OPINIÃO

Contradições

09/05/2014 17:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Acordada no meio da noite, Madalena olhava para seu namorado que dormia tranquilamente. Estavam juntos há oito meses. Ele era companheiro, educado, inteligente, gostava de crianças, não se incomodava com DR's. Ela detestava admitir mas não havia outro adjetivo que substituisse aquele... ele era bonzinho! Suas amigas e seus pais gostavam dele, ela gostava dele também mas havia algo estranho, sentia falta do antecessor, dele mesmo... o cafajeste!

Aquele sujeito que fez a vida dela parecer uma montanha russa, que desaparecia de vez em quando mas sempre dava um jeito de estar presente, em sua mente, em seu corpo. Com ele tudo era imprevisível, instável.

Como podia algo assim acontecer? Será que ela era pirada?, pensou com seus botões! Tentou dormir e não conseguiu. Olhou mais uma vez para o bonzinho e ele ali, dormindo feito um, feito um... um o quê? um anjo, um primo, um amigo.

Ah como ela queria o abraço noturno do cafajeste! Ela sentia falta daquele olhar de desejo que faz a mulher se sentir única, absoluta. Sentia falta daquele sorriso que insinuava o proibido. Ah como ela sentia falta do jeito que ele a tocava: forte, brusco, seguro e arrebatador.

Respirou fundo e lembrou de tudo que o bonzinho proporcionava, que a vida é feita de escolhas, que não dá pra ter tudo, que a importância relativa do sexo diminui com o tempo mas... mas continuava inquieta e o cafajeste se fazendo presente.

Quanto mais pensava nele mas lembrava das experiências que viveu com o zumbi que não se deixava enterrar. Lembrava das situações que revelaram a mulher que ela desconhecia. Uma mulher ousada, sensual, sexualmente intensa. Com ele, ela perdeu a vergonha e gostou do que descobriu.

Com o bonzinho ela se continha, tinha um certo pudor, um medo do que ele acharia de suas ações, de suas revelações e a coisa ficava morna, sem sabor. Que praga, pensava ela. Descobrir aquela mulher liberada foi bom mas ela ficou refém de onde chegou.

Olhou para o telefone, eram três e meia da manhã e ela ali, acesa, ligada, excitada, irritada. Tentou meditar mas não conseguiu. Pegou o terço, começou a rezar e se perdeu nas contas.

De repente o bonzinho acordou, limpou os olhos e perguntou se havia algum problema. Ela respondeu que não conseguia dormir. Ele levantou, abriu a porta do quarto e desapareceu no corredor.

Quanto mais brigava com seu corpo, mais Madalena ficava irrequieta, mais se sentia culpada.

A luz do corredor se acendeu e o bonzinho entrou no quarto com uma caneca de leite quente para sua insônia. Ela pegou a caneca, agradeceu, bebeu um pouco e pensou: pois é... um leitinho quente era tudo que eu precisava!