OPINIÃO

Favorito nas eleições argentinas é um kirchnerista, 'pero no mucho'

24/10/2015 13:25 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
ASSOCIATED PRESS
Argentina's ruling party presidential candidate Daniel Scioli, left, speaks next to President Cristina Fernandez during a meeting with businesspeople from the oil industry and governors of oil-rich provinces, in Buenos Aires, Argentina, Tuesday, Oct. 20, 2015. Scioli, who has been the country's vice president and the governor of Buenos Aires province, is the frontrunner in the presidential race set for Oct. 25. (AP Photo/Victor R. Caivano)

Trinta e dois milhões de argentinos estão habilitados para ir às urnas neste domingo para eleger o novo ocupante de "el sillón de Rivadavia", denominação da cadeira presidencial. A disputa é protagonizada por seis candidatos. No entanto, apenas três são considerados relevantes: o governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli, candidato da kirchnerista sublegenda peronista "Frente pela Vitória"; o principal candidato da oposição, Maurício Macri, prefeito portenho, do partido Proposta Republicana; e o também opositor Sergio Massa, deputado federal e líder da Frente Renovadora. O trio é marcado pela ausência de carisma, uma commodity outrora imprescindível para triunfar na costumeiramente personalista política argentina.

Nesta quinta-feira os candidatos realizaram seus respectivos comícios de encerramento de campanha. Enquanto que durante mais de um século esses atos políticos eleitorais reuniam centenas de milhares de pessoas (ou pelo menos algumas dezenas de milhares) que acotovelavam-se nos principais estádios do país, desta vez os candidatos não conseguiram reunir mais de 10 mil pessoas em seus respectivos comícios.

Pesquisas

As diversas pesquisas realizadas nas últimas duas semanas indicam que o governista Scioli oscilaria entre 37% e 43% das intenções de voto. O principal opositor, Macri, conseguiria de 27% a 32%. O terceiro colocado, Massa, obteria de 20% a 23%. Estas proporções indicam que os candidatos supostasmente não teriam conseguido seduzir eleitores adicionais desde as eleições primárias abertas, simultâneas e obrigatórias realizadas em agosto (conhecidas na Argentina pela sigla "PASO"), que constituíram em uma espécie de prévia das eleições para valer.

Os resultados das primárias exibiram o ceticismo dos argentinos com a classe política, já que na ocasião votaram 23,2 milhões de eleitores. Isto é, as abstenções foram de 8,8 milhões. Além destas pessoas que preferiram não comparecer perante as urnas, apesar do voto obrigatório, outras 990 mil votaram em branco 990 mil. De quebra, outras 278 mil anularam o voto.

Desta forma, o total de pessoas que não deu seu voto a político algum em agosto foi de 10,068 milhões de argentinos, proporção superior aos 8,7 milhões de eleitores que naquela ocasião votaram em Scioli, ou os 6,79 milhões que preferiram Macri.

Apesar do suposto estancamento apontado pelas pesquisas, Scioli estaria muito perto de vencer no primeiro turno graças ao intrincado esquema eleitoral argentino.

Primeiro turno atenuado

Nos países onde existe o sistema de dois turnos de eleições presidenciais prevalece a ideia clássica de que um presidente, para ser eleito no primeiro turno, precisa conseguir 50% mais um dos votos. No entanto, na Argentina existe um sistema que o think tank Rosendo Fraga denomina de "primeiro turno atenuado". O sui generis esquema foi criado pelo então presidente Carlos Saúl Menem (1989-99) em 1994, quando reformou a carta magna com a intenção de conseguir a reeleição.

Menem padecia de uma crescente impopularidade e sabia que não conseguiria a metade dos votos. Desta forma, inventou uma modalidade que lhe permitiria vencer, determinando que se o candidato mais votado tivesse 40% dos votos, com uma vantagem de 10 pontos percentuais para o segundo colocado, sua vitória era automática. O sistema também contemplava a possibilidade de vencer no primeiro tuno na hipótese de conquista de 45% dos votos, mesmo que o segundo colocado estivesse com 44,9999%.

Desde a criação desse mecanismo o país não precisou recorrer ao segundo turno das eleições presidenciais. Em 1995, 1999, 2003, 2007 e 2011 o embate resolveu-se no primeiro turno (se bem que em 2003 foi resolvido graças à renúncia de um dos dois principais candidatos à disputa do 2º turno).

O grande mistério destas eleições é se Scioli vencerá no primeiro turno ou se terá que disputar uma virtual segunda etapa daqui a um mês, no 22 de novembro. Os pesquisadores, nas últimas duas semanas, não se animavam a arriscar oficialmente um prognóstico. Extra-oficialmente, a maioria, consideravam que poderia vencer Scioli. No entanto, alertavam que devido à massa de indecisos, o segundo turno poderia ser inevitável.

"En la cancha se vem los pingos" (no campo de corrida é que a gente vê os cavalos), me disse um deles, usando uma frase em gíria local.

Enquanto isso, o empresariado espera otimista, independentemente do resultado. Uma recente pesquisa feita entre empresários pela consultoria D'Alessio Irol indicou que eles possuem 56% de expectativas positivas para a economia, a proporção mais alta na última década. Se bem que os empresários estejam preocupados pelo andamento da economia, eles estão respirando aliviados pelo fim do governo da presidente Cristina Kirchner. E estão otimistas com a mudança de governo, seja lá qual for o novo presidente. Segundo os empresários, qualquer um dos três - Scioli, Macri ou Massa - não será péssimo como foi Cristina.

Kirchnerista, 'pero no mucho'

Scioli, governador da província de Buenos Aires, é o candidato da presidente Cristina Kirchner, embora seja um kirchnerista "light" ou "pasteurizado". Ele é abominado por boa parte dos kirchneristas "puros", que votarão nele por causa das circunstâncias: a presidente Cristina - que não preparou um herdeiro para sucedê-la - não contava com candidato algum confiável bom de voto e teve que resignar-se com Scioli.

Há poucas semanas o taciturno Scioli declarou que o povo não deseja "revolucionários". Dias depois pediu a volta dos dissidentes ao seio do partido Peronista e fez acenos para os integrantes dos eternos rivais do peronismo: os integrantes da União Cívica Radical (UCR). Além disso, horrorizando os kirchneristas ortodoxos, seus assessores financeiros sustentaram que se Scioli for eleito, o novo presidente negociará com os credores da dívida pública argentina. O candidato apresenta-se como a única garantia de governabilidade do país e faz acenos para os empresários.

As declarações caem como um balde de água fria sobre os kirchneristas puros, que afirmam que Scioli não passará de um "presidente-tampão" até que a presidente Cristina possa ser novamente candidata em 2019.

No entanto, os "sciolistas" afirmam que Scioli se desvencilhará da influência da presidente Cristina ao longo do ano que vem e que muitos "kirchneristas" serão gradualmente "sciolizados".

Scioli, um ex-piloto de lanchas off-shore que perdeu seu braço direito em um acidente em 1989, entrou na política apadrinhado pelo presidente Carlos Menem em 1997. Foi secretário de turismo do presidente Eduardo Duhalde, vice-presidente de Néstor Kirchner e duas vezes governador da maior província do país, a de Buenos Aires, que aglutina 38% do eleitorado e produz 36% do PIB argentino. Scioli é casado com a ex-modelo de lingerie Karina Rabolini.

Caso seja eleito presidente Scioli não teria maioria na Câmara de Deputados. Mas, contaria com maioria no Senado.

Opositor com elogios ao governo

Maurício Macri, prefeito da cidade de Buenos Aires, é o principal candidato da oposição. No entanto, não conseguiu - nem tentou - unificar a oposição para formar uma frente anti-kirchnerista. Nas últimas semanas Macri tentou conquistar setores do peronismo afirmando que não reprivatizará as empresas reestatizadas pela presidente Cristina. Macri sustentou que não mudará "as coisas que foram bem feitas" pelo governo Kirchner. As declarações de Macri chocaram os setores conservadores que o respaldam, que ficaram mais estupefatos ao ver o líder político inaugurar uma estátua do estatizante presidente Juan Domingo Perón.

Macri conseguiu eleger seu sucessor à prefeitura de Buenos Aires há poucos meses. No entanto, a capital argentina é seu único bastião assegurado, já que seu partido, o PRO, não possui bases sólidas fora dali.

Caso seja eleito presidente, Macri não teria maioria na Câmara de Deputados e sequer no Senado. Seria o primeiro presidente da História argentina que inicia o mandato com essa situação.

