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Debora Diniz

Antropóloga, professora de direito e documentarista

Debora Diniz é antropóloga, professora da Faculdade de Direito na Universidade de Brasília, e pesquisadora da Anis - Instituto de Bioética. Tem pesquisas sobre saúde, mulheres e prisão. Seu mais recente livro é Cadeia: relatos sobre mulheres, e o mais recente documentário é Zika. Participou de grupos de trabalho na Organização Pan-Americana de Saúde sobre a epidemia do zika no Brasil.
NELSON ALMEIDA via Getty Images

Estupro coletivo: Homens, unam-se à luta!

A palavra "homem" é um substantivo genérico que fala de uma sexagem ampla. Sei que pode haver um tom agressivo na palavra, mas como ter uma mensagem eficiente e rápida? E, cá entre nós, os estupradores são homens e as vítimas, mulheres... Não vale sair contando uma história, singular e excepcional, de uma mulher que violentou um menino, ou de uma mulher que participou de uma violência contra outra mulher.
17/01/2017 20:16 -02
Reprodução/Facebook

Quando o ódio se transforma em uma máquina de matar mulheres

É para os homens que Sidnei imaginou que convocaria à matança que faço outro apelo. A chacina será investigada pela polícia, mas o enredo da confissão deve lhes causar vergonha. A misoginia, o ódio às mulheres, deve ser prática abominada - não é liberdade de expressão, mas incitação ao ódio. Para alguns, o ódio permanece nas palavras; para outros, como Sidnei, o ódio é uma arma que mata. Homens, não sejam cúmplices do matador de ano-novo: se não suportam ver as mulheres livres e independentes em 2017, ao menos se silenciem. Deixem as mulheres em paz.
02/01/2017 11:23 -02
Franco Origlia via Getty Images

Papa Francisco e o perdão do aborto

Para uma democracia secular como a nossa, não deveria importar tanto o que dizem ou determinam as igrejas. Mas importa e muito. Mesmo criminalizado, o aborto é um evento comum à vida das mulheres no Brasil: uma em cada cinco mulheres, aos 40 anos, já fez pelo menos um aborto. São milhões de mulheres que poderão atravessar o confessionário e receber perdão pelo pecado. O próximo passo é a ordem legal inspirar-se no Papa Francisco e também tornar o aborto um crime sem pena.
23/11/2016 11:38 -02
Nacho Doce / Reuters

Por uma universidade livre de machismo

Eram dezenas de meninas, pequenas pelo medo e fortalecidas pelo encontro em bando, se posso assim descrevê-las. Muitas sentadas pelo chão, dezenas lacrimosas pelas lembranças de histórias suas ou das outras. Como são mulheres, a hierarquia e a dominação que rege o ambiente universitário - o professor que sabe e o aluno que aprende - se amplificam pelo patriarcado". Sim, me deixem pronunciar esta palavra: a dominação universitária é patriarcal. Por isso, as histórias que ouvi são de desqualificação no pensamento por serem mulheres; de assédio sexual como moeda de troca para o que seriam conquistas de mérito na carreira acadêmica; de uso da transferência analítica como regime de controle. Nosso saber deve ser objeto de admiração para o aprendizado, jamais prática de controle.
11/11/2016 11:49 -02
Kacper Pempel / Reuters

Por que só nos restou marchar?

Andar pelas ruas é um ato pacífico. Isso combina com as mulheres e a forma como vivenciamos o gênero nas culturas. Mas marchar é também o que nos restou: desacreditamos dos parlamentos, somos ignoradas pelos poderes políticas, cada vez mais nos devolvem para a casa e o cuidado dos filhos como um destino da natureza. O retrocesso político que vivemos - olhem para nossa vizinha Colômbia, onde o acordo de paz é negociado por agendas conservadoras em matérias de interesse das mulheres - tem nas mulheres um dos alvos prioritários. Marchar é a resistência pacífica, mas também a resignação diante da brutalidade de nosso tempo.
19/10/2016 10:33 -02
Anadolu Agency via Getty Images

Aborto legal é proteção à saúde mental e física das meninas e mulheres

Precisamos acalmar nossas paixões e certezas para falar sobre aborto. Não há isso de favor ou contra, sim ou não. É mais simples se entendermos o aborto como uma necessidade de saúde - no caso do estupro, o aborto é uma proteção à saúde mental e física das meninas e mulheres. Nenhuma mulher, mesmo aquela brutalmente estuprada, é obrigada a fazer um aborto: a decisão pela interrupção da gestação é uma escolha íntima de cada mulher. Ao conversarmos sobre aborto como um direito à saúde estamos falando sobre como cuidar de meninas e mulheres. O cuidado pede licença à fé, pede silêncio ao testemunho da violência.
28/09/2016 08:27 -03
Chris Ryan via Getty Images

A benção divina não é necessária para a vida política de uma democracia

A benção divina ou das religiões não é necessária para a vida política de uma democracia laica. Religião é matéria de ética privada, o que significa que cada pessoa deve ser livre para fazer suas escolhas, religiosas ou ateias. Precisamos de candidatos que digam: "por respeitar os direitos humanos, defendo a igualdade sexual e racial", "por respeitar os direitos humanos, garantirei a separação entre Estado e igrejas", "por respeitar os direitos humanos, lutarei pela descriminalização do aborto". Assim, um conselho: atente para os vocativos dos candidatos, dê preferência para os que falam do mundo.
19/09/2016 16:14 -03
Agência Brasil

Uma lição básica de como o machismo está entranhado na vida social

Os ministros não vacilaram nos bons modos por acaso. A presença de uma mulher na cadeira do poder os interpela à masculinidade dos carrinhos e dos aviões de um mundo em que a toga do poder sempre foi privilégio dos homens. Ela, agora, é reservada a uma mulher que se lança com regras claras de cumprimento do horário, de bons modos ou de cortesia da corte. Ministra Cármen Lúcia tomou gosto pelo tema - não se manteve na discussão sobre os 15 minutos como tempo mínimo para a proteção da vida das mulheres no excesso do trabalho, mas falou de si mesma. Definiu-se como tendo "cátedra" na discriminação sexual. É verdade: imagino a árdua batalha que foi para esta mulher ocupar, hoje, a mais importante cadeira das cortes brasileiras.
15/09/2016 19:49 -03
Carlos Humberto / STF

A saída de Ela Wiecko não causa vergonha, mas empossa uma heroína

Dra. Ela Wiecko é mulher discreta, quase tímida. Engana-se quem a imagina frágil: sua potência está em sala de aula ou em uma comunidade indígena, na luta pelo fim do trabalho escravo ou na defesa pela lei do feminicídio. É pesquisadora, uma intelectual orgânica, descreveriam alguns. Foi vice-procuradora geral da república - afastou-se do cargo na véspera do novo dia 31 da história política do país. Um prelúdio de que o novo tempo não a teria como uma das raras mulheres no topo do poder político.
01/09/2016 15:11 -03
Reprodução/Facebook

Neon Cunha: Ele é ela. Ou não será ninguém

Neon desdenha da autoridade da psiquiatra, assume-me como a voz legítima para descrever o que se passa no íntimo e no corpo. Por isso, diz não ter medo da morte, "tenho medo de morrer sem dignidade". Nomear-se de um jeito compatível ao corpo que habita é tratá-la com dignidade.
05/08/2016 11:33 -03
Jose A. Bernat Bacete via Getty Images

Toda escola tem que tomar partido

Não conheço defensores de assembleias político-partidárias nas escolas - o que se pretende esconder não é o DEM ou o PT, mas o pensamento livre. Sem liberdade de pensamento não há democracia; sem democracia não há cidadania. Por isso, toda escola tem que tomar partido: o do justo, o da igualdade, o da promoção de um mundo sem discriminação.
27/07/2016 10:21 -03
Getty Images/iStockphoto

Não é apenas 'ideologia' de gênero; são vidas vividas no gênero!

Nessa onda de novos missionários nas redes sociais, a combinação "ideologia de gênero" parece ser tese sem necessidade de argumento - é sempre algo pernicioso para as crianças, algo que viola a liberdade das famílias ou a integridade das igrejas. Como acredito que a conversa racional é mais poderosa para mover montanhas que a repetição de testamentos antigos, começo reproduzindo os argumentos dos que gritam "ideologia de gênero" para, depois, mostrar a tolice ou a ingenuidade dos que a proferem.
21/07/2016 19:15 -03