OPINIÃO

Como funciona o seu segundo cérebro?

12/05/2015 15:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02
Hey Paul Studios/Flickr
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Eu já tinha ouvido falar que o intestino é o nosso segundo cérebro. E daí a origem do termo "enfezado" para descrever alguém que está bravo, com raiva e mal humorado. Tive certeza sobre a relação direta cérebro-intestino depois de uma experiência que vivi na sala de espera do consultório de um gastroenterologista na semana passada.

Na primeira consulta com esse médico, ele havia me alertado: "quem tem problemas no intestino normalmente tem um padrão mental bem característico. São pessoas mais intolerantes a frustrações, que acumulam raiva e supervalorizam os problemas. Costumo recomendar aos meus pacientes, além dos exames e remédios, lerem livros de física quântica, para se conscientizarem da importância de mudar a perspectiva a partir da qual vêem a realidade e, assim, modificar sua própria realidade, externa e interna". Difícil hoje em dia um médico que enxerga os pacientes como pessoas inteiras, e não pedaços de órgãos sem conexão nenhuma entre si.

As palavras do doutor se materializaram na minha frente assim que retornei ao consultório um tempo depois levando meus exames e tive contato com outros pacientes na sala de espera.

Ao chegar, pouco depois do meio-dia, noto que há cerca de dez pessoas aguardando para serem atendidas. Sorte que eu estou em um dia tranqüilo, malhei de manhã (o que sempre me deixa mais calma) e não tenho compromissos com horário fixo à tarde. Caso contrário, eu já teria entrado em pânico, com medo de não dar tempo de ser atendida, e, nervosa, corrido para o banheiro com dor de barriga.

Mas talvez eu seja a única pessoa momentaneamente zen naquele ambiente. Todos tem o semblante tenso e as pernas agitadas. Não demora para uma das pacientes, uma senhora perto dos seus 50 anos, vir puxar papo comigo: "você tem horário marcado? Eu vim tentar um encaixe, porque olha as bolinhas que apareceram na minha mão" - me mostra as mãos. Olho para as minhas e vejo que também tenho essas bolinhas, mas nunca me importei, sempre as associei apenas ao tom claro e à sensibilidade da minha pele, o que torna visível até os vasos sanguíneos, e faz com que tudo o que eu pegue imprima uma marca. Digo isso para a senhora, e ela retruca "não menina, eu pesquisei no Google e vi que pode ser problema de fígado! Um tempo atrás fui ao acupunturista e ele tinha me dito que parecia que meu fígado não estava legal. Acontece que eu fiz ecografia de abdome total outro dia e deu que meu fígado está ótimo! Não entendi nada. Mas, você imagina, eu já tenho intolerância à lactose, intolerância à frutose, imagina se ainda tiver problema no fígado! Vou sumir! Não posso ingerir nada!".

Poucos minutos depois, um outro paciente sentado ao meu lado, que não para de falar ao celular de forma bastante indignada, bufando e agredindo verbalmente a pessoa do outro lado da linha, desliga o aparelho e começa a praguejar. "Vê se pode: um nutrólogo me passou um remédio e me indicou uma farmácia. Fui até lá e a atendente disse que nunca ofertaram aquele remédio naquele lugar. Liguei de volta para o médico e a secretária dele não sabe me indicar outra farmácia que tenha o medicamento. Agora eu vou ter de sair procurando de farmácia em farmácia o produto e depois ainda fazer o favor de orientar o médico sobre qual farmácia indicar. Eu poderia cobrar por essa consultoria! Sabe que em São Paulo tem gente que trabalha só com isso: indicando para os médicos farmácias que oferecem remédios com exclusividade alguns medicamentos?".

Ele pega o telefone de novo, faz algumas outras ligações e, ao desligar, volta a praguejar. "Pronto, achei uma farmácia que tem o remédio. E você acredita que me informaram que o remédio que o médico indicou não é para o problema que eu tenho? Ele anotou errado! Vê se pode você pagar R$ 300 para um médico conceituado e ele confundir o medicamento? Eu poderia ter ingerido e morrido! É verdade, tem gente que morre por causa de medicação trocada! Isso valeria um processo judicial contra esse médico!". Ele volta pegar o celular e faz novas ligações.

