OPINIÃO

Você quer ou queria querer?

17/07/2015 15:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
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beautiful young lady thinking...

Depois de uma frustração por não ter conseguido um emprego ou após um pretenso namoro que não engatou, algumas vezes me perguntaram: "mas você realmente queria isso?". Eu tinha raiva dessa pergunta, poxa, era óbvio que eu queria, se não quisesse não estaria triste e desiludida. Com o tempo (e a terapia) a gente vai percebendo a sutiliza do querer, enxergando melhor nossas entrelinhas e as nuances dos nossos desejos. Aos poucos (bem aos poucos mesmo) vamos aprendendo a diferença entre "querer querer" e querer de verdade.

Muita gente vive da forma como "deveria querer viver" mas não da forma como de fato quer. Tem um emprego bacana (aos olhos dos outros), um marido bacana (aos olhos dos outros), uma vida tranquila (aos olhos dos outros). No fundo, não está satisfeita. Quando pequenas, vão nos ensinando o que é bom e o que é ruim, como se o julgamento e o critério de avaliação de todas as coisas fossem padronizados. A gente internaliza tanto o socialmente bom e o socialmente ruim que é difícil depois investigar, lá no fundo da alma, o que é bom e ruim para a gente, eu, comigo mesma, indivíduo único. Enquanto isso, vamos batendo cabeça, perdidos e confusos. E nos conformando em ser aparentemente felizes.

Tenho uma prima que há uns 15 anos estuda para concurso. Ela é inteligente e estudiosa. Mas, puxa vida, por que até hoje não passou para nenhum cargo, nenhunzinho? Descobri o motivo outro dia, quando alguém me falou uma frase atribuída a Saint-Exupéry: "Só há ordem onde há perspectiva de êxito". Se a pessoa não acredita verdadeiramente que vai conseguir vencer ou conquistar algo, ela não consegue se organizar (externamente e, o principal, internamente) e se dedicar com afinco à sua meta. "Sem querer", usa todos as ferramentas possíveis de auto sabotagem. Em última instância, não acredita na sua própria capacidade. Ou desconhece o seu real desejo. Ela queria querer passar, mas de fato não quer.

Tem gente que se casa e dois meses depois está separada. Por que? Poxa, ela de fato queria querer casar, queria querer aquele homem, tão bom partido, mas, quando foi ver a real, de fato, ela não queria. Fazer o que? Pelo menos bancou voltar atrás e enfrentar o julgamento de todos que entendem a postura como "falta de maturidade" ou "irresponsabilidade". Tem gente que é doida para engravidar e, logo após o filho nascer, mergulha numa depressão pós-parto. Será que queria mesmo ser mãe? O estilo de vida de uma mãe combinava mesmo com essa pessoa? Ou ela queria querer o socialmente desejável?

Tudo o que é raro causa estranhamento. E são raros os que se perguntam "quem sou eu de fato? Quero o papel social que me foi atribuído? Quero o papel de gênero que me foi vestido?". Mais raros ainda os que decidem bancar viver de acordo com respostas que escampam às expectativas sociais.

Descobrir o próprio querer e bancá-lo seria tão mais fácil se fôssemos estimulados desde crianças à capacidade de deduzir e de fazer perguntas inteligentes, em vez de "decorar" as respostas "certas" e sermos punidos pelas respostas "erradas". A escola ensina que existe o certo e o errado, e dá notas baseadas nisso. Se o sistema de ensino, de educação e de pensamento não mudar, a gente vai continuar crescendo com essa mania de preferir estar certo e preferir querer o "certo" do que aprender algo novo, do que parar para pensar e repensar sempre sobre o que a gente quer.

Esses dias eu estava lendo sobre "design thinking", uma nova abordagem das ciências humanas que propõe a hierarquia de raciocínio do designer para criação de marcas e produtos. E entendi que a maneira de pensar de um designer não é a do certo ou do errado, porque não existe certo ou errado na hora de projetar, por exemplo, um bule de café. Mas existe o melhor, o mais eficiente para o público-alvo específico. E quando o público-alvo é a gente mesma? A gente sabe modelar nossa própria vida de acordo com os nossos desejos, o nosso perfil? Ou se conforma em repetir mais do mesmo, nivelando por baixo o padrão do produto que se encaixa sempre "mais ou menos" na nossa vida?

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