OPINIÃO

Minha conversa com James McKenna, especialista em sono de bebês

23/04/2015 18:39 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:01 -02
Shutterstock / Vitalinka

O Dr. James J. McKenna é professor de antropologia e diretor do Laboratório Comportamental do Sono Materno-Infantil da Universidade de Notre Dame. Ele é especialista mundialmente renomado no sono dos bebês, em especial na prática da partilha da cama e amamentação.

Em nosso bate-papo, McKenna falou de suas ideias sobre "co-sleeping" (cama ou quarto compartilhados entre pais e bebê) e sobre o padrão de sono bifásico, oferecendo algumas dicas para pais de primeira viagem.

O senhor é a favor do 'co-sleeping'. Pode descrever suas pesquisas sobre esse modo de dormir? Em quais populações ele é comum? Quais são os benefícios de pais e bebê dormirem juntos?

Minhas pesquisas sobre a cama compartilhada começaram quando soubemos que minha mulher estava grávida. Como a maioria dos casais que vão se tornar pais, corremos para comprar todos os livros sobre criação de filhos.

Mas, depois de ler alguns livros sobre a melhor maneira de cuidar do bebê recém-nascido, concluímos que havia duas possibilidades: ou tudo que tínhamos aprendido com a antropologia, minha especialidade, estava errado, ou todas as recomendações ocidentais sobre o melhor modo de cuidar de bebês na realidade não tinham nada a ver com bebês. Talvez tivessem tudo a ver com ideologias culturais e valores sociais ocidentais recentes, que refletem com mais precisão o que queremos que os bebês se tornem, e não o que eles realmente são e o que realmente precisam.

Em qualquer curso de Introdução à Antropologia Biológica, os alunos aprendem que o bebê humano é o mais vulnerável e dependente de todos os mamíferos primatas, aquele que é mais dependente do contato e que se desenvolve mais lentamente. Isso acontece principalmente porque os humanos nascem neurologicamente imaturos, em comparação com outros mamíferos primatas. Para que o bebê humano possa passar em segurança pela saída pélvica pequena da mãe, um requisito arquitetônico para caminhar ereto, é preciso que ele nasça com apenas 25% do volume cerebral do humano adulto. Isso quer dizer que seus sistemas fisiológicos não são capazes de ter funcionamento ótimo sem contato com o corpo da mãe, que continua a regular o recém-nascido de modo semelhante ao que fazia durante a gestação.

Ashley Montagu, minha heroína intelectual pessoal, disse que os recém-nascidos são "extero-gestados". Tocar um recém-nascido provoca mudanças em sua respiração, temperatura corporal, taxa de crescimento, pressão sanguínea e níveis de estresse. Em outras palavras, o corpo da mãe é o único ambiente ao qual o recém-nascido humano está adaptado. Como disse o famoso psicólogo infantil D. Winnicot, "não existe um bebê -existe um bebê e alguém".

Esse é um ponto de partida científico profundamente verdadeiro para compreender por que os bebês nunca vão aceitar a regra segundo a qual eles devem dormir sozinhos. Para o humano recém-nascido, o ambiente de sono solitário representa uma crise neurobiológica, pois esse microambiente é ecologicamente incapaz de atender às necessidades fundamentais dos bebês humanos. De fato, dormir sozinho em um quarto e não ser amamentado hoje são reconhecidos como fatores independentes de risco para a SMSI (síndrome de morte súbita infantil). Isso explica por que a maior parte do mundo nunca havia ouvido falar em SMSI.

Minha mulher e eu ficamos chocados quando lemos o que pesquisadores sobre o sono infantil tinham a dizer sobre o sono normal de bebês humanos e a ideia de que os recém-nascidos precisam aprender a se acalmar sozinhos. Sabíamos, mesmo então, que isso não passava de uma construção cultural, sem evidências empíricas que o substanciassem.

Quando meu filho nasceu, descobri que eu podia manipular sua respiração, mudando o ritmo de minha própria respiração, como se fosse preciso estarmos sincronizados. Minhas pesquisas posteriores confirmaram que a respiração da mãe e do recém-nascido são reguladas pela presença de ambos -os sons da inspiração e expiração, o movimento dos peitos de mãe e bebê, o dióxido de carbono exalado por um sendo inalado pelo outro, encaminhando-os à respiração seguinte! Em artigos científicos, argumentei que este é mais um sinal para lembrar aos bebês da necessidade de respirar -um sistema de "back-up" para o caso de as transições respiratórias internas do bebê vacilarem.

Estudei os efeitos fisiológicos negativos que a separação breve da mãe exerce sobre os macacos recém-nascidos -sobre seu ritmo cardíaco, respiração, temperatura corporal, suscetibilidade a vírus, níveis de cortisol, digestão e crescimento. Como eu poderia me surpreender ao saber que o primata menos maturo de todos - o humano - é ainda mais sensível a todos os sinais sensoriais? Segurar um bebê nos braços, carregá-lo e dormir com ele não é apenas uma ideia social agradável, mas uma importante contribuição para o bem-estar do bebê.

