OPINIÃO

Namaste: apresentando o HuffPost Índia

08/12/2014 12:25 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

NOVA DÉLI - Saudações da Índia, onde estamos lançando nossa mais recente edição internacional, em colaboração com The Times of India Group e seu ramo digital, Times Internet (TIL).

A Índia sempre teve um significado profundamente pessoal para mim. Quando eu tinha 17 anos, estudei religião comparativa na Universidade de Visva-Bharati, em Calcutá, fundada pelo escritor e artista Rabindranath Tagore. Entre os cursos, viajei pela Índia e me apaixonei por ela - um caso de amor que perdura até hoje. Nos últimos anos, enquanto eu me interessava cada vez mais por trazer bem-estar e conhecimento para nossa vida moderna, cercada de tecnologia, a Índia tornou-se ainda mais fascinante para mim.

Além de seu 1,24 bilhão de habitantes, a Índia é vasta de todas as maneiras - sua história, suas cores, sua comida, suas tradições espirituais, as histórias de seu povo, suas contradições e os desafios que ela enfrenta. Contar essas muitas histórias e criar uma plataforma para os próprios indianos contarem suas histórias é um dos motivos que me deixam tão entusiasmada sobre o HuffPost Índia. Como escreve Patrick French em India: A Portrait:

Com sua sobreposição de extrema riqueza e pródiga pobreza, sua mistura de pessoas educadas e ignorantes, suas ideologias concorrentes, sua falta de uniformidade, sua bondade e profunda crueldade, suas complexas relações com a religião, suas realidades paralelas e veloz mudança social, a Índia é um macrocosmo e poderá ser o cenário padrão do futuro.

Não há dúvida de que a Índia enfrenta desafios enormes e únicos. Enquanto saltou de décima maior economia do mundo em 2005 para terceira em 2011 - e caminha para superar a China como país mais populoso do mundo até 2028 -, 400 milhões de indianos estão mergulhados na pobreza, e o país abriga 40% das crianças desnutridas do mundo. A corrupção é endêmica em todos os níveis da política, enquanto quase um quarto dos homens indianos já cometeram um ato de violência sexual e no ano passado 92 mulheres foram estupradas por dia em média - e isto só inclui os casos relatados (alguns ativistas dizem que apenas 10% ou mesmo 1% dos estupros são denunciados). Mais da metade da população do país - 620 milhões de pessoas -- não tem banheiro em casa; como colocou Maria Fernández, da Unicef, "no meio urbano ou rural, o cocô nos cerca, em nossos playgrounds e diante de nossos escritórios". Como escrevem Jean Drèze e Amartya Sen em An Uncertain Glory: India and Its Contradictions [Uma glória incerta: a Índia e suas contradições]:

A desigualdade na Índia assume a forma terrível de uma imensa disparidade entre os privilegiados e o resto, com uma enorme deficiência das necessidades básicas de uma vida minimamente aceitável para os despossuídos da sociedade. As exigências básicas de uma escola utilizável, um hospital acessível, um banheiro em casa ou duas refeições por dia inexistem para uma enorme porcentagem da população indiana.

Durante este tempo de transição maciça - segundo o Banco Mundial, a Índia está no meio da maior migração do campo para as cidades até agora neste século -, os sistemas de apoio tradicionais se enfraqueceram e as pressões são imensas. Neste momento, uma média de 371 pessoas cometem suicídio a cada dia na Índia - são 15 por hora! "A cultura [corporativa multinacional] trouxe consigo longas horas de trabalho, menos tempo para passar com a família, mais distrações e mais dependência da tecnologia", disse Johnson Thomas, diretor do Aasra, um centro de atendimento telefônico contra o suicídio. Em outras palavras, o aumento do estresse e do esgotamento, juntamente com menos conexão com recursos colaborativos como famílias e amigos, está tendo um efeito devastador.

Isto não é muito diferente do que aconteceu no Ocidente, exceto que aqui na Índia está acontecendo com muito mais rapidez e em uma escala muito maior.

Assim como nos EUA, a hiperconectividade e a superdependência de telefones e equipamentos estão tendo um impacto negativo sobre o sono dos indianos, resultando no que foi chamado de "sono-lixo" - um sono que, por causa da constante interrupção ou da presença de distrações, nos impede de desfrutar os benefícios necessários do sono profundo e REM. O problema é especialmente disseminado entre os jovens indianos. "Enquanto se tornou comum ver pré-adolescentes ostentando celulares e iPods que ganharam de seus pais", escreveu Anisha Francis no Times of India, "os gadgets eletrônicos estão no topo da lista de causas de 'padrões de sono anti-higiênicos'..." Segundo uma pesquisa feita com indianos de 25 cidades do país, surpreendentes 93% dos participantes relataram estar privados de sono.

