OPINIÃO

Cuidado: não é apenas brincadeira de criança

16/03/2015 18:48 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Foi em um parquinho de areia comum em West Hollywood, um bairro de classe média alta de Los Angeles, que tive a sensação de definitivamente compreender a cultura norte-americana e seus desdobramentos. Ao observar aquelas crianças brincando no playground, me caiu a ficha de um jeito que jamais fui capaz de alcançar nem mesmo depois de morar e visitar cerca de 15 vezes aquele país. Por comparação, revisitei a minha própria cultura, a brasileira, e seus efeitos colaterais.

Entre escorregadores, balanços e trepa-trepas, bolas, baldinhos e castelos de areia, as crianças são extremamente... "educadas", como classificaríamos aqui. Não gritam, não jogam areia umas nas outras, não disputam brinquedos, não empurram, nem furam fila para brincar. Meu filho se sentiu sozinho. Não por não entender o que as demais crianças falavam, mas principalmente porque elas não interagiam de nenhuma maneira com as demais "estranhas". Tampouco os pais e cuidadores presentes -- que aparentemente são frequentadores rotineiros daquele espaço porque moradores locais -- trocavam uma palavra uns com os outros.

Aos dois anos e meio, meu filho é extremamente afetuoso e, ao ver uma garotinha loira de olhos azuis da mesma idade, que mais parecia uma boneca, encantado, tentou timidamente acariciar o rostinho dela, ao que ouviu a mãe da menina alertar com entonação simpática e infantilóide: "hey, you are not supposed to touch other children", puxando sua filha para si. Tradução: "você não deve tocar em outras crianças". Sem entender as palavras, mas compreendendo muito bem o olhar, meu filho recuou e me olhou constrangido.

Eu não poderia acusar a mulher de preconceito racial: meu menino - branquelo, loirinho e de traços delicados - poderia facilmente se passar por "um deles". Porém, em um primeiro momento, achei a atitude exagerada e até "violenta" para com uma criança, e cheguei a me sentir ofendida. Mas logo depois racionalizei, analisei com "distanciamento antropológico" e concluí que tudo o que vemos de bom e de ruim no jeito americano de ser é aprendido desde muito cedo. E uma das regras número um de convivência entre eles é o respeito à privacidade, o que não deixa de ser a origem do respeito às diferenças. Então, respeitei, sem julgar.

A cena me levou a uma viagem em retrospectiva a diversos momentos que vivenciei cá e lá, nas diversas vezes que estive nos EUA, quando estudei um ano durante o ensino médio em uma escola na Filadélfia e fiquei hospedada na casa de americanos. Revisitei o jeito brasileiro de ser, os meus relacionamentos amorosos e até reanalisei as últimas notícias sobre a política brasileira. Por fim, repensei a forma de educar o meu filho.

Me dei conta das repercussões e desdobramentos que tal aprendizado - o do respeito ao território alheio - produz no ser humano, nos relacionamentos interpessoais e em sociedade.

Naquele período em que fiz intercâmbio, aos 17 anos, tive um longo relacionamento com um gringo "da gema" que parecia ter saído de um desses seriados de TV enlatados que a gente adorava na adolescência. Ele era cool, popular, lindo de morrer e um lord comigo. Mas em várias ocasiões eu chegava a duvidar de seu amor por mim: ele não demonstrava ciúme, não perguntava o que eu estava pensando, não me cobrava satisfações, não pegava na minha mão no cinema e muito menos me beijava em público. Tampouco me dava espaço para fazer o mesmo. Eu ficava matutando sozinha os meus grilos sem me sentir no direito de expô-los. E o relacionamento fluía muito bem, obrigada, com ou sem grilos. A gente era companheiro, dava muita risada, ele me levava para jantar na casa dos pais, para esquiar, para fazer passeios de barco, para a balada, para reuniões entre amigos. Mas eu nunca estava segura o suficiente de sua paixão por mim simplesmente porque... ele não era machista e respeitava o meu espaço!

Só depois de eu voltar do Brasil e receber cerca de 80 cartas de amor e 50 telefonemas de horas de duração ao longo de um ano, seguidos de uma viagem ao meu país para me ver por 15 dias, eu tive certeza de que ele realmente era apaixonado por mim. No dia em que terminei o namoro - não por falta de amor, mas por questões logísticas -, ele não chorou, não se ajoelhou, não ameaçou se matar, nem ficou me ligando loucamente mil vezes implorando para reatarmos. Simplesmente disse "eu respeito sua decisão" e desapareceu (ok, mandou um presentinho via correio no meu aniversário, olha que fofo).

Me lembrei também das festas em família e reuniões na casa de amigos durante esta mesma experiência morando um ano nos EUA. As pessoas não se atropelavam ao falar, cada um respeitava a vez do outro e opinava apenas quando tinha certeza de que já haviam concluído o raciocínio. Nada nem parecido com a ansiedade absurda que demonstramos numa conversa entre mais de duas pessoas no Brasil.

Não vou negar que adoro aquela gritaria e atropelo que ocorrem entre familiares no Natal quando todo mundo se reúne, dá risada, briga, chora e relembra das mágoas. Também não nego o quão delicioso é viver aquelas paixões obsessivas com brasileiros passionais que nos levam do inferno ao céu. Afinal, meu sangue é brasileiro e sou quase uma personagem de filme do Almodóvar. Não estou aqui fazendo juízos de valor, apenas pontuando diferenças, suas origens e possíveis significados de comportamentos "estigmatizados" que, muitas vezes, por patriotismo ou ignorância, rotulamos de forma maniqueísta.

Fiquei me perguntando até que ponto o que chamamos de "ser caloroso" e "acolhedor" ao falarmos do "brasileiro" está de fato relacionado a afeto. Não seria este jeito de ser (ou forma de atuar) mais um sintoma de uma cultura permissiva que nos dá o direito de avançar em território alheio? Vou além: até que ponto a corrupção descarada, ostensiva (e tolerada) praticada no Brasil também não é fruto dessa cultura que confunde público e privado e que mistura o que é seu com o que é meu?

Somos vistos com um povo leve e alegre talvez por não sermos tão reprimidos em uma sociedade com regras confusas e pouco claras de convivência social. Numa sociedade que não costuma garantir por lei, pelas vias da Justiça, o espaço de cada um, independentemente da classe social, raça, cor e gênero, somos estimulados a disputar espaço e conseguir tudo na base do "jeitinho", ou seja, pela via da sedução, não por vias racionais.

Observar o relacionamento entre aquelas crianças americanas também me remeteu a uma dura realidade: sou responsável por todo e qualquer comportamento do meu filho. Ele não nasceu com uma personalidade X ou Y como muitas vezes quero crer. Crianças são produto de uma dinâmica familiar e cultural. Fato.

Aqui, entre os meus amigos brasileiros com os quais já peregrinei por todos os parquinhos da cidade, costumamos comparar o comportamento de nossos filhos da mesma idade na tentativa de traçar um padrão comum de comportamento. Quando detectamos este comportamento comum entre nossos pequenos, eu me sinto como que aliviada, pois é como se tirassem dos meus ombros a responsabilidade de ser eu mesma ou a dinâmica familiar da minha casa as causas de uma atitude eventualmente negativa do meu filho. Afinal, a maioria das crianças de 2 anos aqui disputa brinquedos, atropela as demais, "rouba" os objetos dos colegas no parquinho e não gosta de emprestar nem por um segundo os seus. Então, tudo bem... Só que não: já é a cultura instalada em cada passo que meu filho dá. Como fazer diferente inseridos, em contexto tão adverso?

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