Eu estava lendo um livro, mas o moço não se importa em me interromper pela terceira vez. "Essa cidade só tem incompetentes mesmo. É a segunda empresa de táxi que eu aciono que me deixa esperando uma hora para ser atendido ao telefone. Isso porque o primeiro táxi que chamei para me trazer até aqui se perdeu e foi parar em outro endereço. Eu já estou ligando para me buscarem porque sabe-se lá que horas eles vão conseguir chegar, nesse horário de rush. Meu carro está na oficina há um mês, eu paguei mil reais pelo conserto e tenho gasto 300 contos de táxi toda semana para ter esse tipo de serviço porco." Pausa. Continua. "E esse médico que não me chama?! Meu horário era meio dia, já são meio dia e meia. Eu preciso ainda almoçar e estar no trabalho às 14h. Meu trabalho é rígido com horário, não tem moleza não. Pelo jeito eu vou ter de ir embora sem ser atendido depois de ter gasto uma fortuna de táxi".

Eu já estava cansada daquele monólogo digno de personagem de Woody Allen, mas era cômica a situação. Na verdade começo a me questionar se estava mesmo na sala de espera de um gastro ou de um psiquiatra. Faz sentido: se o intestino é o segundo cérebro, o gastro não deixa de ser uma espécie de psicólogo. Então, resolvo interferir no "padrão mental" do moço, já que ele estava me colocando no papel de interlocutora. "Olha, eu estou vendo que você tem um padrão mental bem parecido com o meu. O doutor também te mandou ler livros de física quântica?". Consigo arrancar uma risada. "Sim, mandou", ele responde. "E você leu?", pergunto. "Não, não li não. Li um livro que se chama Barriga de Trigo, muito bom. Mostra como a nossa alimentação hoje em dia é toda baseada em trigo e como os trigos estão sendo modificados geneticamente, estamos consumindo veneno. É incrível como ainda há poucos locais que oferecem comida natural, vegana, com tanta gente que está tendo problema intestinal, um absurdo..."

Antes que ele pudesse dar continuidade ao seu arsenal de reclamações, eu reajo: "Pois é, eu também sei pouco sobre física quântica, mas comecei a perceber que o mundo não vai mudar e começar a funcionar perfeitamente da forma que eu espero. Então, sou eu que tenho de modificar a minha expectativa em relação ao mundo e às pessoas. Eu também fico bastante irritada com a incompetência dos atendentes, dos profissionais, das empresas. Mas vi que preciso ter mais bom humor e generosidade. E se eu começar a esperar que nada vai sair do jeito certo, vou me surpreender quando algo der certo e não me decepcionar a cada minuto com tudo que dá errado. Por exemplo: você realmente acreditava que o médico ia ser pontual?". "Sim, a secretária me garantiu", responde o homem. E eu insisto: "Mas você acreditou nela? Por que nunca na história dessa cidade eu fui a um médico pontual. Até porque este médico especificamente que vai nos atender daqui a pouco é muito tranquilo, e ele conversa com a gente como se não tivesse horário para terminar, o que é ótimo quando a gente está lá dentro da sala dele, não é? Afinal, quantos médicos hoje em dia de fato ouvem e olham para o paciente?". Finalmente a ruga entre as sobrancelhas do moço começa a ficar mais branda e ele concorda comigo: "é verdade". Então me acende uma ponta de esperança em relação à humanidade. "Veja pelo lado positivo: estamos desconfortáveis aqui esperando, mas seremos muito bem atendidos quando chegar a nossa vez. E vamos ser generosos com o médico: se nós não teremos tempo de almoçar, que dirá ele! Olha quantos pacientes tem esperando. E, no entanto, ele vai atender cada um da maneira como deve ser: com tranqüilidade e sem correria".

O moço começa a contar outro caso: "É verdade, ele é ótimo. Sabe que eu tenho um amigo que é dono de uma farmácia e ele disse que os médicos são os maiores consumidores de remédio tarja preta devido ao seu estresse e à falta de tempo para si?". Então eu fecho meu livro e falo "pois é! Coitados!". Engatamos no papo, ele me conta qual é o seu problema intestinal e espera calmamente até ser chamado.

Quando o homem finalmente entra na sala do médico e eu continuo do lado de fora aguardando, penso em ir embora antes de ser atendida. Não por impaciência, mas porque me dou conta de que aquela conversa talvez tenha valido mais do que a própria consulta. Tudo o que eu falei para o moço sobre a mudança na minha forma de enxergar o mundo e as pessoas era mentira. Até chegar ali naquela sala e me enxergar naquele homem raivoso e rabugento (ok, ele estava dois estágios acima de mim, mas eu me identifiquei com o pobre coitado), eu não tinha me dado conta de nada daquilo que disse para ele. Sem saber, o tal paciente foi a inspiração para que eu encontrasse o diagnóstico e a solução para o meu problema de intestino.