Decidi aproveitar meu conhecimento do comportamento dos primatas e aplicá-lo a nós, para ver se o contato noturno (com a amamentação e a partilha do leito) realmente regula o recém-nascido humano das maneiras que descrevi e o que acontece quando os bebês dormem sozinhos. Liderei uma equipe de cientistas que documentaram pela primeira vez os efeitos comportamentais e fisiológicos que dormir sozinho exerce sobre o bebê e como fica o sono quando é medido dentro do contexto da cama compartilhada e amamentação dentro do qual evoluiu.

Mostramos como as diferentes modalidades sensoriais de mães e bebês afetam a umas e outros mutuamente. Não é apenas a mãe que modifica o status de sono e fisiológico do bebê, mas também o bebê que regula o comportamento e o status fisiológico da mãe.

É importante lembrar que, enquanto a partilha da cama por mães e bebês evoluiu, o mesmo não se deu com as camas e roupas de cama modernas. É preciso tomar as precauções necessárias. Mas dividir a mesma cama pode proteger o bebê, quando ligado à amamentação. Sabemos hoje que muitas mães lactantes optam por dividir a cama com seus bebês precisamente porque assim conseguem dormir mais, administrar melhor seu fluxo de leite e formar um vínculo mais intenso com seus bebês.

Quando feito de modo seguro, a partilha da cama deixa mães (e pais!) e seus bebês felizes e exerce efeitos positivos sobre o desenvolvimento das crianças em crescimento. As mães não devem ser estigmatizadas ou vistas como irresponsáveis por compartilharem sua cama com seu bebê. Na realidade, 90% dos seres humanos dormem com seus bebês, de alguma forma ou outra.

O senhor já teria dito que os humanos na realidade dormem em duas fases, dizendo: "Nos Estados Unidos a expectativa é que você se deite às 23h e basicamente fique morto até as 7h, e, se não o fizer, é porque tem uma patologia: a insônia". O que tem a dizer sobre as manchetes que definem limites rígidos às horas de sono que precisamos "obrigatoriamente"?

O metabolismo humano parece se desacelerar à tarde, e é provável que sejamos biologicamente inclinados a alguma forma de sono bifásico. O fato de que em muitas sociedades a maioria das pessoas é capaz de adaptar-se a esse viés biológico sem dúvida é um reflexo de nosso passado evolutivo, pelo fato de os humanos terem evoluído nos trópicos, onde era necessário sair do calor intenso do início da tarde.

Valores culturais são responsáveis por como e quando dormimos, ou até regulam esses padrões. Nos Estados Unidos, a expressão "não quero ser pego cochilando" (o equivalente a "não quero ser pego de calças curtas") sugere que uma soneca seria algum tipo de infração. Mas outras sociedades são a favor de sonecas ou sestas durante o dia.

A necessidade evolutiva de ficar vigilante enquanto se dorme e de despertar rapidamente permitiu que os humanos primitivos se adaptassem aos desafios ambientais, sociais, psicológicos e emocionais. Assim, é importante respeitar as variações individuais e considerar a saúde geral desde muitos pontos de vista.

Fico incomodado quando leio essas manchetes com afirmações abrangentes, que podem levar pessoas com padrões de sono mais variáveis a sentir ansiedade, especialmente quando se sentem bem descansadas durante o dia. E, quando todas as doenças e síndromes são explicadas a partir da privação crônica de sono, precisamos reconhecer que é muito difícil avaliar causa e efeito.

Como especialista em sono de bebês, que dicas o senhor daria aos pais de primeira viagem para ajudar seu filho a dormir bem (e eles próprios, também)?

Faça o que funciona bem para sua família e confie em você mesmo, que conheceu seu filho melhor que qualquer especialista externo. É você quem passa o maior tempo com seu bebê, e cada bebê é diferente. Recém-nascidos, crianças e seus pais interagem de todos os tipos de maneiras diversas.

Não existe um modelo a ser seguido por qualquer relacionamento que desenvolvemos. Com relação aos padrões de sono, muitas famílias desenvolvem conceitos muito flexíveis sobre onde seu bebê "deve" dormir.

Os pais com ideias menos rígidas sobre como e onde seus bebês devem dormir geralmente são bem mais felizes e têm menos tendência a se decepcionar quando seus filhos não conseguem se comportar como "deveriam" -por exemplo, dormir a noite toda sem acordar.

Sobretudo, lembre-se que os bebês não têm segundas intenções; eles não estão tentando dificultar sua vida ou manipular você.

Com um cérebro tão pequeno e pouco desenvolvido, eles têm pouquíssimo controle sobre seu comportamento. Nos primeiros seis a sete meses de vida, o bebê não tem "desejos", apenas necessidades. Lembre-se que os bebês são tão "vítimas" de seu próprio comportamento quanto você talvez seja.

O segredo para os pais ficarem satisfeitos é não aceitarem o que outros dizem que eles devem fazer. Em vez disso, fique aberto às interações dos relacionamentos que compõem sua família e adote as soluções que pareçam estar funcionamento. Procure não julgar o sono de seu bebê. Não confunda o aspecto médico positivo de dormir a noite toda com um "bem moral" -ou seja, a ideia de que os "bebês bem comportados" dormem a noite toda sem acordar. A pior invenção cultural para os pais foi a noção do "bebê bem comportado".

Bebês fantasiados para o Halloween :)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.