OPINIÃO

Sob o signo da incerteza

A crise conta com quatro atores principais: políticos de diferentes matizes, o mercado, o Judiciário e a mídia.

14/07/2017 14:36 -03 | Atualizado 14/07/2017 16:02 -03
Nacho Doce / Reuters
Lula se defende de condenação em primeira instância.

Mais de um ano depois da derrubada de Dilma Rousseff, os rumos do País estão longe de ser claros. De início, a presidência de Michel Temer podia ser interpretada como o produto de uma espécie de aliança informal entre políticos tradicionais e o chamado mercado.

Até porque os dois setores possuíam motivos palpáveis para a convergência: aos políticos, interessava frear as investigações sobre corrupção levadas a cabo pela Lava Jato; ao "mercado", era imperativo avançar mudanças na economia e na sociedade que não tinha sido capaz de implementar pela via eleitoral.

Recentemente, a incerteza chegou ao ponto em que a própria sobrevivência do governo entrou em questão. Soma-se ao quadro pouco claro a condenação, em primeira instância, do ex-presidente Luiz Inácio da Silva.

No entanto, a indefinição, mais do que resultado do comportamento dos diferentes atores políticos, é provocada pelo avanço da Lava Jato. Nessa referência, o momento chave foi a divulgação da gravação da conversa entre o presidente Temer e o empresário Joesley Batista.

Especialmente importante foi a mudança de posição do poderoso Sistema Globo de Comunicação. Da indisfarçada simpatia pelo governo, passou a atacá-lo com uma violência comparável à desferida contra a presidente Dilma. Os motivos da Globo estão longe de ser evidentes, mas sua nova atitude contribui indiscutivelmente para aumentar a turbulência política.

No mesmo sentido, a decisão do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de fatiar a denúncia contra Temer torna a situação de seu governo particularmente instável. Apesar da aprovação da reforma trabalhista, aquela que deveria ser a principal iniciativa pós-impeachment - a reforma da Previdência - enfrenta um problema de timing. Com a aproximação das eleições de 2018, se torna menos interessante para congressistas aprovarem uma medida altamente impopular.

Paralelamente, em um contexto em que o governo está sob ataque, ele tende a ceder mais facilmente às demandas de sua base parlamentar. Isso deve respingar na propagada da austeridade fiscal. Nesse ambiente, o apoio do mercado se torna mais incerto, como se pode perceber pelas oscilações da posição diante do governo Temer da principal expressão política do establishment financeiro, o PSDB.

Já a sentença relativa a Lula torna ainda mais incerto o quadro em torno do qual serão realizadas as eleições de 2018. A possibilidade do candidato mais bem colocado nas pesquisas não poder se apresentar às eleições se torna mais palpável, bastando para tanto sua condenação em segunda instância.

Mais importante: sem Lula, um ator político fundamental, a esquerda fica sem alternativa evidente. Trata-se indubitavelmente de casuísmo. No entanto, a falta de opção reflete, em termos mais profundos, a incapacidade desse setor de ir além da liderança do ex-presidente. O cientista político André Singer chamou essa realidade de lulismo. Este tornou-se maior do que o projeto de organizar os trabalhadores que motivou a fundação do PT.

O enredo da incerteza

Pode-se destacar quatro atores envolvidos no enredo: políticos de diferentes matizes, o mercado, o Judiciário e a mídia. O grande ator ausente da trama é a soberania popular. Quase todo o sistema político se aliou ao mercado, dando sustentação ao governo Temer. Voltavam-se prioritariamente contra o PT, que já governava o País há 14 anos.

Também encontravam sustentação em partes do Judiciário e da mídia, aparentemente envolvidos em uma cruzada pela moralização dos costumes políticos. Coincidentemente, a cruzada tinha como principal alvo o partido de Lula. Mas mesmo que a vontade popular esteja alheia à intriga, ela não deixa de desempenhar um papel de certa forma fantasmagórico, sua sombra projetando-se com a aproximação das eleições de 2018.

É verdade que grandes manifestações estiveram por trás da queda de Dilma. Bradavam contra a corrupção, mas seu ímpeto diminuiu consideravelmente quando foram revelados os malfeitos do governo Temer. O que é coerente com a composição majoritariamente de classe média nas manifestações.

Em reação, a esquerda também foi às ruas, mesmo que em menor número, em atos contra o impeachment e o governo Temer. Não foi, entretanto, capaz de mobilizar mais que seu público tradicional.

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