Mas a Índia tem recursos únicos para enfrentar todos esses desafios. Quando as pessoas falam sobre as forças da Índia, muitas vezes se concentram em aspectos como o setor tecnológico; seu compromisso educacional com a ciência, engenharia e computadores; e sua crescente classe média. Fala-se menos sobre o que se vê em torno quando se está aqui: como, em um nível cotidiano, os indianos usam de maneira orgânica e sem esforço as ferramentas e práticas de suas antigas tradições espirituais. A incrível medida em que essas tradições se entrelaçam ao tecido da vida indiana ajudará muito o país a enfrentar seus inúmeros desafios.

Há várias décadas, muitas dessas tradições e práticas têm penetrado na cultura ocidental. Da adoção generalizada da meditação à ascensão da ioga, o que já foi considerado "alternativo" hoje está firmemente inserido na corrente dominante nos EUA.

As tradições espirituais da Índia hoje estão no centro de um diálogo global sobre o que significa uma boa vida. O Bhagavad Gita, uma parte do século 5º do épico hindu Mahabharata, chama a atenção para três tipos de vida diferentes: uma vida de inércia e tédio, sem objetivos e realizações; uma vida cheia de ação, empreendedorismo e desejo; e uma vida de bondade, que não tem a ver só com nós mesmos, mas com os outros. É nessa segunda vida que a maior parte de nossas vidas modernas parece se basear, mas cada vez mais pessoas em todo o mundo estão percebendo o vazio dessa abordagem da vida. Para prosperar, precisamos combiná-la com o terceiro tipo de vida.

Alguns de nossos líderes empresariais mais inovadores se basearam em princípios que têm origens na antiga Índia: descobriram que o ioga, a meditação e a renovação são uma contrapartida muito necessária em uma cultura de trabalho ocidental movida a esgotamento, estresse, privação de sono e exaustão. Considere o livro que Steve Jobs pediu que fosse distribuído em seu funeral: não um manual de negócios, nem um livro sobre inovação tecnológica, mas a Autobiografia de um Iogue, de Paramahansa Yogananda, uma das pessoas que ajudou a popularizar a meditação no Ocidente. Ele escreveu:

A intuição é o guia da alma, aparecendo naturalmente no homem durante aqueles instantes em que sua mente está tranquila. Quase todo mundo já teve a experiência de uma "premonição" inexplicavelmente correta, ou transmitiu seus pensamentos de maneira eficaz para outra pessoa. A mente humana, livre da estática da insatisfação, pode realizar, por meio de sua antena da intuição, todas as funções de mecanismos complexos de rádio que enviam e recebem pensamentos, e tirar de sintonia aqueles indesejáveis.

Jobs passou tempo na Índia e se interessou especialmente pelo papel da intuição na vida cotidiana dos indianos. "A população do campo indiano não usa seu intelecto como nós, ela usa sua intuição, que é muito mais desenvolvida do que no resto do mundo", disse Jobs. "A intuição é uma coisa muito mais poderosa, mais que o intelecto, na minha opinião. Isso teve um grande impacto no meu trabalho."

E esse poder da intuição e da consciência está cada vez mais, e de maneira conclusiva, sendo validado pela ciência. Em outubro passado, viajei para Dharamsala para uma pequena reunião com o Dalai Lama organizada pelo Instituto Mind and Life. Durante minha estada, foi impossível não perceber quão profundamente o sentido de gratidão está embutido na vida cotidiana na Índia, onde cada refeição começa com uma oração simples, mesmo no meio da pobreza. As pessoas pensam no Dalai Lama como um líder espiritual, e ele certamente o é, mas ao escutá-lo e a muitos dos monges presentes foi fascinante ver o modo como eles acreditam na ciência (especificamente a neurociência) para convencer uma sociedade secular sobre o poder da contemplação e da compaixão para moldar nossas vidas e nosso mundo.

Uma parte enorme do potencial da Índia está em sua capacidade de redescobrir práticas enraizadas em seu passado e incorporá-las a todas as áreas da vida, incluindo a política. O primeiro-ministro Narendra Modi foi eleito em maio passado com a promessa de enfrentar as necessidades de infraestrutura da Índia e também a desigualdade e a pobreza crescentes. Mas liderança política tem a ver com melhorar a vida de todas as maneiras possíveis. Por isso, no mês passado Modi indicou o primeiro ministro da Índia para Ioga, Shripad Yesso Naik. A Índia já tinha um departamento no Ministério da Saúde dedicado a ioga e ayurveda, não apenas para conduzir novas pesquisas, mas aumentar a consciência em torno dessas práticas e seus benefícios. Mas a indicação de Naik leva esse compromisso a um novo nível, posicionando a Índia para ser um líder global ainda mais forte em bem-estar. "Este é o nosso sistema, e ele não recebeu proeminência suficiente", disse Naik. "Vamos levá-lo às massas."

