OPINIÃO

Economistas e educadores: é hora de dialogar

23/09/2014 16:41 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02
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Um embate tomou conta do meio educacional brasileiro: economistas de um lado, pedagogos do outro, trocando farpas como se não fosse possível buscar um denominador comum sobre as diversas questões debatidas por ambos.

Em linhas gerais, educadores acusam economistas de não entenderem quase nada sobre educação, e economistas acusam educadores de não se debruçarem sobre estudos quantitativos para embasar o que defendem sobre educação. Educadores tendem a enxergar educação como direito de todos, já que ela cumpriria o papel de emancipar cidadãos. Já os economistas tendem a ver educação como um fator no processo de desenvolvimento econômico. Economistas, treinados a pensar como gestores, ficam de cabelo em pé quando educadores propõem que o governo invista mais em X ou Z para garantir o direito à educação - de onde sairá o dinheiro?, perguntam. Educadores também ficam de cabelo em pé quando têm acesso a algum estudo feito por economistas que testa a eficácia de uma política educacional ou uma prática pedagógica - afinal, os especialistas em sala de aula são eles, os educadores. Obviamente, essas são generalizações e há variações nesses perfis.

Entendo os argumentos de ambos os lados. Como jornalista, venho cobrindo educação durante os últimos sete anos, e aprendi sobre o assunto com quem o vivencia todos os dias: professores, diretores, alunos e pais de alunos, e pedagogos. Como cientista política, venho estudando os métodos quantitativos usados por economistas. Com base nas experiências que tive, pergunto: quão produtivo é esse embate?

Ambos teriam a ganhar com o estabelecimento de um diálogo construtivo. Se economistas conhecem pouco sobre educação, podem ensinar e ajudar a traduzir o aparato estatístico de análise de dados, que infelizmente ainda é dominado por poucos no meio educacional. Se educadores não dominam esses métodos quantitativos, têm um conhecimento profundo sobre a história da educação e a realidade das escolas brasileiras, conhecimento que poucos economistas têm hoje em dia. Essa diversidade é, na verdade, desejável. Em um texto de 1959 sobre formulação e implementação de políticas públicas, o cientista político Charles E. Lindblom fala que a resolução de problemas complexos exige a presença tanto de especialistas que tragam uma perspectiva histórica e aprofundada sobre determinada política, quanto de especialistas de outras áreas, classes sociais ou regiões geográficas.

Eu mesma tenho culpa no cartório em relação a esse embate. Certa vez, escrevi um editorial criticando a incapacidade de economistas em entender que, em educação, as pessoas podem não agir racionalmente respondendo a estímulos financeiros. Mas será que eles não podem entender? Parece que estamos cada vez mais preocupados com as diferenças, e, por esse motivo, menos atentos a possíveis pontos de concordância entre as duas áreas. No fim das contas, esquecemos que a preocupação é uma só: melhorar a qualidade da educação no país.

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