Ex-aliado tornou-se o principal crítico

Sergio Massa foi um servil chefe de gabinete de Cristina Kirchner que em 2013 rachou com a presidente e criou seu próprio partido com peronistas dissidentes. Massa propõe remover os kirchneristas da estrutura estatal e combater a corrupção. Tudo indica que Massa não passaria para um virtual segundo turno. Mas, entre os analistas existe consenso de que Massa será uma figura importante na política argentina nos próximos anos, despontando como virtual líder da oposição.

Um detalhe curioso: nas pesquisas de opinião pública em um cenário de virtual segundo turno as consultorias afirmam que Scioli derrotaria Macri. Mas, segundo as pesquisas, se o rival de Scioli fosse Massa, venceria este peronista dissidente.

Fim do Kirchnerismo

A eleição também marca o fim do kirchnerismo tal como ele é conhecido, já que no dia 10 de dezembro a presidente Cristina Fernández de Kirchner entregará a faixa e o bastão presidencial a seu sucessor, uma pessoa que não é integrante da família Kirchner.

Desta forma, não restará Kirchner algum no círculo mais alto do poder. Os analistas indicam que existem três cenários para Cristina:

1 - Cristina, como futura ex-presidente, se dedicará a cuidar dos dois netos. Essa alternativa é descartada pelos analistas e pelos políticos próximos à presidente, que afirmam que ela é um "animal político" que não pode estar longe da luta pelo poder

2 - Na hipótese de vitória de seu candidato, Scioli, Cristina tentará exercer uma enorme influência sobre o governo de seu sucessor e preparará seu retorno para daqui a quatro anos. Esta variável teria sucesso - ou não - dependendo de como Scioli reaja perante a interferência de Cristina.

3 - Na hipótese de derrota de Scioli Cristina se transformaria na líder da oposição peronista, disposta a combater o novo presidente da República. Nesta hipótese Cristina também prepararia seu caminho para tentar voltar em 2019.

Além delas existe outro cenário, embora de baixas chances, no qual Cristina receberia a oferta de ocupar um cargo de liderança em alguma organização internacional.

Fim do feudo

No entanto, mais do que manter o poder na esfera federal, Cristina está preocupada em continuar com o domínio de seu feudo político, a província de Santa Cruz, dominada pelos Kirchners desde 1991.

Segundo as pesquisas a oposição poderia vencer as eleições em Santa Cruz, província onde os três principais partidos da oposição se uniram contra o kirchnerismo.

Cristina colocou como candidata para governadora sua cunhada Alicia Kirchner, ministra da Ação Social. Além disso, o filho de Cristina, o taciturno Máximo Kirchner - que até estas eleições só havia sido visto três vezes falando em público - é candidato na lista de deputados do kirchnerismo.

Cristina tem mansões e dois hotéis de luxo no vilarejo de El Calafate, na província de Santa Cruz. Segundo ela, essa região é seu "lugar no mundo".

Nestes anos ela também montou um esquema jurídico para se blindar: as investigações de diversos casos de corrupção envolvendo Cristina relativos à província vão parar nas mãos de Natalia Mercado, promotora federal em Santa Cruz. Coincidentemente, ela é a sobrinha de Cristina.

A província de Santa Cruz, embora seja a 2ª maior do país em área geográfica, é a 2ª menor em população e eleitorado: 0,74% do total da Argentina. Mas é o feudo de Cristina. Por enquanto.

Marca Peronista

Desde a volta da democracia, em 1983, os peronistas governaram o país em 73% do tempo. Desde dezembro de 2001, quando caiu o governo do presidente Fernando De la Rúa, da União Cívica Radical, em plena crise econômica e social, os peronistas governaram o país ininterruptamente.

Scioli é o candidato do peronismo no poder. Mas Massa é um peronista dissidente. Macri, que não teve formação peronista na juventude, entrou na política apadrinhado pelo peronista presidente Menem (tal como Scioli e Massa). Embora não se apresente como peronista, uma boa porção de seu partido provém das fileiras peronistas.

Há peronismo para todos os gostos, da direita à centro-esquerda, passando pelo centro. Um peronista defensor das estatizações pode tornar-se amanhã um enfático privatizacionista. Ou vice-versa. Dentro do peronismo essas posições não são incompatíveis. O único fator constante no peronismo é a fome de poder.

Em 1974, pouco antes de morrer, o então presidente Juan Domingo Perón, fundador do Partido Justicialista (Peronista), aconselhou um grupo de discípulos sobre sua estratégia de governar como se estivessem dirigindo um automóvel de forma peculiar: "dê o pisca-pisca pra esquerda...mas vire o volante pra direita!".

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