OPINIÃO

Detesto ser patroa

10/08/2015 18:39 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Alija via Getty Images

Desde que me casei e me tornei mãe, me senti obrigada a cumprir um papel no qual nunca havia me imaginado: o de "patroa". Como repórter, desenvolvi um olhar de cumplicidade em relação ao drama de trabalhadores e trabalhadoras de todas as classes sociais, convivendo mais de perto com seus problemas, e ouvindo suas histórias com a escuta sensível e o máximo de distanciamento possível da minha posição social privilegiada. Funcionárias domésticas sempre foram, para mim, as melhores fontes para relatar problemas com os serviços públicos e mazelas sociais de toda espécie, os quais - protegida dentro da minha redoma de vidro de classe média -, não tenho oportunidade de ver de perto e sentir na pele.

Hoje, entretanto, é uma necessidade básica para o meu atual estilo de vida - de profissional, esposa e mãe - ter duas funcionárias em casa: uma para cuidar do meu bebê enquanto estou trabalhando, outra para cuidar da casa. Neste contexto, tenho sofrido para me reposicionar em relação a elas.

Como é delicada tal relação de "poder": um conflito de classes constante dentro de casa - quase sempre implícito, e por vezes explícito. Fico entre ser "camarada", humana, amiga, gente boa, e ser exigente, fria, profissional. Por vezes me sinto explorada, noutras, culpada.

Odeio quando me vejo com comportamentos elitistas, como quando desconfio que estão mentindo ao dizer que vão faltar porque estão doentes - como frequentemente acontece - ou fico com raiva porque comeram o último pedaço de bolo da geladeira, algo nada raro. E me incomoda muito a frase que sempre ouço das minhas amigas "Esse povo, aff...tsc tsc". Mas confesso que cada dia mais me vejo do lado oposto ao das minhas funcionárias do lar -- cada uma lutando com suas armas pelos seus próprios interesses, sempre desencontrados.

No início da minha jornada de patroa, eu fazia de tudo para ser humilde, compreender o lado do trabalhador. Ouvia seus problemas, me sensibilizava, deixava faltarem serviço para levar a irmã ao médico, emprestava dinheiro para comprarem a casa própria, pagava médico particular quando não conseguiam uma consulta no SUS. Mas me surpreendi quando, nas vezes em que precisei de algum sacrifício da parte delas, como ficar mais horas em casa, ou dormir numa noite fora da combinada por conta de um imprevisto, não fui atendida e me deparei com uma inflexibilidade sem tamanho.

Em um primeiro momento, fiquei chateada. Mas logo caiu a ficha de que eu não podia esperar delas a postura generosa que eu tentava ter. Até porque, a minha postura generosa adivinha do fato de eu ter "pena" delas por ocuparem uma posição social e econômica inferior à minha. Me sentia na obrigação moral e social de ser sensível a seus problemas, e por vezes agir com o coração.

Elas, do outro lado, sempre estariam numa postura defensiva, porque se sentem previamente injustiçadas e humilhadas - pela sociedade, pelo governo, pelo sistema. Eu não tenho culpa, individualmente, pela vida dura que levam. Mas sou a representação da classe média, daquela que elas almejavam ser e não podem ser, daquela que foi beneficiada e paparicada a vida toda, enquanto elas foram tão sacrificadas e penalizadas. Daquela que sempre fez parte do grupo que tem poder e influência, enquanto elas obedecem, sempre obedeceram e estão fadadas a passar o resto da vida obedecendo.

Comecei a achar elitista ser tão generosa. E passei a me cobrar uma postura mais profissional e sóbria. Hoje eu quero apenas ser justa. Ouvir menos, trocar menos confidências, mas pagar direito e relativizar os seus defeitos, contextualizando-os dentro da realidade delas, e não da minha.

Aprendi a não sofrer quando fazem cara feia por eu pedir que se lembrem de limpar o canto da sala atrás do sofá (algo que, supostamente, seria dever delas, e o meu, o de cobrar quando não é cumprido). E toda vez que começo a sentir raiva porque uma delas tem chegado constantemente atrasada porque o ônibus quebrou, tento lembrar que a minha vida é tão mais fácil, e que elas contribuem muito para isso.

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