OPINIÃO

Uma conversa com 2015

01/01/2016 14:01 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
iStock

Querido 2015,

O Brasil não te quer bem. O País está comemorando a sua ida, implorando pra que você não traga mais surpresas. Você parte infame e será para sempre lembrado como o ano da morte do Rio Doce, da Lava Jato, da crise econômica e política, da alta do dólar, do atentado em Paris, da Chacina de Costa barros, do vírus zika, do #foraCunha ou do #foraDilma (dependendo de que lado está o portador das memórias).

Eu sei, 2015, a culpa não é sua. Sim, é uma tremenda injustiça jogar em você o peso de 515 anos de corrupção e descaso. Claro, eu também acredito em karma. Sei que o mosquito da dengue está aí há um tempão e nós não fizemos nada. E que a Vale veio, destruiu o Rio Doce e saiu impune.

E agora querem culpar você? Entendo sua indignação. Mas tenta entender também, ter um pouco de empatia. É muito coisa pra um ano só. Ninguém quer nem lembrar de que, quando o ano começou, o dólar estava em 2,80. E, como ninguém entende de verdade de economia, quando dói no bolso todo mundo perde a cabeça, não leva na pessoal.

Eu sei. É difícil não levar na pessoal quando você se sente injustiçado. Olha, eu não partiria pro contra-ataque. Dizer que o Brasil está tendo o que merece? Isso não é verdade, e é um papo elitista de quem acha que a culpa é "do povo" porque não sabe que o povo é o que o Brasil tem de melhor. Nosso sangue, nossa alegria, nossa cultura.

Claro, são inegáveis os retrocessos ao longo do ano graças ao Cunha e à sua corja, graças à Dilma e as suas alianças políticas. Isso não é de hoje e, eu concordo, as eleições foram em 2014, fora da sua gestão.

Sim, talvez apontar a arbitrariedade do calendário juliano que nós adotamos seja uma estratégia mais eficiente. Eu também vejo mais sentido em fases da lua do que em meses no calendário, mas aí você nem existiria, não é mesmo?

Isso, vamos falar de coisa boa, que não seja tekpik. Teve o Master Chef Brasil, que fez muita gente feliz. É, parece que foi injusto também, mas fez muita gente no Twitter feliz. É, eu sei que Twitter não é mundo real. E que ele está acabando.

2015, você também está um pouco pra baixo, hein?

Teve feminismo, no Brasil e no mundo. #agoraéquesãoelas #meuamigosecreto, #primeiroassédio e #mulherescontracunha fizeram o Brasil abandonar a hipocrisia e discutir a violência diária contra a mulher, seja física ou verbal, sexual ou não. Não existe cura sem febre e catarse. E em 2015 abrimos as nossas feridas, coletivamente, para juntas encontrarmos nossa força e nossa cura.

Teve o Emmy da Viola Davis. O novo álbum do Emicida. O quarto livro da série Millenium - sim, não foi tão bom, mas a história tinha que continuar. Teve mais gente discutido e se manifestando contra o racismo e o genocídio dos jovens negros no Brasil. Teve o Haddad lacrando em São Paulo - e eu conseguindo usar "lacrando" antes de o ano acabar.

2015, você foi também o ano das ocupações das escolas em São Paulo. O ano em que jovens ensinaram o País a lutar por uma causa essencial - seu direito à edução de qualidade - dando um exemplo de cidadania e política. Dando esperança de que ainda é possível se opor a um governo que não nos representa, a uma PM que não existe pra nos proteger, a leis que não feitas visando o que é melhor para as pessoas, a um sistema que não serve aos seus usuários.

Assistindo de longe, me emocionei, ri, chorei, celebrei e quis estar mais perto:

Eu, pessoalmente, vou levar memórias maravilhosas de você, 2015. Foi o ano em que eu verdadeiramente despertei.

Cheguei a Los Angeles em janeiro, realizando o sonho de morar fora e trabalhar em uma produção de ficção americana.

Senti saudades. Sofri com a dura cultura americana. Julguei o individualismo cretino, que cria uma distância enorme entre todos. A hipocrisia que domina as relações por aqui em que todos fingem que está tudo bem. A suposta meritocracia que serve, na verdade, pra ver quem é capaz de engolir mais sapo e ter a casca mais grossa, enquanto se afogam em álcool, ansiolíticos, trabalho ou, no caso, da Califórnia, yoga e suco verde.

Também senti raiva, 2015. De você, dos EUA, do Cunha, da Dilma. E tive que entender minha hipocrisia, meu individualismo, meus subterfúgios, minha maneira de abrir mão de trilhar meu próprio caminho, com suas dores e delícias.

E, no meio desse turbilhão, conheci o amor da minha vida, como se o universo me martelasse com a escolha: você quer ter razão ou quer ser feliz?

Em você, 2015, eu percebi que estava errada. Vivendo mais na minha ideia de mundo do que no mundo real. Julgando mais do que fazendo. Me protegendo mais do que amando. Repetindo padrões mais do que me desafiando a fazer diferente, a sentir diferente.

Você, 2015, palco de tantos conflitos e crises, me ensinou que é tempo de se comprometer com a vida, com o mundo real, com causas essenciais, com o amor incondicional, com a construção do futuro.

Em você, 2015, escolhi ser feliz. E, como disse Dona Canô, é realmente pra quem tem coragem. É tão mais fácil não lutar pelo que acreditamos, não abrir o peito, não reconhecer nossos erros e limites. É tão mais fácil criticar os outros e reclamar. É tão mais fácil ser tímido. É tão mais fácil se sabotar. É tão mais fácil ficar na nossa zona de conforto. É tão fácil cultivar mágoas.

O universo foi duro, os aprendizados também. E as recompensas, diretamente proporcionais, fizeram de você meu melhor ano até agora, 2015. Eu sei, eu digo isso todos os anos. E é sempre verdade.

Mas você foi especial, 2015. Você trouxe um amor que me ensina a ser melhor. A distância que me aproximou do Brasil, da família, dos amigos. A certeza das histórias que quero contar pra contribuir pra um mundo melhor.

Obrigada, 2015. Obrigada, Universo. Obrigada, meu amor. Obrigada amigos e família, que continuam perto mesmo longe.

Saio de você, 2015, mais feliz.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: