OPINIÃO

Mãe, te odeio porque te amo

Algumas mulheres devem saber "negociar" melhor a amarga descoberta que as filhas vão fazendo aos poucos: a de que a mãe é uma mulher múltipla e imperfeita.

14/05/2017 11:13 -03 | Atualizado 14/05/2017 11:13 -03
Divulgação/Warner Bros
Em "Girlmore Girls", Lorelai (filha e mãe) e Kelly (mãe e avó) têm dificuldade no relacionamento.

Quando eu era pequena, era tão fácil escrever um cartão de Dia das Mães para entregar junto ao presente. "Mãe, você é a melhor mãe do mundo. Te amo" eram as duas frases clássicas que eu repetia ano após ano durante toda a infância. Eram palavras verdadeiras, que pareciam jorrar diretamente do meu coração para o bilhete. Eu acreditava piamente em cada letra escrita.

Algumas décadas se passaram, muitas fichas caíram, e hoje, me vejo aqui, na véspera do Dia das Mães, diante do papel, sem saber o que escrever para ela. Já há algum tempo caiu por terra aquela imagem romantizada, da mãe idealizada, aquela que deveria ser a melhor mãe do mundo: doce, compreensiva, companheira, acolhedora, amorosa, generosa, paciente... Quase uma santa. E ainda não me conformei com o fato de ela não ser perfeita.

Eu não sei o que aconteceu primeiro, se fui eu que frustrei suas expectativas ou se foi ela quem frustrou as minhas. Só sei que percebi que, depois que virei adulta e não cabia mais me dar castigo ou beliscões, minha mãe passou a me punir de outras formas, mais sutis e sofisticadas. Algumas vezes mais perversas também.

E então, aquela mulher poderosa, que tudo sabia sobre o mundo e sobre mim, que me conhecia como a palma de sua mão, que antecipava meus pensamentos e minhas vontades, que me dava colo, sábios conselhos e enxugava minhas lágrimas, não existe mais.

Hoje consigo enxergar (apontar e enumerar) todos os seus defeitos, e talvez essa descoberta seja imperdoável tanto para ela quanto para mim.

Agora, que tenho filho ainda pequeno, estou vivendo aquele momento que nenhuma mãe queria que passasse: me delicio com o prazer único e imbatível de ser protagonista na vida dele, que me coloca em um pedestal de 30 metros de altura. Compreendo que cair de uma altura dessas deve ser bastante dolorido.

Mas algumas mulheres devem saber "negociar" melhor a amarga descoberta que as filhas vão fazendo aos poucos: a de enxergar que a mãe é uma mulher múltipla, imperfeita, com desejos próprios e tantas vezes incompatíveis com os das filhas.

Quantas vezes me senti triste e pensei em ligar para a minha mãe, mas recuei para evitar que ela me colocasse mais uma vez para baixo com críticas por uma escolha malfeita que fiz ou um fracasso qualquer da vida. E tantas outras arrisquei contar algo esperando ouvir uma frase otimista de alento e, ao contrário, ouvi profecias pessimistas ("eu te avisei", quando tudo o que eu queria era que ela me dissesse "não tem problema, vai passar"). Quantas vezes ela não percebeu que tudo o que eu precisava era de colo e, em vez disso, me deu bronca.

Poxa, mas mãe não deveria ser aquela que fala a palavra certa na hora certa?

Quantas vezes me empenhei para seguir o caminho que ela havia me indicado e senti que, ainda assim, não fui boa o suficiente para ela?

Poxa, mas mãe não é aquela que aplaude e acha tudo o que o filho faz lindo?

Eu me sentia muito confusa com esta questão até conhecer Elena Ferrante. A autora italiana, que no ano passado teve vários de seus livros traduzidos para o português, desmistifica em grande estilo a mãe romantizada, e o amor materno da forma idealizada como tradicionalmente é concebido. Elena consegue ser tão honesta ao relatar os sentimentos de suas personagens que chega a ser cruel com a natureza humana.

Ela aborda de maneira muito singular a maternidade ao construir protagonistas que são mulheres sensíveis, conflituosas, inquietas e tantas vezes desconfortáveis em seus papéis de mãe e de filha. Faz isso especialmente em duas de suas obras: A filha perdida, em que relata uma história do ponto de vista de uma mãe, e Um amor incômodo, em que a narrativa é construída do ponto de vista de uma filha.

Em A filha perdida, a protagonista é uma professora universitária de meia-idade que, aliviada depois de as filhas já crescidas se mudarem para o Canadá com o pai, decide tirar férias no litoral sul da Itália, onde vivencia situações que a fazem lembrar da sua trajetória de vida.

Ela então relata situações e sentimentos provavelmente universais mas quase inconfessáveis, pois nada politicamente corretos. Como quando sentiu inveja da beleza e juventude das filhas adolescentes e confessa ter se embelezado para chamar a atenção do namorado de uma delas, numa clássica competição feminina.

A protagonista também fez desabafos reveladores sobre uma mágoa talvez bastante comuns entre as mães de filhos já crescidos, como quando diz: "que idiotice pensar que você pode falar de si mesma para seus filhos antes de eles terem ao menos 50 anos de idade. É demais pedir para ser vista por eles como uma pessoa e não como uma função". E então, ela acende uma luz de compreensão no meu coração de filha machucado: "uma mãe é apenas uma filha que brinca".

Em Um Amor Incômodo, a personagem principal é uma mulher de 45 anos que retorna à sua cidade natal para enterrar a mãe, encontrada morta em circunstâncias suspeitas. A narrativa segue no sentido de apresentar a relação conflituosa de amor e ódio da filha com relação à mãe e a necessidade de "matá-la" simbolicamente para sobreviver como um indivíduo singular.

Traz frases fortes como "era a língua da minha mãe, que eu tentara inutilmente esquecer junto a tantas outras coisas dela". E ainda: "nenhum ser humano jamais se desligaria de mim com a mesma angústia com que me desliguei da minha mãe apenas porque nunca consegui me apegar a ela definitivamente".

O que fazer, afinal, para lidar melhor com uma relação tão delicada e conviver em paz? A resposta talvez passe pela pergunta "afinal, o que quer uma mãe?", parodiando a clássica questão original de Sigmund Freud em seu consultório: "o que quer uma mulher?", ao tentar investigar o desejo feminino.

Aos poucos, vou me dando conta que voltar a amar a mãe, depois de tantas frustrações mútuas, envolva compreender que o que as mães querem das filhas é, na verdade, o que elas querem de si mesmas. E o que fazem contra as filhas é o mesmo que fazem contra si próprias. Porque não foram capazes de enxergar que são seres apartados, a filha não é uma extensão delas.

Assim, uma mulher perfeccionista será exigente ao extremo com a filha. Outra que tem uma baixa autoestima jamais vai achar que a filha é boa, bela ou inteligente o suficiente. Se, ao contrário, é desencanada e bem resolvida com seus próprios desejos conseguirá talvez ter uma relação mais gostosa com a filha.

Voltar a amar sua mãe passa por cortar este cordão umbilical com o nó tão apertado, que a mãe teima em não soltar. Ao enxergar que os defeitos que ela aponta em você remetem, na verdade, a ela mesma, vai doer menos na sua pele, e mais na dela.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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