OPINIÃO

Você quer mesmo ser mãe de uma princesa?

13/02/2015 17:16 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02
brebca via Getty Images

Demorou para a sociedade começar a debater abertamente a melhor maneira de lidar com garotos que querem sair por aí vestidos de princesa. O que me intriga é a falta de polêmica em relação ao fato de as meninas continuarem idolatrando as fantasias de princesa em pleno século XXI. E o pior: estimuladas pelas mães. Enquanto meninos bem pequenos começam a lutar pelo direito de usar vestidos livremente, suas coleguinhas do sexo feminino abdicam das calças, que Coco Chanel tanto lutou para que pudessem legítima e livremente usar. E seguem glamurizando os longos vestidos, cheios de brilhos, que lhes travam os movimentos e as fazem suar baldes.

Essa ode às princesas começa logo que se descobre o sexo do bebê: "vai ser uma princesa!", anunciam as mães. Sempre me incomodou esse substantivo adjetivado, aparentemente elogioso atribuídos às filhas. O que pode parecer um atributo que lhes confere beleza, doçura, feminilidade, delicadeza, é, a meu ver, tão ultrapassado quanto a monarquia.

Sem se atentar ao simbolismo da palavra e aos valores que ela carrega, as mães, ao cultivar em suas meninas a identificação com as princesas, podem estar escravizando-as dentro de um modelo do qual elas próprias fogem. Princesas vivem encasteladas em um estereótipo de mulher muito subjugado, passivo e narcísico. Passam a vida à espera de seu príncipe encantado - que precisa ser belo, alto forte e rico -- e são o que são por hereditariedade, não por mérito.

Não preciso ir a bailinhos de carnaval para encontrar essas pequenas fantasiadas com a vestimenta real. Elas estão por toda parte, a qualquer hora do dia e período do ano: no parquinho de areia do bairro (onde correm tropeçando no vestido), na brinquedoteca do shopping, no supermercado, e até dentro de casa. Sempre deslumbradas consigo mesmas naquele papel, sem saber o que de fato estão representando.

São Belas Adormecidas, Cinderellas, Brancas de Neve, Rapunzeis. Mulheres que só se despertam a partir do beijo de um príncipe, ou que precisam chorar para curar a "cegueira" dele. Devem ter acesso bem difícil para serem realmente princesas,e deixar suas longas madeixas crescerem para que seu príncipe possa alcançá-las, subindo em suas tranças até chegar ao alto da torre onde habitam. Seduzem pela passividade: quanto mais "adormecidas", mais belas. Uma beleza inerte, objeto de cuidado e de contemplação. São submissas às bruxas más -- mulheres autossuficientes e poderosas, que não precisam de príncipes para atuarem. E dão a outra face para as irmãs mais velhas que as maltrata. Fazem sem reclamar o serviço doméstico durante o dia, como uma bela gata borralheira, para à noite se revelarem deslumbrantes - mas fugirem antes da madrugada, deixando apenas uma pista para que seu príncipe rico e poderoso as encontre.

Esses personagens femininos parecem não se encaixar em nada com o que somos hoje. Como é que ainda exercem em nós tanto fascínio? Por mais modernas que sejamos, por maior a independência financeira e liberdade de comportamento que tenhamos conquistado, e por mais que tenhamos, sim, outros modelos interessantes de mulher nos desenhos animados para nos identificar -- afetivamente permanece no nosso DNA cultural aquele modelo psíquico e mental de identidade feminina tradicional.

Quando será que vamos rasgar essa fantasia (que não nos confere poder, como aparenta, mas fraqueza) e dar às nossas filhas um papel mais nobre?

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