OPINIÃO

Qual é o valor mais importante para ensinar aos nossos filhos?

03/09/2015 18:46 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02
Alistair Berg via Getty Images
Children, aged 9-10, running together in a park

Outro dia, vi alguém perguntar sobre esses políticos sem-vergonha e empresários sem caráter saqueando nosso País: "Essa gente não teve amor de mãe não, é?". De fato, a vilania é tamanha que eu prefiro falar Voldemort a mencionar o nome do presidente da Câmara.

É tempo de angústia quanto ao futuro. E de oportunidades e aventuras à frente de um povo que talvez pela primeira vez em sua história esteja aprendendo a se envolver com a política e as transformações à sua volta. A crise que atormenta nosso presente só roubará nosso futuro se permitimos.

Porque estamos no meio de uma crise política e financeira, é claro. Mas, acima de tudo, estamos vivendo uma crise de valores. E qual é a relação entre a crise no Brasil e aquilo que ensinamos aos nossos filhos? Que valor é mais importante para formar indivíduos, líderes e políticos para o futuro?

Daí a pergunta que tenho feito a familiares, amigos, conhecidos, estranhos na rua: se você pudesse escolher um único valor para passar para crianças em sua vida, qual seria?

Há, em pequena escala, respostas ligadas à relação do indivíduo consigo. Auto-estima, amor próprio, auto-controle. Outras estão ligadas à relação com os outros. Solidariedade, generosidade, respeito, compaixão. E a lindeza que é ver uma chuva de honestidade e amor, e uns pingos de integridade, como resposta - à pergunta e ao cenário que nos cerca.

Algumas, no entanto, estavam no meio do caminho, entre o indivíduo e o mundo. Se abrir para o desconhecido. Audácia. Visão crítica. Sabedoria.

E a campeã, no número de respostas, likes e no meu conturbado coração em busca de uma luz para o futuro: empatia. "A habilidade de nos colocar no lugar de outras pessoas. De ver o mundo através dos olhos daqueles diferentes de nós." - é a definição do presidente presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Segundo ele, mais importante do que falar do déficit orçamentário é falar do que ele chama de déficit de empatia.

Em um discurso na Universidade de Northwestern, em 2006, ele dá exemplos que permanecem atuais. A criança faminta. O operário demitido. A imigrante que trabalha como faxineira. E fala sobre como precisamos lutar contra uma cultura que diz que aqueles que estão dormindo na rua são preguiçosos e que devemos desistir de crianças reféns de escolas dilapidadas.

Você não precisa ser negro, pobre, mulher, gay, travesti, operário ou imigrante para entender suas necessidades por transformação e acesso a direitos básicos. Também não precisa ser branco, rico, homem, hétero e empresário para entender sua aversão a mudanças. O que precisamos, urgentemente, é diminuir o gap de compreensão entre diferentes.

O filósofo Roman Krznaric acredita que a empatia é a habilidade mais importante para o século 21, em que indivíduos precisam se voltar mais para o mundo exterior, entender realidades diferentes e promover mudanças.

Mas mudanças começam em escala micro - ações individuais e relações próximas. Depois é que pode criar asas e ganhar o mundo. Em seu livro "How should we live? - Great ideas from the past for everyday life" (em tradução livre: Como devemos viver? Ótimas ideias do passado para o dia a dia), Krznaric aborda o conceito de maneira abrangente:

"Empatia importa não só porque te faz bom, mas porque é bom para você. Tem o poder de curar relações quebradas, corroer seus preconceitos, expandir sua curiosidade em relação a estranhos e nos fazer repensar nossas ambições. Em última análise, a empatia cria os laços que fazem a vida merecer ser vivida."

É uma vida na qual eu acredito. Uma vida de tolerância, diálogos e pontes. De curiosidade em relação ao outro. De sensibilidades nas relações e na política. Com menos grades e muros. Menos desigualdade.

Há uma expressão em inglês que se aplica à discussão e é tema de um curta-metragem da Pixar: "different as night and day" (diferentes como a noite e o dia). O que acontece quando os diferentes se encontram? Incompreensão, disputa, violência até que seja possível ver o outro, e mostrar-se para o outro, de verdade. Até ser possível se colocar no lugar do outro e se transformar. Você no outro e o outro em você. Porque a verdade é que estamos todos juntos nessa.

Crianças que pensam estar escondidas