OPINIÃO

Indignação, tristeza e vergonha na comunidade casperiana

12/02/2014 10:57 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Fui aluna do curso de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero entre 2003 e 2006. Agora, em 2014, volto como professora da instituição onde me formei, não só profissional, mas intelectual e emocionalmente. Ontem, dia 11 de fevereiro, foi meu primeiro dia de aula na nova relação. E, na sala 10 do quinto andar, uma aluna e um aluno do terceiro ano me mostraram, indignados, a foto de uma bixete sendo humilhada, com uma banana na boca. Essa mesma foto que circula desde ontem nas redes. Provocando indignação, tristeza e vergonha na comunidade casperiana.

A Isa e o Rafael estavam revoltados com a atitude opressora, sexista e violenta dos veteranos que deixaram jovens mulheres de lingerie na avenida Paulista, humilhadas com pepinos e bananas, meninos presos em postes. O clima no prédio era de revolta e lamentação. A faculdade afirmou estar apurando o que aconteceu e que tem tomado diversas medidas para coibir o trote violento, humilhante, vexatório ou constrangedor. A Frente Feminista Casperiana Lisandra e o Centro Acadêmico Vladimir Herzog publicaram nota de repúdio no Facebook:

Que essa violência não se repita! E que muita reflexão, debate e mudança de postura aconteçam!

Além do que vou levar para a sala de aula, pelo viés das tecnologias da comunicação, gostaria de pontuar aqui duas reflexões:

1. estudantes de comunicação amarrarem um jovem em um poste, uma semana depois de um adolescente ter sido linchado em um poste no Rio de Janeiro e o crime ter sido divulgado e analisado amplamente;

2. mulheres serem humilhadas no âmbito de sua sexualidade e pela exposição de seus corpos.

A Frente Feminista e o Centro Acadêmico da Cásper esperam que o episódio do poste não tenha sido uma alusão ao crime do Rio, conforme disseram à imprensa. Eu, menos otimista, entendo como improvável que estudantes de comunicação, bastante conectados, não tenham visto as fotos do adolescente negro, preso pelo pescoço em um poste, trazendo à tona nossas sombras de um passado escravocrata e um presente racista. Muito simbólico estudantes trazerem essas sombras à tona, não por um viés crítico ou reflexivo, mas pela humilhação de outro estudante. Se não foi um apoio intencional ao linchamento do adolescente, à degradação de seres humanos, foi, no mínimo, inconsciente. O que não é menos grave. Como educadoras e educadores temos o papel de trazer essas questões à tona.

E, para não usar meias palavras: colocar bananas ou pepinos na boca de mulheres, simulando sexo oral, é uma violência sexual! Uma violência que pode causar danos graves a jovens mulheres que estão descobrindo ou desenvolvendo sua sexualidade. Ainda mais no início da faculdade, quando tantas de nós ganha liberdade (a duras penas) para experimentar o prazer com o próprio corpo. Além da violência simbólica contra todas as mulheres que lutam, historicamente, por nossa liberdade e soberania sexual. O machismo escancarado desse episódio, precisa ser exposto e combatido. Na Cásper Líbero, na avenida Paulista, em nossas casas. Todos os dias.