OPINIÃO

Os fiéis de Adamantina (SP) e os leigos na Igreja Católica

10/12/2014 13:47 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02
reprodução

O Terra informa que o bispo de Marília (SP), Dom Luiz Antonio Cipolini, foi encurralado por fiéis dentro da igreja matriz de Adamantina (SP), a Santo Antônio, e só conseguiu deixar a paróquia por meio de uma escolta policial.

Isso após milhares de fiéis do lado de fora do local se acalmarem.

Dom Luiz estava na igreja para celebrar uma missa de Crisma, onde é realizada a cerimônia em que fiéis (geralmente jovens) recebem o Espírito Santo, segundo a crença, após o bispo responsável pela região passar o óleo de crisma em suas testas. Um padre pode realizar a cerimônia na falta de um bispo nomeado na região.

É crime, segundo o art. 208 do Código Penal, atrapalhar uma cerimônia religiosa. Mas os fiéis que o fizeram tinham um bom motivo para desrespeitar a lei.

A maioria dos leigos (não pertencentes ao clero católico) da cidade não concorda com o esquecimento de uma minoria em relação à doutrina cristã. Isso porque, segundo tem saído na imprensa, o padre da paróquia em questão, Wilson Luís Ramos (à esq., na foto), pediu para ser transferido de cidade após fiéis enviarem cartas ao bispo o criticando.

O motivo da crítica é que o novo padre tem atraído pobres e usuários de drogas à igreja Santo Antônio oferecendo ajuda. Dom Luiz e o próprio já afirmaram que poderia haver ainda uma questão racial na oposição ao padre. O pároco anterior era branco e andava pela cidade de carro e melhor vestido que ele.

Esses fiéis que fazem a reclamação simplesmente esquecem que Jesus amava os pobres. O filho de Deus ia até as cavernas abraçar os leprosos e afirmava que é mais fácil passar um elefante pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus (Mateus 19, 23 e Marcos 10, 25).

Esses fiéis que se julgam acima dos outros e provocaram revoltas na cidade devem se achar superiores assim como talvez Dom Luiz que não deu explicações ao fiéis antes dos protestos por ter pressionado o padre a se afastar da igreja. Wilson Luís afirma que tomou a decisão após se sentir humilhado pelos fiéis e pelos seus superiores na Diocese de Marília.

No final de dezembro do ano passado, fiéis também fizeram tumulto em uma igreja no Paraná pela transferência de um padre.

O mesmo aconteceu no começo desse ano na região do Ipiranga, em São Paulo, devido à troca de diversos sacerdotes.

Os padres são colocados em paróquias com o tempo pré-determinado de três anos, com renovação para mais três anos. Entretanto, muitos sacerdotes passam do tempo e quando são transferidos, o motivo não é informado de forma transparente aos fiéis. Muitas vezes pode envolver questões como a orientação política do sacerdote. Quando o tempo do pároco na igreja é grande, muita vezes ocorre o rompimento de ligações emocionais fortes onde fiéis foram batizados, crismados e até tiveram seus filhos batizados pelo padre que se torna um amigo e não mais a figura isolada no altar da paróquia.

Igreja hierárquica

Tudo isso acontece porque a Igreja Católica Apostólica Romana funciona de forma piramidal, em um clero que carrega toda a hierarquia absolutista constituída quando os primeiros cristãos pararam de ser perseguidos pelo Império Romano e o catolicismo primitivo se tornou a religião oficial do reino, fundindo-se com o poder político romano.

Outras igrejas, como muitas de orientação protestante, funcionam de modo diferente. A Igreja Metodista tradicional, por exemplo, funciona por meio de conselhos compostos por membros do clero e leigos, em uma divisão meio a meio.

Mas a Igreja Católica de Roma confere legitimidade aos bispos devido a eles serem descendentes da representatividade dos primeiros cristãos, principalmente o papa, sucessor de São Pedro que é quem começou a Igreja a pedido de Jesus, segundo o que diz a Bíblia.

Essa ideia sustenta o poder do clero católico romano mesmo a Igreja de Roma sendo apenas uma das cinco que compunham a Igreja Católica Primitiva. As outras são reunidas pela liderança do patriarca Bartolomeu, sucessor de Santo André.

É a quem o Papa Francisco se curvou e chamou de Vossa Santidade em um gesto bonito no fim de novembro. Comentei aqui um encontro anterior. Agora os dois pretendem estudar uma forma de unificar de novo as igrejas católicas após um milênio de separação.

Acho importante analisar a partir desses acontecimentos como ventos diferentes sopram na Igreja de Roma com o papado de Francisco.

Hoje a Igreja não participa de todos os organismos ecumênicos que poderia participar para atuar em comunhão com outras igrejas cristãs. Até porque a ICAR defende oficialmente que é a única igreja verdadeira e que quem não pertence a ela, só pode ser salvo ao regredir a ela, conforme a encíclica Mortalium Animos, publicada em 1928 pelo papa Pio XI justamente para impedir essa maior integração da igreja de Roma.

O próprio clero católico romano ao chamar a ICAR de apenas "Igreja" sustenta ideologicamente essa ideia de única igreja verdadeira.

Mas o papa Francisco, em julho deste ano, tornou-se o primeiro papa a visitar uma igreja evangélica neopentecostal. No começo do ano, nomeou para o Conselho de Economia do Vaticano oito cardeais e sete leigos. Planeja criar um conselho de leigos na reforma que vem promovendo na cúria romana.

Também ganham destaque suas declarações em reuniões e à imprensa de crítica à desigualdade econômica e política promovida pelo sistema capitalista. Suas críticas vão de encontro apenas à Doutrina Social e da Igreja Católica Romana e ao Evangelho, onde Jesus defendia a partilha em um sistema econômico que nem se baseava no individualismo como o de hoje.

Essas mudanças com maior participação do laicato vão de encontro a o que muito os teólogos da libertação defendiam no final do século passado, antes de serem perseguidos pelo papado de João Paulo II com a ajuda de seu braço direito Cardeal Joseph Ratzinger, futuro papa Bento XVI.

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