OPINIÃO

Se a carne é fraca, nós não precisamos ser

A nossa insistência nos hábitos alimentares de comer carne de animais revela forte atitude discriminatória que devemos superar: o especismo.

23/03/2017 14:27 -03 | Atualizado 23/03/2017 20:05 -03
chengyuzheng via Getty Images
Procurador da República questiona hábitos alimentares que classifica de "especismo".

Ramiro Rockenbach da Silva Matos Teixeira de Almeida*

Os brasileiros estão perplexos com o mais recente escândalo envolvendo corrupção, propina e irregularidades de toda ordem que desta vez atinge o cotidiano da maioria da população, pelo simples fato de se comer carne. Fato esse que na verdade não é tão simples assim, ou não deveria ser.

A maior operação da Polícia Federal em toda a sua História, denominada de "Carne Fraca", coincidência ou não, tem nome similar ao do documentário A carne é fraca (Instituto Nina Rosa), que revela as mazelas infindáveis a que são submetidos seres vivos destinados ao consumo humano.

O momento é oportuno para questionar por que razão, num cenário global de tantas alternativas de alimentação saudável, continuamos a viver da eliminação da vida de bilhões de animais. Por que condenar à morte, sem qualquer direito à defesa e sem reflexão, esses seres que fazem parte da teia da vida no Planeta Terra?

Para se ter uma ideia em números, conforme dados do IBGE, em 90 dias (4.º trimestre/2016), foram abatidos oficialmente no Brasil: 7,41 milhões de bovinos; 1,41 bilhões de frangos; e 10,8 milhões de suínos.

Alguém imagina fazer isso com cães e gatos em vez de bois, porcos e galinhas? Por quê?

De onde tiramos essas escolhas de dar carinho e cuidado a alguns animais e deixar que outros tenham uma vida de suplícios até o dia de seu holocausto?

Em outros lugares do mundo as opções são diferentes, como no Festival de Yulin, na China, onde foram abatidos mais de 10 mil cães para refeições. Lá ou aqui escolhas melhores podem ser feitas.

A questão é que, em regra, ninguém come carne com base em reflexões profundas, de forma livre e consciente.

Ao contrário, isso é feito a partir de uma verdade coletiva dirigente sobre a qual não pensamos nem debatemos, seja no lar, na escola, nas instituições religiosas, no trabalho etc.

É algo "normal" que "todo mundo faz", que "meus pais fizeram, os pais deles também, eu faço e é isso que meus filhos comigo aprenderão a fazer".

Há um sistema de crenças invisível e irrefletido que se reproduz geração a geração e que a professora Melanie Joy denomina de "carnismo".

A nossa insistência nesses hábitos alimentares de comer carne de animais revela forte atitude discriminatória que devemos superar: o especismo, na expressão de Richard Ryder.

A História da humanidade está repleta de discriminações. Os negros foram escravos, as mulheres submissas, os índios dizimados.

O ato de discriminar envolve posturas que repudiamos como a exploração, a subjugação e o domínio de uns sobre outros, mas é o que seguimos fazendo em relação aos animais, apesar de eles serem capazes de sentir prazer, dor, ansiedade, alegria, amor, ternura, devoção etc, como revelado por Charles Darwin. Algo que foi bastante fortalecido com o Manifesto de Cambridge firmado por 25 pesquisadores renomados, enfatizando que há evidências científicas suficientes para se considerar que mamíferos, aves e até invertebrados, como o polvo, têm consciência.

Se pararmos de comer carne, deixaremos de eliminar bilhões de vidas e ainda estaremos preservando nossa saúde e cuidando do bem-estar planetário. E não precisaremos mais nos preocupar se a carne tem qualidade ou não.

A OMS (Organização Mundial de Saúde) recebeu muita pressão ao publicar documento produzido por 22 especialistas de dez países, salientando que o consumo excessivo de carne processada implica maior risco de se contrair câncer.

Após insurgência da Associação Nacional da Carne Bovina e dos Pecuaristas, dos Estados Unidos, a OMS explicou que apenas estava aconselhando as "pessoas a moderarem o consumo de carne em conserva para reduzir o risco de câncer". Não se pode deixar de assinalar que quaisquer estudos (ainda que da ONU ou da OMS), se confrontarem a bilionária indústria da carne, por certo serão alvo de embate.

Cada quilo de carne bovina produzido no Brasil, entre outros efeitos, é responsável por dez mil metros quadrados de floresta desmatada; consumo de 15 mil litros de água doce limpa; e descarte de efluentes como sangue, urina, gorduras, vísceras, fezes, ossos e outros que acabam chegando aos rios e oceanos depois de contaminarem solo e aquíferos subterrâneos. E na terra em que se produz em média 210 kg de carne é possível plantar oito toneladas de feijão ou 23 toneladas de trigo ou 19 toneladas de arroz etc.

Os impactos causados pelo ciclo da carne são tão grandes que o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente recomendou a dieta vegana (nada de origem animal) pelo bem-estar planetário.

Se a carne é fraca, nós não precisamos ser. Podemos ser fortes (determinados) e fazer escolhas melhores. Mudar esse hábito alimentar de comer carne é algo que cada um pode fazer por si próprio, pelos demais, pelos animais e pela Terra.

É possível começar não comendo carne às segundas-feiras, como propõe a campanha mundial "Segunda Sem Carne" que visa a "conscientizar as pessoas sobre os impactos que o uso de produtos de origem animal para alimentação tem sobre os animais, a sociedade, a saúde humana e o planeta".

Uma mudança ao alcance de todos. Comece se informado na Sociedade Vegetariana Brasileira (http://www.svb.org.br/). Cada qual pode fazer muito.

*Procurador da República, doutor em Ciências Jurídicas e Políticas pela Universidade Pablo de Olavide, em Sevilla, na Espanha, com a tese "Para além dos direitos humanos: o Ministério Público como agente emancipatório em defesa de todas as formas de vida"

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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