OPINIÃO

Por que as crianças nos encantam tanto?

06/08/2015 15:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Getty Images/Flickr RF

Elas não são artigo raro. Estão por toda parte. No shopping, no supermercado, nas calçadas, brincando embaixo do prédio. Cerca de 3 milhões de crianças nascem a cada ano no Brasil. A maior parte segue o mesmo ritmo de desenvolvimento: aprende a sorrir, a sentar, depois a engatinhar, a andar, a falar as primeiras palavras, a ler e escrever. Há milênios funciona assim, tudo tão previsível... E, mesmo assim, ao encontrar uma delas no meio da rua, imediatamente paramos para apertar suas bochechas e repentinamente nos tornamos bobo-alegres com aquela voz infantilóide, como se elas fossem extraterrestres. Por que elas seguem nos encantando e surpreendendo a cada novo gesto e aprendizado?

Inofensivas no estado mais puro do ser humano, elas não nos causam medo, ansiedade, estranhamento, nem nos despertam defesas. Nos desarmamos diante de alguém sem malícia, sem conceitos nem pré-conceito algum. Acho que nos encantamos por pensar: "nossa, já fomos mesmo assim um dia?".

Meu filho completa três anos este mês, já se passaram mais de mil dias que convivo com ele, mas continuo abobada, encantada. Não me canso de me impressionar. Os hormônios da gravidez já evaporaram faz tempo, mas meus olhos se enchem de lágrimas a cada pequena (e aparentemente banal) conquista: chutar a bola no gol, aprender a desenhar um quadrado, beber água no copo, pular de um pé só que nem o Saci Pererê, o primeiro dia de aula.

Meu queixo cai e meu coração amolece toda vez que meu menino se mostra... um ser humano comum, com sentimentos, vontades e personalidade própria. É como se eu esperasse que bebês não compreendessem nada, não sentissem nada, fossem como objetos e, de repente, ao comprovar que são gente, me despertassem: sim, são seres humanos, não bonecos!

Mas, se dar a luz é tão corriqueiro e um pressuposto para estarmos aqui, por que segue sendo, diariamente, um ato tão glamurizado, romantizado, divinizado?

Talvez porque nos sentimos deuses e deusas por conseguir reproduzir um ser humano à nossa imagem e semelhança. Ou talvez porque a vida (e a morte) siga sendo um mistério. Não sabemos por que existimos, para onde vamos, e seguimos inventando motivos. Cada criança que nasce renova nossas eternas questões existenciais. Bem como nossos motivos para seguir vivendo e achando que vale a pena.

A criança que nasce de dentro da gente nos remete a nós mesmas, à nossa própria infância. E nos causa a sensação de que é possível recomeçar. Nos projetamos naquele ser e vemos nele a chance de nos refazer, de concretizar desejos não realizados e de "acertar". Nesse sentido, parece mesmo um milagre.

É como se a gente pudesse rebobinar a fita e compreender como nossa própria estrutura foi construída, assistir de camarote como nosso padrão mental foi sendo moldado a cada nova experiência. É como revisitar a origem dos nossos medos e desejos. Compreendemos como tudo começa, como evolui e como vamos criando manias, neuroses, conflitos internos, paixões. Como mãe, revivo, em tantos momentos, a minha própria infância através do meu filho. Muitas vezes é como olhar com distanciamento para mim mesma. Em última instância, a criança que sai da gente é nosso ego materializado.

Mas, para além de tudo isso, a capacidade de gerar uma criança é a realização do maior sonho do ser humano: ser eterno. Porque apesar de cada um de nós, individualmente, perecermos, a humanidade se renova ad infinitum.

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