OPINIÃO

Nota sobre Donald Trump: Não achamos mais graça

08/12/2015 15:48 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Scott Olson via Getty Images
DAVENPORT, IA - DECEMBER 05: Republican presidential candidate Donald Trump speaks to guests gathered for a campaign event at Mississippi Valley Fairgrounds on December 5, 2015 in Davenport, Iowa. Trump continues to lead the most polls in the race for the Republican nomination for president. (Photo by Scott Olson/Getty Images)

O candidato que lidera as pesquisas para a candidatura do Partido Republicano à Presidência pediu um "total e completo bloqueio da entrada de muçulmanos nos Estados Unidos". Quem disse isso foi Donald Trump, é claro. Como tweetou Jeffrey Goldberg, "Donald Trump agora é uma ameaça real à segurança nacional. Ele está fornecendo munição aos jihadistas em sua campanha de demonização dos Estados Unidos".

Na esteira da proposta de Trump, vamos mudar a cobertura que dedicamos a ele no The Huffington Post. Em julho, anunciamos a decisão de publicar as notícias sobre a campanha de Trump em nossa seção de Entretenimento, em vez da seção de Política. "O motivo é simples", escreveram Ryan Grim e Danny Shea. "A campanha de Trump é um circo."

Desde então, ela certamente tem feito justiça a essa descrição. Mas, como a declaração mais recente deixa muito claro, a campanha de Trump se transformou em outra coisa: uma força repulsiva e perigosa na política americana.

Portanto, não vamos mais cobrir a campanha em Entretenimento. Mas isso não quer dizer que vamos tratá-la como se fosse uma campanha normal.

Nossa decisão de julho foi tomada porque nos recusamos a aceitar a ideia, baseada apenas nas pesquisas, de que a candidatura Trump era um esforço sério e de boa fé de apresentar uma alternativa de governo para o país. Continuamos pensando da mesma maneira -- e essa crença vai continuar balizando nossa cobertura. Mas muita coisa mudou.

Não faltaram comentários ofensivos da parte de Trump. Ele lançou sua campanha com comentários ultrajantes sobre os mexicanos. Mas, no começo, essa xenofobia exagerada, por mais nojenta que fosse, parecia mais uma piada ofensiva e sem graça.

Agora que Trump, com a ajuda da mídia, dobrou a aposta na crueldade e na ignorância daqueles primeiros momentos, o que era uma mera curiosidade, um "você acredita que ele disse isso?", virou algo repugnante e ameaçador -- desnudando um aspecto perturbador da política americana.

Acreditamos que nossa cobertura deveria refletir essa mudança. Parte disso envolve jamais deixar nossa audiência esquecer quem é Trump e o que sua campanha realmente representa.

Como observou recentemente Jay Rosen:

"Até este ano, não havíamos nos dado conta de que o papel da imprensa nas campanhas presidenciais se fiava em suposições compartilhadas pela classe política e pela indústria eleitoral a respeito das regras e das penalidades para quem as violasse... Essas suposições raramente eram testadas, porque o risco parecia alto demais e porque profissionais avessos ao risco - os chamados estrategistas - estavam no comando das campanhas."

Ou seja, a maioria dos políticos sabia que não deveria dizer coisas absurdas, ofensivas e perigosas, pois havia o risco de punição.

Continua Rosen: "Essas crenças desmoronaram, porque Trump 'testou' e violou a maioria delas - e ainda está na frente nas pesquisas".

Mas isso não significa que nós da mídia deveríamos aliviar para Trump ou para qualquer outro que decida tomar o mesmo caminho.

Portanto, na cobertura de sua campanha, vamos lembrar o público regularmente das ideias defendidas por Trump, citando referências e oferecendo links. Por exemplo:

1) Seu entusiasmo com a ideia de criar um banco de dados com todos os muçulmanos nos Estados Unidos.

2) Suas mentiras recorrentes sobre muçulmanos de Nova Jersey comemorando o 11 de setembro.

3) As dúvidas que ele lançou sobre a nacionalidade de Barack Obama, legitimamente eleito presidente dos Estados Unidos.

4) Sua misoginia -- eis aqui apenas uma das matérias do HuffPost a respeito, mas há vários outros exemplos.

5) Sua xenofobia, incluindo as mentiras sobre imigrantes mexicanos e seu desejo ardente de deportar milhões de imigrantes sem documentos.

6) Sua inegável paixão pelo bullying. De novo, não faltam exemplos, mas você pode começar com essa defesa dos correligionários que agrediram um manifestante em um de seus comícios, ou então com o episódio em que ele ridicularizou a deficiência física de um repórter do The New York Times.

E ficamos contentes por saber que não estamos sozinhos nesse desejo de mostrar o Donald Trump verdadeiro, sem eufemismos.

Semana passada, o colunista do Washington Post Dana Milbank começou um artigo escrevendo: "Não vamos medir palavras: Donald Trump é intolerante e racista". Ele sustentou a declaração, o que não é difícil e deveria ser a missão de todo repórter interessado em contar a verdade para seus leitores.

Portanto, se as palavras e as ações de Trump forem racistas, vamos chamá-las de racistas. Se elas forem sexistas, vamos chamá-las de sexistas. Não vamos fugir da verdade ou nos deixar levar pelo espetáculo.

É claro que Trump não é o único candidato com mensagens extremistas e irresponsáveis, mas ele tem uma posição única graças à cobertura extensiva que recebe, dos talk shows políticos ao Saturday Night Live.

Boa parte da mídia ficou dependente do buzz de audiência provocado por Trump, e isso só legitima suas ideias repulsivas.

Como temos observado na disputa pela candidatura presidencial republicana, os piores comentários de Trump não ocorrem no vácuo -- nem são recebidos sem repercussões.

Eles afetam o tom da conversa, frequentemente alterando as fronteiras entre o que é aceitável e o que é descaradamente excessivo.

Não só vamos mostrar como a campanha de Trump é única na política americana recente como também vamos apontar o impacto desastroso que ela tem nos outros candidatos - e na conversa nacional.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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