OPINIÃO

Legalizar o aborto é dar à mulher o direito de ser dona do próprio corpo

26/03/2016 22:50 BRT | Atualizado 26/01/2017 22:38 BRST
Mario Tama via Getty Images
RIO DE JANEIRO, BRAZIL - MARCH 08: A supporter of legalizing abortion poses during a march for women's rights on International Women's Day on March 8, 2016 in Rio de Janeiro, Brazil. Marchers called for myriad reforms including protection from male violence, health care and expanded female reproductive rights. Women's reproductive rights have taken on a new focus in Brazil following the onset of the Zika virus outbreak, which authorities strongly suspect is linked to birth defects. Brazilian law currently only allows abortion in cases of rape or certain dire health threats which currently do not include the Zika virus. (Photo by Mario Tama/Getty Images)

Eu sempre fui e sempre serei contra o aborto. Principalmente porque, espiritualmente, é uma decisão que deve ser evitada. Assim como sempre fui e sempre serei a favor do direito de cada mulher de tomar essa decisão por si.

Por isso divido aqui a história do aborto que mais mexeu com a minha vida. Um aborto que não aconteceu, e reitera a necessidade de garantir o direito da mulher de tomar as decisões sobre seu próprio corpo. Uma história que deixa clara a hipocrisia da nossa sociedade, que garante o direito ao aborto seguro somente a quem tem dinheiro.

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Tenho quatro sobrinhos lindos, que amo além de palavras. O mais velho tem agora 11 anos. Quando ele nasceu, eu descobri o verdadeiro significado de amor à primeira vista. E esse amor só aumentou, enquanto ele ia de bebê gorducho a um quase rapaz eloquente e bem educado. Sempre uma alma sábia, sempre um garoto divertido, nos mostrando que é possível ser os dois. E essa é apenas uma das muitas coisas que aprendi com ele.

Também aprendo muito com meus outros sobrinhos. Mas ele foi o primeiro. E ele não foi planejado. Minha irmã tem hoje 32 anos. Sua gravidez aos 20 anos causou um rebuliço na nossa família e na do pai. É estranho como às vezes uma bomba cai antes de se conhecer uma felicidade sem tamanho.

A bomba caiu, e logo começou-se a falar em aborto. Algumas pessoas mais velhas, certamente genuinamente preocupadas com o futuro dos dois jovens adultos, advogavam pelo aborto - seria possível ter filhos em um momento mais propício. O que me chamou a atenção foi que esse conselho veio eventualmente de católicos, uma das religiões que condenam o aborto e pressionam o Estado para não legalizá-lo.

A minha irmã sempre quis ser mãe, diferente de mim que só agora coloco isso nos meus planos, e é uma mãe exemplar de duas crianças maravilhosas. Eu não consigo imaginar uma realidade paralela em que ela não é mãe, e em que eu não tenho a bênção de tê-los em minha vida. O amor que eles emanam começou com a decisão difícil de não aceitar a pressão pelo aborto. Porque a decisão de manter a gravidez era dela, e graças a ela o mundo tem hoje mais duas crianças lindas, bem-criadas e prontas para fazer o bem.

Ela não aceitou a pressão porque a decisão era dela. Ela escolheu manter a gravidez. Caso ela se submetesse, seria fácil. Todos sabiam da clínica de abortos na Dona Mariana, em Botafogo, zona nobre do Rio de Janeiro, perto do colégio católico onde fizemos o 2o grau.

Porque o aborto já é um direito da elite, com nossas clínicas bem-localizadas, seguras e esterelizadas. Como sabem os católicos ricos e de classe média alta que preferem que suas filhas - e as namoradas de seus filhos - não tenham uma gravidez "inoportuna".

O que transforma a descriminalização em uma questão de saúde pública e igualdade social. Mas também de igualdade de gênero. Porque as consequências emocionais, financeiras e espirituais da decisão, seja por manter ou terminar a gestação, será maior para a mãe do que para qualquer outra pessoa.

Por baixo da criminalização do aborto, estão todos os nossos medos e a nossa hipocrisia. Nossa misoginia e nosso preconceito de classe.

Uma sociedade que legaliza o aborto é uma sociedade que coloca o amor em primeiro lugar e reconhece que o corpo da mulher pertence a ela. Para ser dona de sua vida sexual. Para utilizar os métodos contraceptivos que preferir. Para ser mãe quando, como e se quiser.

Assim como já é direito do pai. Todas as mães solteiras do Brasil sabem disso.

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