OPINIÃO

Uma carta para Patrícia Abravanel e seu preconceito

15/07/2016 15:14 -03 | Atualizado 15/07/2016 15:14 -03
FotoArena via Getty Images
SAO PAULO, BRAZIL - NOVEMBER 16: Patricia Abravanel poses for photographers during the book launch of her mother, Iris Abravanel, 'Recados Disfarçados' (Disguised Scraps) in the FNAC Pinheiros Bookstore on November 16, 2010 in Sao Paulo, Brazil. (Photo by Fabio Guinalz/FotoArena/LatinContent/Getty Images)

Patrícia,

tudo bem? Eu espero que sim.

Antes de te falar as coisas que eu desejo, acho melhor eu me apresentar. Meu nome é Beatriz Sanz, eu tenho 22 anos e sou estudante de jornalismo. Gostaria de ressaltar que sou bolsista e cotista, acho importante dizer que não tive um pai com condições financeiras de pagar meus estudos em boas escolas ou boas faculdades e o governo cumpriu o seu dever constitucional de financiar minha educação.

Eu sou negra. Isso também é importante porque a minha mãe foi empregada doméstica, passadeira e trabalhadora rural durante toda sua vida. Por muito tempo eu pensei que desempenharia o mesmo tipo de trabalho que ela. Até hoje, eu não sei muito sobre as minhas raízes e honestamente já perdi as contas de quantas vezes eu disse "chuta que é macumba", porque me foi negado o direito de saber o tipo de religião que meus ancestrais professavam.

Eu também sou bissexual. Descobri minha sexualidade na adolescência e foi complicado, porque eu acreditava que a minha família não me aceitaria e eu tinha medo. Hoje eu namoro uma mulher maravilhosa, que aliás, você deveria conhecer e a minha família teve a melhor reação, uma que eu nem poderia sonhar. Eu sou muito feliz.

Agora eu queria te contar um fato que aconteceu comigo. Neste fim de semana, eu estava com a minha namorada e sua priminha de seis anos, uma criança muito esperta e encantadora. Nós estávamos assistindo filmes de princesa da Disney. Escolhemos "Valente" e "A Princesa e o Sapo", porque eu acho que são histórias de mulheres fortes e me reconheço nelas. Gostaria que a menina também entendesse que ela pode ser forte.

Em um momento, eu falei que iria me casar com a minha namorada e perguntei pra ela o que ela pensaria do nosso casamento. A resposta foi "viadas". Questionei a garotinha porque ela tinha dito aquilo e ela disse "eu vi na TV que mulher com mulher não pode casar".

Eu fiquei chocada com as respostas dela. Chamamos ela para conversar e explicamos rapidamente que o nosso amor é igual a qualquer amor onde haja respeito e carinho. Ela pareceu entender e nos disse "tudo bem, quando vocês tiverem filhos, eu cuido deles para vocês trabalharem".

Mas aquele momento me consumiu por dias e me consome agora quando te escrevo, depois de ter desabafado com amigos e conversado a respeito com a minha namorada.

Eu estudo para ser comunicadora, me orgulho de ter algumas matéria publicadas e de já trabalhar na área, mas eu sempre me pego pensando no papel que a comunicação exerce na vida diária das pessoas.

É por isso que quando você diz que "não é normal" que eu namore uma mulher ou que se deve ensinar que "homem é homem, mulher é mulher", você me agride. É por isso que quando você diz que a África é atrasada e esquece que aquele continente foi saqueado e as pessoas de lá sequestradas, você me agride.

Você tem um papel social na nossa comunidade. Existem pessoas que te ouvem e que reproduzem aquilo que você diz, enquanto vão trabalhar no metrô lotado. "Você viu o que a filha só Silvio Santos falou?"...

Como estudante de jornalismo, eu aprendi a respeitar a opinião e a liberdade de expressão de todas as pessoas. Mas a sua liberdade de expressão não te dá o direito de me agredir.

Espero que você me ouça e me entenda. Eu só quero ter meus direitos e minha identidade de mulher negra bissexual respeitada.

Um abraço,

Beatriz.

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