OPINIÃO

A ocupação nos libertou

09/12/2015 21:15 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
MARCOS BIZZOTTO/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO

Colunistas de diversos meios estão abrindo seus espaços para que estudantes de São Paulo possam falar -- com suas próprias vozes -- sobre a experiência que estão vivendo ao se juntar e lutar contra o projeto de reorganização de escolas de rede pública de ensino do Estado de São Paulo.

Todos os textos serão reunidos pela hashtag #ocupaestudantes. Tenho a honra de abrir meu espaço aqui no HuffPost Brasil para Gislaine de Almeida Gomes, de 17 anos, aluna da Escola Estadual Plínio Negrão, que fica na Vila Cruzeiro, zona sul de São Paulo.

Um mês antes de iniciar as ocupações, eu li um título que era mais ou menos assim: "a geração que idealiza tudo e nada faz". Aquilo ficou na minha cabeça, porque eu faço parte desta geração e meus amigos e colegas também. De alguma forma precisávamos provar o contrário! Precisávamos mudar isso!

Quando iniciaram as ocupações, eu fui a muitas escolas para ver como as coisas estavam sendo e acontecendo na prática. Poxa, foi lindo ver a minha galera, os estudantes, assim como eu, ali, reunidos, se ajudando... E foi aí que me dei conta: nós estamos fazendo alguma coisa, sim, uma coisa grande: estamos lutando por um escola melhor, pela nossa escola, e estamos gritando para o Brasil o que queremos.

Foi pensando e sentindo tudo isso que me reuni com mais três colegas para planejar a nossa ocupação, da EE Plínio Negrão, que fica na Zona Sul de São Paulo. Nossa diretora é autoritária, nunca nem permitiu a atuação do grêmio na escola. Minha chapa foi impugnada. Levei uma advertência por estar querendo um Grêmio Livre, assim como a lei nos mostra. E isso era mais um motivo para os alunos se reunirem e dizerem: espera aí, eu tenho direito de escolher, de pensar, de agir...

Ocupamos! Nosso maior medo era a polícia. E nossa diretora ligou para a polícia dizendo que a nossa escola havia sido invadida. Mas estávamos tão orgulhosos de nós mesmos que continuávamos lá, fizemos assembleia, discutindo, conversando, se entendendo. E a coisa foi crescendo. Pessoas que eu nunca nem vi na escola nos apoiaram! Foi lindo. No decorrer do tempo fomos criando laços, laços esses que em 200 dias letivos nunca haviam sido criados.

Viver na ocupação parece uma guerra. Claro que tem seus momentos bons, momentos ótimos, momentos que vão deixar saudades... Mas tem a repressão. A violência por parte do governo, que manda a polícia nos aterrorizar na escola e nas ruas da cidade, que manda os alunos e os pais que não entendem a ocupação nos ameaçar.

Mas em compensação, durante a ocupação, muitos de nós pararam de olhar pro seu próprio umbigo. Passamos a nos preocupar uns com os outros porque um só não vence a luta! Nesse caso: a união faz a força. Na ocupação, os garotos passaram a querer cozinhar, pra ajudar, e perceberam que isso não é coisa de menina. As meninas passaram a jogar bola e jogar baralho... Nos libertamos!

Na ocupação percebemos que todos podem ajudar! Que não existe o mais inteligente, o mais forte, o mais legal. Todos se uniram! E o melhor de tudo é que nos unimos com estudantes de outras escolas: do Centro, da Zona Leste e até com escolas que ficam aqui do lado, com as quais nunca havíamos tido contato. E uns passaram ajudar os outros. Quando precisamos de qualquer coisa das outras escolas, sejam alunos para dormir, para limpar a escola, para debater algumas coisas, tá todo mundo sempre pronto pra colaborar!

Há muitas coisas que só percebemos na ocupação. O descaso que os dirigentes têm com a preservação escola, por exemplo. É quase impossível dormir aqui por causa dos milhares de insetos, baratas e até de ratos que encontramos. E nós, estudantes, estamos fazendo de tudo para manter tudo limpo e sem esses bichinhos. Achamos tintas guache que venceram em 2009.

A nossa horta que foi criada esse ano estava jogada no estacionamento da escola, ela quase toda já morreu. Não conseguimos recuperar. Os armários tinham baratas mortas. Achávamos ratos da cozinha.

É triste, não? É muito triste ver que a diretora da sua escola não liga para os alunos, como ela mesma diz, e chama os outros alunos para nos atacar. Incita o ódio, a compatição, a desunião. Isso é triste. Isso é horroroso. Isso não deveria acontecer... mas acontece!!!

Assim como aconteceu uma tremenda repressão policial. Dizem que a polícia é para servir e proteger, mas um policial me machucou. Sim, me machucou, e eu nunca tive tanto medo na vida. Na hora em que ele pegou no meu braço e quis me levar à força para a delegacia de polícia, só porque eu estava ocupando. Estava dentro da escola. Ele queria me tirar a força para fora da escola. Me senti invadida. E senti medo. Muito medo! Sempre fui corojosa, até mesmo que para estar ocupando isso é preciso, mas naquela hora senti medo. Mas isso só me instigou a lutar mais. E não houve motivo para ele ter feito aquilo. Estou lutando pela Educação. E o mais engraçado ou terrível é que acho que não deveríamos ter medo da Polícia Militar, porque ela é para proteger a gente, não é? Mas eu percebi que não. Eles machucam o corpo e a alma da gente. Acontece que o efeito foi o contrário, o medo e a descrença na PM me motivaram mais - a lutar mais, a me preparar mais, a conhecer mais.

Começamos querendo o cancelamento da reorganização. Hoje somos milhares e temos milhares de vontades: queremos mais aulas culturais e artísticas. Os meninos querem aulas sobre feminismo, as meninas de defesa pessoal. Os meninos pedem mais aulas de gastronomia, para aprenderem a cozinhar. Nós aprendemos a fazer poesia, aprendemos movimentos literários em um dia. Porque queremos, não porque o governo impôs na programação escolar. Caramba, eu me sinto feliz :)

E mais uma coisa importante que descobrimos também, curiosamente, enquanto estávamos sem aula normal: o papel do professor é mágico, é lindo. Mesmo com a gente na ocupação, eles não dando aula, muitos apareciam no portão, com alimentos ou apenas com um "vocês estão bem?". Nos ligam para falar "CUIDADO!!!". Sabe, eles são os que mais compareceram para nos dar força. E, fiquei pensando: eles merecem mais do que ganham. E o governo menospreza essa profissão linda. Essa profissão que nos fez estar aqui, hoje, lutando!

E aproveito esse espaço para responder uma pergunta recorrente, que tem sempre alguém me fazendo: "você já está no terceiro ano do Médio, por que você está ocupando?" Eu sempre digo que não olho só pra mim, não penso só em mim. Eu consegui mudar devido a alguns ensinamentos de professores e eu pretendo fazer o mesmo, inclusive lecionar numa escola.

E uma coisa que não quero é ter alunos com medo, achando que são menos, porque o governo os aterroriza. Não quero nunca que eles pensem que não são dignos de luta. A ocupação é só o começo de uma grande História (sim, com H maísculo). Aprendemos sobre política, sobre problemas sociais, sobre nós mesmos, desconstruímos preconceitos... Podemos estar cansados, porque a ocupação cansa. Mas a lição que vamos levar daqui é maior do que qualquer coisa que já aprendemos na vida.

Gislane de Almeida Gomes, 17 anos, estudante da E.E. Plínio Negrão

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS:



9 momentos em que os estudantes fizeram história no Brasil