OPINIÃO

O que eu vou ser quando envelhecer?

12/04/2016 11:53 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Tim Flach via Getty Images
Studio photograph of elderly woman's hand beside a younger woman's hand.

Desde criança eu ouvia as pessoas dizerem que sou distraída. Vivia no meu mundinho particular, das ideias, sem prestar muita atenção no espaço físico ao meu redor. De fato, a cor da parede ou o material dos móveis nunca me chamaram muito a atenção. Mas, na verdade, eu não era distraída, apenas focava meu olhar nos seres humanos e gostava de elocubrar como devia ser estar na pele deles. Principalmente na dos mais velhos, como que para imaginar o que me aguardava logo ali na esquina da vida.

Observava o meu pai organizando as contas da casa, correndo para nos levar para a escola, para a aula de natação, para o curso de inglês. Conversando na mesa do almoço sobre política enquanto assistia ao jornal. Negociando com o gerente do banco a melhor aplicação para organizar sua poupança para a compra de um carro e para nossos estudos no exterior. Aquilo tudo me parecia tão árduo. Eu pensava: "como deve ser difícil ser adulto, acumular tantas responsabilidades. Será que eu vou conseguir me organizar assim, administrar tudo isso?". Uma vez até expressei este raciocínio em voz alto para o meu pai. Ele sorriu e disse "a gente tem que dar conta, aos poucos vamos acrescentando novos compromissos e nos habituamos a eles".

Na pré-adolescência, eu gostava de observar minhas primas mais velhas, que eram muitas, se aprontando para sair à noite nas férias na casa da minha avó. Tudo começava bem cedo, tomando sol no quintal e passando água oxigenada nos pelos do corpo.

Nas refeições, só sopa e mamão, para ficar com a barriga sarada na hora de vestir a roupa. Máscara no rosto para deixar a pele lisinha, hidratação nos cabelos. Delineador em volta dos olhos (como elas conseguem passar?), escova, base, batom. Perfume em locais estratégicos do corpo. Calcinha e sutiã bem sexy, escolhidos a dedo.

Para finalizar, aquelas roupas que marcavam cada centímetro do corpo e tampavam o mínimo possível. E então, elas saiam, todas juntas, gargalhando e tagarelando. De madrugada, eu sempre acordava com o tititi das fofocas pós-balada.

Achava aquilo tudo muito divertido. E, ao contrário do mundo dos adultos, a vida dos jovens parecia mágica e encantadora. Eu mal poderia esperar para chegar naquela esquina.

As expectativas foram quase todas preenchidas: vivi com intensidade e paixão a juventude, e hoje, profissional casada, com filho, continuo achando difícil organizar todos os setores da vida. Talvez eu não tenha sido capaz de dar um novo olhar, no presente, para o cenário que havia vislumbrado previamente.

Hoje eu estava no banheiro da minha academia, onde tem muitas senhoras da terceira idade. Parei para observar seus movimentos lentos trocando cada peça de roupa que vestia sua pele flácida. Calcinha e sutiã beges. Penteavam cuidadosamente os cabelos grisalhos. Com a calma de quem não tem mais filhos pequenos esperando para serem cuidados, nem adolescentes que precisam ser vigiados. Com a calma de quem talvez não tenha nem mais marido, nem uma casa movimentada para administrar. Com a calma de quem não tem mais chefe para dar satisfação, nem trabalho para tocar. Calma.

Tive sentimentos ambíguos em relação à próxima esquina por onde vou passar (na melhor das hipóteses). Há algum tempo talvez eu sentisse medo ou pesar. Mas ando tão exausta desta vida frenética, que já há alguns anos tenho aprendido a desassociar estar sozinho e em paz de sentir-se solitário, e a distinguir calma de tristeza. Talvez possa haver, sim, alegria na tranquilidade. Deve haver um certo alívio quando se sente praticamente obrigada a viver mais lentamente. Mais do que não ter mais forças para correr, não se tem mais pressa. Isso pode ser libertador depois de anos de labuta, de urgências, de prazeres e desprazeres intensos.

Então, antes de me permitir ter pena da vida que eu quase julguei "vazia de sentido" dessas senhoras, tento imaginar a preguiça que elas devem sentir só de olhar para mim correndo para me aprontar, tentando secar os cabelos ao mesmo tempo que contorço o pescoço segurando o celular com os ombros para dar algumas ligações urgentes, e saindo ofegante, acelerada, sem mal ter tempo de dizer "até logo", para não perder a hora de chegar no escritório.

Saí da academia satisfeita em pensar que estou me preparando para ser uma velhinha feliz. Porque cada fase deve ser vivida em sua inteireza.

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