Quando me encontrei com Naik durante o fim de semana em Bangalore no ashram de Sri Sri Ravi Shankar, onde ele comemorava o décimo aniversário do Sri Sri College de Ciências e Pesquisas Ayurvédicas, ele me disse que gostaria de ver "um professor de ioga em cada aldeia, e a ioga ensinada em toda escola pública". Mas a ioga, do modo como ele falou, é muito diferente da noção reducionista de ioga como exercício. O que lhe dá seu poder, disse ele, "é a conexão com a mente e toda a sabedoria que remonta a 5 mil anos, tornando possível evitar doenças e oferecendo asanas [posições] específicas para diferentes problemas de saúde".

O próprio primeiro-ministro Modi há muito tempo é conhecido como um entusiástico praticante de ioga (parece que ele faz durante duas horas por dia) e falou sobre como, ao nos ajudar a olhar para dentro, a ioga pode produzir mudanças exteriores. "A ioga não deve ser apenas um exercício para nós, mas um meio de nos conectarmos com o mundo e com a natureza."

Modi disse em um discurso em setembro na Assembleia Geral da ONU: "Deveria causar uma mudança em nosso estilo de vida e gerar consciência em nós, e pode ajudar a combater a mudança climática." No mesmo discurso, ele pediu a criação de um Dia Mundial da Ioga.

A adoção desses princípios pode ser vista em todos os níveis. Hasmukh Patel, o comissário de polícia de Surat, no Gujarat, está usando a ioga para aumentar a eficácia dos 3.500 policiais sob seu comando. O programa permite que os policiais façam uma meditação intensiva e curso de ioga de dez dias recebendo o salário integral. A escola de ioga usada é a Vipassana, que significa "ver as coisas como realmente são" - uma técnica muito boa para um policial. "Como policial", disse Patel, "eu lido com a injustiça. Eu costumava ficar nervoso, mas depois da meditação não mais.... O principal impacto é a redução na reação, raiva, medo e melhora da concentração, decisões melhores e mais enfocadas."

Certamente não faltam reportagens na mídia dos Estados Unidos envolvendo policiais que poderiam ter tomado decisões melhores, de maneira mais enfocada.

A tecnologia abalou praticamente todos os aspectos da sociedade indiana, e há mais de 240 milhões de usuários da internet na Índia - mais que nos EUA. Viajar de trem pela Índia costumava levar horas de espera nas linhas. Hoje os indianos podem comprar suas passagens pela Irctc.co.in - na verdade, a maior plataforma de comércio eletrônico do país. Os agricultores, mesmo nas aldeias mais remotas, podem usar seus telefones celulares para pesquisar preços de matérias-primas em tempo real. Qualquer pessoa com uma conexão com a internet pode receber aulas de programação gratuita de Stanford no sistema Coursera ou uma aula de filosofia de Yale. E agora um curso online aberto chamado Swayam vai oferecer cursos da ITT Mumbai e outras universidades. E os indianos estão usando majoritariamente a telefonia celular: dos mais de 100 milhões de indianos usuários do Facebook, mais de 84 milhões o acessam por meio de um dispositivo móvel.

Enquanto a Índia se moderniza, está levando consigo sua sabedoria antiga. Isso é verdade até no mundo dos negócios. Muitos líderes estão optando por mudanças no local de trabalho que podem aliviar o esgotamento e ajudar os funcionários a utilizar plenamente seu potencial. Quase um terço dos empregadores hoje oferece algum tipo de programa de alívio do estresse, incluindo ioga, tai-chi e conscientização.

E praticamente todo mundo que conheci em minha viagem aqui tem algum tipo de prática espiritual e, além disso, gosta de falar e tuitar a respeito. Por exemplo, Devendra Fadnavis, o principal ministro do estado de Maharashtra e membro do partido governante da Índia, o Bharatiya Janata, tuitou recentemente sobre seu objetivo de incentivar a ioga e outras iniciativas de saúde holística "para construir um Maharashtra saudável". O diretor de cinema e ator Karan Johar falou sobre como a meditação é muitas vezes "o momento mais pacífico do dia", acrescentando: "Todos nós queremos entrar nesse estado -- chame-o como quiser, meditação ou busca..."; e Barkha Dutt, que em 20 anos como jornalista viajou para regiões de conflito do Cachemira ao Iraque, disse que a ioga é a chave para ajudá-la a enfrentar um trabalho que pode ser deprimente. "O lado negativo do tipo de trabalho que faço é que você é exposta a muita morte, violência, conflito e tragédia", acrescentou.

