OPINIÃO

A onda

03/02/2014 18:51 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
Superduper

Eu acompanhei em quase três anos de "ativismo internético pró humanização dos partos" muitos e muitos casos à distância de mães que me procuraram para trocar figurinhas sobre o nascimento e primeiros momentos da criação de filhos.

Desde aquelas que lidavam (como eu) com suas histórias, até aquelas que procuravam (como eu) novos cenários. Teve quem foi enganada de novo, teve quem reagiu, teve quem conseguiu, teve quem desistiu, teve quem sucedeu, teve quem pereceu, teve de tudo, tudo lindo, tudo registrando a doce amargura de ser mulher e mãe na contemporaneidade.

Mas o que me surpreendeu, de um ano e pouco para cá, foi a progressão da onda.

Se antes era uma marolinha, mal vista e levada de ombros, hoje partos humanos invadem o imaginário de muitas e muitas mulheres próximas, daquelas que um dia jamais questionaram suas cesáreas anteriores, ou aquelas que um dia juraram que nunca deixariam "passar uma melancia pelo buraco de um limão"... logo depois de questionarem, é claro, a potente fisiologia do tal buraco.

Num condomínio fechado, chique e empolado de um bairro afastado -- e nem por isso menos desejado -- da cidade de São Paulo, uma amiga mais do que próxima, e a vizinha dela gestam bebês nas mãos de doulas e médicas humanizadas. Ambas de ouvidos e olhos abertos nesse momento, com a palhaçada do Hospital São Luiz, o menos desumano da cidade, que descredenciou uma das únicas obstetras da metrópole que não picota suas pacientes como procedimento de rotina, logo depois de ter proibido doulas nos centros obstétricos, mesmo para partos normais.

A delivery desse hospital bomba. E não é porque meia dúzia de comedoras de placenta, ainda muito assustadas para terem seus bebês em casa resolveram parir por lá. É por que a onda está crescendo, porque agora não são as ripongas que querem períneos íntegros, seus filhos respeitados em seu tempo, querem sentir suas potências, querem amamentar sem hora e imediatamente à partir do parto.

Cada vez mais e mais mulheres embarcam nessa demanda, os hospitais estão assustados. E claro. já existe movimentação ativa para pressionar os centros de atendimento à mulher, tanto na rede privada quanto pública para o atendimento que desejamos e merecemos.

Há leis!

O filme "O Renascimento do Parto" narra diariamente na fanpage histórias de "gente ganhando óculos". Na época do lançamento eu tive uma pequena síncope -- recebia e-mails e mais e-mails de leitoras queridas, pessoas que eu nunca vi e amigas próximas me perguntando como eu tinha parido meu segundo filho, depois de 20 meses de uma cesárea (eletiva, indesejada, mal indicada e agendada por coação médica). Recentemente, os produtores e diretores do filme foram convocados para uma apresentação no Congresso Nacional. Os jornais tratam as cesárias indesejadas e mal indicadas como epidemia, já existem projetos de lei contra violência obstétrica. Segurem seu chapéu na praia, porque a onda vem com tudo!

De repente minha história não era bizarra. De repente eu não era mais uma maluca. Mulheres da minha família passaram a me respeitar. Duas amigas de internet, poderosas em sua essência, tiveram suas segundas filhas, depois de experiências de parto e cirurgia questionadas no fundo de seus corações -- acreditem! -- em casa e desassistidas. Assistidas dos maridos, assistidas de si mesmas, plenas em suas capacidades de parir. Cheia de planos de partos hospitalares, seus femininos intensos surgiram lá de dentro arrancando-lhes o controle e o tapete de baixo dos pés. Como se os bebês e a máquina perfeita do parto dissesse: é aqui, essa é a minha história, a você só cabe: deixar sair. Ambas usam salto, fazem as unhas, devem estar bem assistidas de grana, viajam para o exterior, falam línguas. São gente limpa, viu? Parir não é mais coisa de abraçadora de árvore.

Uma das minhas últimas e mais queridas ocupações profissionais é o Mamatraca, vocês sabem. Lá eu estou desenvolvendo um projeto patrocinado pela Natura, que conta história de mulheres que apoiam mulheres. Moda, Colo, Exercícios, Massagem e em breve Grupos de Pós-Parto e Coaching para Mães. Todas essas mulheres fazem parte de algum momento da humanização dos nascimentos e criação de filhos por apego, ou chame do que quiser. Seja porque pariram, porque são ativistas mesmo, porque frequentaram grupos, porque buscaram suas novas histórias, porque inspiram e apoiam outras mulheres na jornada.

Que não é mais uma jornada idiotizante da mídia comum -- que ainda existe, claro, é uma tristeza e só eu sei o quanto me magoa ver textos meus em canais grandes alocados ao lado de latas de complemento engordante para famílias mal informadas e crianças mal nutridas -- mas uma jornada empoderada. E não é mais o empoderamento daquela meia dúzia de três ou quatro da Vila Madalena. As mulheres registradas pelo Mamatraca usam bolsa Louis Vuitton e sentiram cada puxo do expulsivo. Posh and Pushy, my friend.

Tudo isso para contar, e deixar aqui no alfarrábio, que a onda cresceu. Já tem muita gente surfando com maestria, muita gente ainda tomando caldo. Iniciativas medíocres como a do Hospital São Luiz de tentar conter a movimentação -- oh! que perigo, mulheres querem parir com profissionais de sua escolha! -- vão aparecer. Mas como as minhas amigas desassistidas, e aquelas que gestam hoje seus bebês já sabendo que não passaram por procedimentos de violência, com S. Luiz ou sem S. Luiz, como aquelas mulheres que conheci no projeto do Mamatraca, como a minha vizinha e talvez a sua... Não vai demorar muito tempo para que muita gente faça questão de catar a prancha, o barco, o iate ou ir no braço mesmo: surfando a onda.

Isso não nos faz parte de um grupo. Não transforma ninguém em ativista (muito embora quem pariu com amor sabe, o quanto é difícil lutar contra o bichinho que nos impele a falar demais sobre isso). Algumas tomam coca cola, outras são executivas de mega corporações. Há as vegetarianas, as carnívoras, as loiras, morenas, baixas, gordas, altas e modelos. As que tomam remédio, as que falam com Shiva. A onda de uma nova forma de viver a maternidade é para todas, e desconfio que em breve não poderá mais ser ignorada.

Medidas como a do Hospital São Luiz são como uma boia de braço tentando evitar um tsunami. Segurem nas suas cadeiras, seus privatizadores de partos. Contra a natureza, não há argumentos.

(texto originalmente publicado no Superduper)