checa.

As primeiras informações da chegada de judeus a Praga são do século 10. Eles viviam no Josefov, que na época era murado. Com a invasão nazista em abril de 1939, o primeiro plano era demolir a área, mas ela foi preservada para ser "um museu exótico de uma raça extinta". Praticamente todos os seus habitantes foram enviados para campos de concentração, enquanto os alemães reuniam artefatos da arte cerimonial judaica para exibição.

Hoje é possível conhecer seis das mais antigas sinagogas da Europa no Josefov, como a Staronová datada de 1270. O Cemitério Velho, com mais de 12 mil lápides e o Museu Judaico também estão abertos ao público. No início do século 20, os edifícios do bairro foram reformados e adotaram o estilo art noveau nas fachadas. Alguns prédios são ornamentados com escritas em hebraico.

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Os apreciadores de arte sacra encontram na capital checa um panorama de vários estilos e tendências. As obras e os modelos arquitetônicos estão expostos em dezenas de mosteiros, conventos e basílicas, como a Igreja de Týn ou a Catedral de São Vito. Esses templos ajudaram a colocar a cidade das cem torres, como Praga também é conhecida, no roteiro turístico do Leste Europeu.

Mas o que deixa um pesar na consciência dos religiosos que visitam o país é a fé abalada da grande maioria dos 11 milhões de checos. A nação ocupa uma das primeiras posições no ranking dos países com o maior número de ateus do mundo. Em Praga a realidade não poderia ser diferente e o número oscila entre 55% e 70% da população, dependendo da fonte consultada.

A alta taxa de rejeição aos dogmas sagrados pode estar relacionada ao passado de repressão dos governos comunistas. Ainda é visível o desconforto da população local ao conversar sobre temas relacionados aos anos de chumbo (1948-1990). Daí ser possível compreender a sua desaprovação com uma das paradas obrigatórias do visitante na cidade, o Museu do Comunismo.

A própria localização da casa já é motivo de debates acalorados entre os nativos. A bandeira vermelha com a foice e o martelo tremula em cima dos arcos amarelos de uma lanchonete do McDonald's, símbolo do domínio capitalista, e no mesmo andar de um pequeno cassino. Os cartazes que convidam para visitar o museu, primeiro dedicado à temática no país e que está fora dos roteiros oficiais, são dotados de forte conotação irônica. Um ursinho de pelúcia segura uma metralhadora soviética AK-47, matrioscas – bonecas russas – aparecem rangendo dentes afiados e o economista alemão, Karl Marx, é flagrado cortando as unhas dos pés apenas de ceroulas.

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O acervo do museu, sob o lema Comunismo: sonho, realidade e pesadelo, reúne centenas de artigos, documentos e obras de arte do regime que dominou a Europa do Leste até o início dos anos noventa. A casa foi criada em 2002, pelo milionário americano Glenn Spicker, que adquiriu o material em feiras de antiguidade e mercados de rua. Em três salas principais é possível conhecer a estrutura de países da antiga União Soviética. Um espaço de interrogatórios reproduz os momentos de tensão que milhares de checos enfrentaram nos anos de chumbo.

Uma fotografia na parede do museu revela o maior monumento comunista do mundo. Os impressionantes 50 metros de altura por 22 metros de comprimento marcam a personalização de um governo, com Stalin à frente de operários construídos com 17 mil toneladas de concreto e ferro. Hoje, no lugar da estátua, demolida em 1962, está o monumento Metrodomo. Criado pelo artista Vratislav Novak em 1991, o pêndulo vermelho, no alto das colinas do rio Vltava, balança para lembrar os horrores da ditadura e evitar que a intolerância volte a governar o país.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representam as ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte dos blogueiros, entre em contato por meio de editor@brasilpost.com.br.