OPINIÃO

O começo do fim para Trump: O momento Sarah Palin para ele

22/09/2015 18:08 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Gage Skidmore/Flickr
Donald Trump speaking at CPAC 2011 in Washington, D.C. Please attribute to Gage Skidmore if used elsewhere.

Há um momento na vida política de todo candidato de personalidade exuberante, aquele que mais late do que morde, em que ele vai além do limite da legitimidade, ou da ilegitimidade (dependendo da sua perspectiva). Isso vale até mesmo para a mídia, viciada na audiência gerada por esses candidatos-showmen.

Para a republicana Sarah Palin, esse momento foi a entrevista que ela deu para a apresentadora Katie Couric em 2008 -- a performance foi considerada tão ruim que ela e seu companheiro de chapa, o senador John McCain, nunca se recuperaram.

No caso da candidatura de Donald Trump -- que o Huffington Post cobre na seção de entretenimento -- pode ter ocorrido um momento semelhante.

Não foram os repetidos olés que Trump levou de Carly Fiorina no segundo debate dos pré-candidatos republicanos, quando sua adversária disse: "Acho que as mulheres do país inteiro ouviram muito claramente o que disse o senhor Trump".

Essa alfinetada tirou sangue de Trump -- assim como os dramáticos 12 segundos de silêncio de Fiorina depois de sua resposta --, mas não foi fatal.

Não, os historiadores que estudarem essa campanha presidencial vão estabelecer como o começo do fim do show de Trump um episódio ocorrido na semana passada, em New Hampshire.

Respondendo a perguntas de eleitores na cidade de Rochester, Trump ouviu uma pessoa da plateia dizer que o presidente Barack Obama é muçulmano e "nem sequer americano". Trump olhou nos olhos do homem e declarou:

"Não... Ele é um homem decente, de família, e um cidadão com quem por acaso tenho desentendimentos sobre questões essenciais, e é disso que trata essa campanha. Ele não é [árabe]".

Brincadeira...

Na verdade, quem disse isso foi John McCain -- aquele que "não é um herói de guerra", segundo Trump -- para uma mulher num comício de 2008, quando ela afirmou que Obama era árabe.

O que Trump disse foi... bem, basicamente nada. "Vamos olhar muitas coisas e, você sabe, muita gente está falando disso."

Poucas coisas causam danos tão profundos a uma candidatura como se recusar a reconhecer a realidade -- especialmente no caso de um candidato que diz que vai endurecer contra nossos inimigos mas se recusa a enfrentar seus próprios apoiadores.

Recusar-se a reconhecer que Obama nasceu nos Estados Unidos é o equivalente a recusar-se a reconhecer que a Terra é redonda. Até mesmo os correligionários de Trump estão constrangidos.

O empresário Mark Cuban, em entrevista ao programa Real Time with Bill Maher, teve de se justificar na semana passada, dizendo que o candidato que ele apoia "não vai ganhar. Ele não tem chance... zero".

Então quando é que a mídia vai ficar constrangida o suficiente a ponto de se recusar a continuar dando um megafone para Trump?

Não porque ele está na dianteira das pesquisas -- ora, vamos lá, chegou a hora de parar de fingir que essa é a razão -- mas porque ele gera audiência, afinal de contas ele é um showman.

Como demonstrou Sarah Palin, até mesmo a mídia, obcecada com a audiência, pode perder o interesse por candidatos cujo único talento é chamar a atenção.

No caso de Trump, já se veem os primeiros sinais. E, quando a mídia perde o interesse, ela perde o interesse muito rápido.

Eis o que disse Chuck Todd, no telejornal NBC Nightly News, horas depois do evento em New Hampshire que teve a participação de Trump:

"Significa uma quenda lenta. ... com o tempo, acho que esta vai ser a semana que veremos quando olharmos para trás, dizendo: 'talvez este tenha sido o começo do fim [da campanha] Trump 2016.' [Logo] vamos saber."

http://www.nbcnews.com/nightly-news/video/meet-the-press-moderator-chuck-todd-weighs-in-on-trump-528309315701

Sim, vamos. A entrevista de Todd no jato particular de Trump, repetida tantas vezes, agora parece uma memória distante.

Eis que George Stephanopoulos no domingo, pedindo repetidas vezes que o candidato respondesse se o presidente Obama nasceu nos Estados Unidos, uma pergunta de que o homem sem papas na língua se desviou e se esquivou de todas as maneiras possíveis:

STEPHANOPOULOS: Então, para que fique registrado, o presidente Obama nasceu nos Estados Unidos?

TRUMP: Bem, você sabe, não entro nesse assunto, George. Penso em empregos. Estou falando das Forças Armadas. Não entro nesse assunto. As pessoas fazem essa pergunta e eu só quero falar sobre as coisas, porque francamente não me interessa mais. Isso ficou para trás. Não quero falar sobre isso.

STEPHANOPOULOS: Bem, a maneira de isso ficar para trás é responder sim ou não. O senhor acredita...

TRUMP: Bem, é - é possível, mas não vou entrar no assunto nem falar disso.

E assim continuou a entrevista.

A suposta força de Trump é o fato de ele não ter papas na língua e estar disposto a dizer o que todo mundo pensa mas não tem coragem de falar.

Mas o que o momento de New Hampshire revelou foi o contrário; ele poderia ter respondido sim ou não para Stephanopoulos, assim como ele poderia ter corrigido o homem que lhe fez a pergunta na conversa com os eleitores de Rochester.

Ele poderia até mesmo ter se distanciado da mensagem racista, odiosa e mentirosa -- qualquer coisa para mostrar que ele não concorda implicitamente com a ideia de que o presidente Obama é um muçulmano nascido fora do país e que todos os muçulmanos são, como disse o autor da pergunta, "um problema" do qual devemos nos livrar.

Em vez disso, ele preferiu ficar calado.

O momento Sarah Palin de Trump mostra que ele está vivendo em outra realidade. Sua incapacidade de ser honesto em um evento de sua própria campanha não é questão de opinião; é questão de sanidade e liderança.

Toda vez que a mídia se recusa a denunciar e responsabilizar um candidato por causa de mentiras tão fundamentais e inegáveis, trata-se de irresponsabilidade.

O momento New Hampshire também vai, esperamos, marcar o momento em que a mídia finalmente começou a fazer seu trabalho.

Por enquanto Trump vem jogando de acordo com suas próprias regras -- usando na campanha presidencial os mesmos padrões que ele seguiu em sua carreira como showman e estrela de reality shows.

A mídia está deixando passar. Ele é tratado como uma exceção -- Trump pode até mesmo ligar para os programas de TV matinais (inclusive os dos domingos, que são focados em política) quando bem entende para expressar seus pontos de vista ridículos. Tudo isso só aumenta o frenesi midiático que envolve sua campanha.

Mas esse frenesi está arrefecendo. Esse mais novo prédio com a marca Trump está exibindo rachaduras -- porque ele não tem fundação.

A única surpresa é que o desmoronamento de Trump, o candidato que não consegue parar de falar, não aconteceu por algo que ele disse, mas sim por algo que ele não disse.

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