OPINIÃO

Por uma vida que se transforma: o amor e uma entrevista com Jorge Drexler

21/08/2015 12:49 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Hortensia V./Flickr

07 de Agosto de 2015. Consegui uma entrevista com Jorge Drexler, cantor e compositor uruguaio que me transformou e me preparou para conhecer o amor da minha vida.

No caminho, escrevi um bilhete, com garranchos em espanhol. Contei um pouco da nossa história de amor, de que como ele fazia parte dela. Queria agradecê-lo. E eu, que nunca pensei em casar, perguntei se ele nos daria de presente uma história para contar para filhos e netos: que eu a pedisse em casamento em seu palco. Sem nem saber se teria coragem de entregar ao final.

Universos paralelos

Inspirada pela minha própria transformação e pela recente polêmica sobre a ida de Caetano Veloso e Gilberto Gil para Israel, perguntei: É possível a música mudar o mundo? Eu não pretendia entrar no mérito da polêmica Israel - Palestina. Mas citei a posição de Caetano de manter o show apesar das pressões por boicote, dizendo que estaria feliz se sua música pudesse ajudar israelenses a não votar em pessoas como Benjamin Netanyahu. E me preparei para fugir "Eu não quero falar especificamente sobre isso..."

"Mas eu, sim, quero falar sobre isso", me interrompeu Drexler, com sua voz doce e sua postura firme vencendo minha falta de coragem. E que bom que ele o fez. Me contou que, alguns dias antes do show em Tel Aviv, esteve com Caetano, Gil e Paula Lavigne em Madrid, onde mora. Tendo passado pela mesma encruzilhada há dois anos, sendo pressionado para cancelar um show em Israel, ele escolheu o caminho do meio:

"Eu sou judeu por parte de pai. Eu morei em Israel. Eu conheço o país, eu conheço o conflito. E tenho enorme críticas ao governo de Netanyahu, como o Caetano e o Gil também têm. Eu adoro Tel Aviv. Mas, ao aceitar o convite para tocar em Tel Aviv, eu não queria dar a impressão de que estava tudo bem. Não queria passar essa imagem de normalidade. A solução que eu encontrei foi: dar o concerto em Tel Aviv e ir conhecer a realidade dos povoados palestinos. Coisas que eu já sabia, mas queria olhar direito."

Tudo se transforma

Foi o conselho que deu a Caetano e Gil, que visitaram Susya, o mesmo povoado que ele havia visitado e que estava a ponto de ser demolido. Entre outros fatores, essa visita ilustre adiou a demolição. Ponto para a transformação através da música. Ou, pelo menos, através da sensibilidade de músicos que não se esquivam de seu papel público e político. "Eu acredito nas pontes", completou Drexler, para quem a ocupação é injusta e deve acabar, por deteriorar tanto o ocupado quanto o ocupante.

Mas, para estabelecer pontes e diálogos verdadeiros, é preciso estar aberto à transformação. E é tão difícil se deixar transformar. Abrir mão de uma ideia pra deixar outra entrar. Seja uma posição política, uma maneira de lidar com a vida, uma opinião sobre alguém, uma imagem que se faz sobre si mesmo. E, nesse desafio, a arte pode ter um papel essencial.

"Uma canção num concerto ou numa rádio, num táxi, que você ouve assim de passada, muda uma pessoa. E essa pequena mudança às vezes junta com outras pequenas mudanças do entorno e assim produz uma mudança grande. Eu gosto sempre do ser humano mais no senso individual do que no senso de grupo. E eu sinto isso. A minha vida foi tocada assim. Por "Chega de saudade" de João Gilberto em algum momento. E a minha vida mudou. Foi tocada por "Eu quero ter um milhão de amigos" de Roberto Carlos, a primeira canção de música popular que eu toquei no piano. E foi mudada assim por "A Hard Day's Night", o filme dos Beatles. Eu saí do cinema e a minha vida mudou completamente. E aí mudou numa direção que também produz mudanças em outras pessoas."

Eco

Drexler ainda não sabia o quanto sua música tinha produzido mudanças em mim. A tranquilidade de nos percebermos tão pequenos no universo. A essência transitória da vida, da natureza, dos humores. A possibilidade de encontrarmos lapsos de sentido e de vencermos brevemente a gravidade através do amor. Um amor que não amarra, que afortunadamente faz bem e que nos faz amar a trama mais que o desenlace. Ele me avisou que a vida não para, não espera, não avisa.

E alguma coisa mudou dentro de mim. Não foi uma revolução. Foi um bater de asas de borboleta, que prepara uma tsunami sem que se perceba. Depois, fui para o Uruguay aprender espanhol. Lá, escutei "Bailar em la cueva", que me fez querer aprender a dançar, atividade que eu ainda não faço bem mas que faz bem pra mim. Nossos medos e pudores ficam gravados no nosso corpo. Nos mantém em nossa zona de conforto e impedem nosso movimento. E, sem movimento, não se transforma.

"Muita gente que ouve as minhas canções talvez pensasse que não era preciso agregar o corpo e a dança nessas músicas, que eu já trabalhava no âmbito das emoções e das ideias bem. Mas eu queria tirar de mim a ditadura. Eu acho que foi o disco que acabou com a presença da ditadura no meu corpo. Porque a ditadura tinha saído da minha cabeça, talvez dos meus sentimentos fazia tempo, mas não do meu corpo. Eu cresci num país em que não se dançava. Eu achei que eu precisava disso. Hoje, dois anos depois, saio para dançar. E a alegria que o movimento me dá..."

Inoportuna

Foi assim, me movimentando e de peito aberto, que eu cheguei em Los Angeles. E conheci o amor da minha vida, Mariela, de Puerto Rico. Ela também enamorada de Jorge Drexler. Exímia dançarina de salsa. Com quem eu falo em espanhol.

E foi assim, de peito aberto, que entreguei o bilhete para ele no final da entrevista.

O resultado está no vídeo. Jorge Drexler cantou, eu pedi... Ela disse sim.

Ele disse que foi um dos momentos mais lindos que ele já viveu em um palco, e agradeceu por termos dividido com ele e a platéia. É claro que nós é que temos que agradecer. Pelo momento inesquecível e por ter nos transformado uma vez mais. E nos chamou de "valentes". Aí eu concordo. Como disse Dona Canô, mãe de Caetano: "Ser feliz é pra quem tem coragem".


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