OPINIÃO

Mula sem cabeça e buçal de prata

A História da arte está recheada por casos igualmente pontuais de rejeição moral diante de obras que desafiaram os seus dogmas, conceitos e preconceitos.

12/09/2017 17:12 -03 | Atualizado 12/09/2017 17:12 -03
Reprodução
Por pressão de grupos, mostra com mais 270 obras foi encerrada um mês antes do previsto.

O que dizer de um gesto tão anacrônico quanto censurar uma exposição de arte em pleno século 21? Uma exposição que trata, justamente, de uma amostragem da diferença na arte brasileira submersa, ou pouco visível, nas narrativas que inscrevem nossa produção artística num campo ampliado de conhecimentos.

Atualmente, no mundo todo, pipocam exposições com esse mesmo intuito e tema. E Porto Alegre, que já havia entrado no mapa múndi das artes visuais com a primeira Bienal do Mercosul, volta a ser manchete internacional 20 anos depois. Infelizmente, por esse fato retrógrado protagonizado pela pressão juvenil e virulenta de um grupo ideológico conservador a uma instituição cultural respeitável, subvencionada por um banco internacional. O mundo dá voltas e volta, cantou Nei Lisboa.

Posições antagônicas diante dos fatos reais ou simbólicos fazem parte de uma sociedade que se desenvolve com o debate de ideias e, com isso, avança em esclarecimentos, conhecimentos e construção social.

A História da arte está recheada por casos igualmente pontuais de rejeição estética, moral, política ou meramente ignorante diante de obras que desafiaram os seus dogmas, conceitos e preconceitos. Obras que hoje são estudadas pelo que desencadearam no pensamento de uma sociedade e porque permanecem relevantes no campo artístico, seja pela inovação técnica, estilística, pela convocação crítica de seus fruidores ou pela simples ilustração de tabus sociais.

A arte é produção simbólica. A capacidade de produzir simbolismos de vida é o que nos diferencia entre os demais seres animados do planeta Terra. Arte é produção humana. Arte é produto social.

Historicamente, as sociedades se estabelecem em permanente disputa pela ocupação de espaços de poder e afirmação ideológica, repercutindo nas formas de acesso e acumulação do capital. Economia que troca não apenas trabalho por dinheiro, mas também pelo capital humano, cultural e simbólico, em múltiplas instâncias de negociação e denegação de direitos.

Em sociedades democráticas, apenas o direito à livre expressão e à livre iniciativa privada ainda permanece sagrado. Pelo menos nos discursos que amparam nossas interpretações de mundo. O direito de ir e vir já não se realiza mais, haja vista o cerceamento das fronteiras nacionais a qualquer um que ouse transpassá-las. Será preciso passaporte, justificativas convincentes e permissão de entrada com prazo de permanência.

No campo artístico também estamos indo por esse caminho? Perderemos a liberdade de elaborar simbolicamente a nossa realidade imediata? Como poderemos lidar com um mundo tão cruel e abjeto em se tratando de direitos humanos quando o poder de agir está nas mãos de outros – bem pagos e socialmente bem posicionados – se não pudermos sequer buscar na representação figurativa, fantasiosa ou abstrata dos meios da arte um espaço criativo alternativo para o exercício de nossa humanidade?

Quem reage tão indignadamente às imagens artísticas de hoje ainda preserva os parâmetros medievais de uma sociedade iletrada, que podia ser controlada pelo impacto de uma realidade suprarreal, sobre-humana, criada em narrativas visuais.

Quem tem tanto medo e repulsa à arte contemporânea dá a ela potência e contundência maior do que se permite sentir frente às imagens reais, que nos rodeiam em ruas e praças, que estampam noticiários e documentários, por exemplo. Reage contra o remédio para ignorar a doença. Mas, notemos: até para esse fim, o da negação de uma realidade opressora e obsedante, também a arte pode ser tratamento ou alivio.

No entanto, em tempos de internet, essa poderosa ferramenta que poderia otimizar a experiência humana inteligente compartilhada através da comunicação, o que vemos é obscurantismo, fundamentalismo, arrivismo e terrorismo social, entrincheirando pessoas em ilhas de preconceito, ódio ao outro, ao diferente. Presos a teclados de onde disparam moralismos sem amor, iras proféticas fratricidas, opiniões mal informadas. A partir daí, o que esperam alcançar? Cada cabeça, uma sentença.

Essa, infelizmente, é uma faceta assustadora da nossa realidade mundial. As imagens que se produzem desse nosso mundo proliferam, principalmente nas mídias sociais, em interpretações que variam do científico ao apocalíptico e, por equívocos ou afiliações ideológicas, por vezes acabamos, como num pesadelo, colocando buçais de prata em mulas sem cabeça.

Arte é campo de conhecimento e como tal deve ser fomentada. Censurá-la significa confiscar, de todos e de cada um, não só o direito de sonhar, mas também o direito ser e estar no mundo. O direito de existir.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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