"Isso cria cicatrizes em você de maneiras que você não tem consciência imediata... por isso, além da recuperação física, preciso de algo que me ajude a desestressar."

E agora um pouco sobre nossa equipe de liderança HuffPost Índia. Estamos muito felizes em nos associarmos a Satyan Gajwani, que conheci cinco anos atrás. Ele se tornou CEO do Times Internet (TIL) aos 27 anos e conheceu sua esposa, Trishla Jain, quando eram estudantes em Stanford. Puneet Singhvi lidera a Times Global Partners, uma divisão do The Times of India Group que ajuda companhias digitais a crescer na Índia e traz anos de experiência internacional em celulares e vendas. Estamos muito felizes por nossa equipe do HuffPost Índia ser liderada por K.K. Sruthijith, nosso editor-chefe, que veio da Quartz India.

Vamos abalar o campo digital com histórias que examinam muitos aspectos da vida e da cultura indianas, incluindo os primeiros seis meses de Narendra Modi no cargo, o modo como os preços baixos do petróleo estão ajudando a economia indiana, o histórico do país em relação à mudança climática, uma entrevista com a diretora de Bollywood Farah Khan e alguns dos melhores apps de viagem indianos. O HuffPost Índia espera abrir a conversa sobre como podemos viver com menos estresse e mais realização, por isso nosso lançamento incluirá, entre outras histórias, conselhos de especialistas sobre como enfrentar o estresse na hora do rush no metrô de Déli, os motivos pelos quais tantos indianos dormem pouco, entrevistas com jovens trabalhadores na tecnologia que trocaram o ritmo agitado da vida na cidade por empregos em estações na montanha e 11 poses de ioga que você pode fazer em sua mesa de trabalho. E assim como o HuffPost Índia estará relatando todos os desafios que o país enfrenta e tudo o que não funciona, também estaremos incansavelmente contando as histórias do que está dando certo. Para começar, vamos destacar organizações que estão utilizando a criatividade coletiva e a compaixão dos indianos para melhorar a vida de indivíduos e comunidades.

Há o Ugly Indian Project [Projeto Indiano Feio], um grupo que convida a população de Bangalore a limpar e embelezar a cidade - e, é claro, a publicar fotos dos resultados na mídia social. Temos uma reportagem sobre Raahgiri, um movimento para recuperar as estradas em e ao redor de Déli para pedestres, reduzir os engarrafamentos de trânsito e a poluição. Também examinamos como os indianos estão usando a mídia social e a tecnologia de formas criativas, como usar grupos do Facebook para encontrar moradia em cidades indianas que não têm corretores, e "vigilantes" como Pothole Watch, que permite que os usuários geolocalizem as fotos que tiram de buracos nas ruas da Índia.

E fazemos um perfil de Rwitwika Bhattacharya, um nativo de Déli de 27 anos que estudou em Harvard e cuja instituição sem fins lucrativos ajuda os parlamentares a identificar questões chaves para seu eleitorado.

Damos início ao blog do grupo HuffPost Índia com posts do aclamado ator Manoj Bajpayee sobre seus conselhos a sua filha; a blogueira de estilo de vida MissMalini sobre a crescente influência cultural da Índia em todo o mundo; Arnab Ray sobre a batalha política que se trava em Déli; o editor-chefe de YaleGlobal Online, Nayan Chanda, sobre o potencial acordo de fronteiras em Bangladesh; a palestrante em psicologia Tanu Shree Singh sobre o desafio de educar meninos para que respeitem as mulheres em uma cultura patriarcal; a ativista ambiental Sunita Narain sobre a crise da poluição em Déli; a personalidade do rádio Anant Nath Jha sobre o famoso tráfego de Déli; o deputado Baijayant "Jay" Panda sobre o poder da tecnologia; Chapal Mehra sobre os direitos dos gays na Índia; o estudante de doutorado Raza Habib Raja sobre suas origens paquistanesas e seu amor pela Índia; e o ator Rahul Khanna sobre seu relacionamento com seu avô.

Claramente, a Índia enfrenta desafios importantes em seu avanço. Mas é olhando para trás e para suas antigas tradições que foram exportadas para todo o mundo que encontrará grande parte da sabedoria e da força necessárias para vencer esses desafios e construir o futuro. Sinto-me entusiasmada porque o HuffPost Índia estará lá para fazer a crônica dessa história e - igualmente importante - ajudar os indianos a contar suas próprias histórias. Por favor, juntem-se a mim para dar as boas vindas à Índia na família HuffPost.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost India e traduzido do inglês.

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