OPINIÃO

A única pessoa que me julga pelo aborto que fiz - a única que importa - sou eu mesma

14/05/2015 18:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02
NMCIL/Flickr
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Tenho um sonho recorrente em que estou me olhando no espelho e gritando comigo mesma.

Eu já tive todas as experiências possíveis de gravidez: tive filhos, um aborto espontâneo e aborto induzido.

Ter filhos, sofrer abortos espontâneos e dizer "essas coisas foram realmente difíceis" é totalmente aceitável. Elas são difíceis mesmo. O parto é difícil, cuidar de filhos é difícil, perder um bebê é difícil - todas essas coisas são física e emocionalmente devastadoras às suas diversas maneiras.

Por outro lado, parece que só somos autorizadas a adotar duas atitudes ao falar do aborto: ou falar do arrependimento total que sentimos ou de nossa ausência total de dúvida.

Passei os últimos seis anos me atormentando por estar numa posição intermediária, do tipo: "Fico triste por ter feito um aborto. Não acho que eu tenha sido poderosa e tenha estado no controle. Mas também não lamento ter abortado."

Tive meus filhos quando eu era muito jovem. Eu sou como uma terra que acaba de ser arada -sou capaz de engravidar estando sozinha num campo. Quero realmente justificar o que fiz, quero lhe dizer que eu estava usando contracepção. Eu sou uma mulher que engravidou por acidente quatro vezes. Em uma dessas vezes, usamos camisinha e tomei a pílula do dia seguinte, quando percebi que estava prestes a ovular. Mas não fez diferença.

Eu deveria ter tomado ainda mais cuidado. Deveria ter tomado cuidados múltiplos.

Quando me descobri grávida de minha primeira filha, eu tinha 19 anos e vivia com um sujeito que tinha conhecido três meses antes. Eu estava em um emprego novo havia seis semanas.

Aquela teria sido uma boa ocasião para abortar, correto?

Eu poderia ter optado pelo aborto, poderia ter tomado uma anestesia e pronto, estaria tudo terminado. Não fiz isso, e fico feliz por não ter feito, já que evidentemente amo muito a minha filha (que está com 11 anos agora). Mas foi ali que começou minha relação complicada com meu próprio sistema reprodutivo.

Durante algum tempo, senti raiva do meu corpo. Passei pela puberdade aos 10 anos. Ninguém me tinha explicado o que é a menstruação, mas ganhei um pacotinho da revista DOLLY com um absorvente externo, um absorvente interno e um folheto explicativo.

Eu ficava torcendo para aquilo parar. Na hora do recreio e na hora do almoço, olhei minha calcinha e chorei quando percebi que a mancha de sangue tinha aumentado. Nenhuma outra garota da minha classe já tinha menstruado. Fomos a um acampamento da escola. As outras meninas olharam em minha nécessaire e zombaram de mim por estar levando absorventes. Eu não entendia meu corpo e tinha muita raiva dele.

Contei a meu namorado, que tinha 20 anos na época, que eu estava grávida, e ele passou três dias sem falar comigo. Ficamos andando pela casa em silêncio. Até então eu tinha sido uma pessoa perante o mundo.

Agora eu era duas pessoas.

Fui ao médico, ele perguntou: "Você quer ser encaminhada a uma clínica?"

Contei à minha mãe, e ela disse: "Você vai dar um jeito nisso?"

Não passou por minha cabeça fazer um aborto então, quando eu tinha 19 anos e mal conhecia o outro responsável pela gravidez.

Tirei algumas fotos de mim mesma no hospital, com minha filhinha recém-nascida. Ela era perfeita. Tinha uma cabecinha redonda, mãozinhas minúsculas, e estava de cara fechada, brava. E eu estava ali, de pijama verde-grama, segurando aquela bonequinha de porcelana, e eu mesma ainda era uma criança. Uma criança confusa e cansada.

Tive filhos durante toda minha vida adulta. Estou com 32 anos, e nunca pude simplesmente tentar entender o que estou fazendo de minha vida, sem ter que levar outra pessoa em conta. Sou mãe desde antes de ter aprendido a ser humana.

E assim, porque sou terrível, repeti todos os mesmos erros. Eu conhecia meu novo namorado havia apenas três meses e estava no meu emprego novo havia seis semanas. E, de novo, estava grávida.

Meus ciclos menstruais são irregulares. Ovulei antes do previsto. Isso não é desculpa, mas em todo caso usávamos camisinha, e não deveria ter havido problema.

Não deveria ter havido problema.

Não importa se não deveria ter havido problema, porque houve, mas não deveria.

Olhei para os filhos que eu já tinha, mas não entendi, mesmo assim. Eles ainda eram tão novinhos, e eu ainda era tão novinha, e eu não conseguia entender a novidade de tudo aquilo e não entendia como fazer.

Eu não podia perpetuar o ciclo que tinha iniciado. E não podia de jeito nenhum racionalizar a tentativa de amar outra criança, antes de ter descoberto como amar as que eu já tinha.

Então fiz um aborto.

Foi horrível. Não porque houvesse gente fazendo piquete diante da clínica -não havia. Nem por ser doloroso -porque não foi. Mas porque eu estava tão, tão triste. Foi uma decisão óbvia, mas ao mesmo tempo nada óbvia. Eu queria amar meu filho tanto quanto já amei qualquer pessoa, mas não tinha certeza de conseguir.

Eu não tinha dinheiro, não tinha apoio familiar. Na prática, estava apenas ocupando minha casa conjugal temporariamente, só porque não tinha condições econômicas de sair de lá. Tudo estava péssimo. Fazer o aborto virou parte daquilo tudo que estava péssimo. Quando penso naquela época, não consigo sentir meu corpo.

Hoje de manhã li esta frase num artigo sobre o aborto que Nicki Minaj fez:

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"Espero que as pessoas sintam que suas histórias foram validadas, que suas escolhas foram validadas, que elas não estão mais sendo julgadas -porque alguém ali fora não apenas acredita nelas, mas tirou tempo para escrever suas histórias, para relatar o que elas viveram."

- Jacqueline Lawton, co-produtora de Out of Silence: Abortion Stories from the 1 in 3 Campaign.

Eu não sinto essas coisas. Não sinto que eu não consiga escrever sobre o que vivi ou que eu precise escrever sobre isso para validar minha experiência. Minha experiência foi válida. As pessoas que gostam de mim apoiam as decisões que tomei. Foram as decisões corretas. Essas pessoas acreditam em mim.

Ninguém que me ama critica as decisões que tomei. As pessoas que me amam não dizem "Anna, ainda não acredito que você fez isso a seu filho que ainda não tinha nascido". Elas não falam "uau, você tomou algumas decisões péssimas". A única pessoa que faz isso sou eu. A única pessoa que fica diante do espelho e grita sou eu.

Sou eu mesma que preciso me perdoar.

Há um processo de luto ligado ao aborto. Para a maioria das pessoas, há um período de tristeza e de alívio ao mesmo tempo. Para algumas, há apenas uma sensação de alívio. Para outras, há tristeza ou remorso. Às vezes esses sentimentos passam em pouco tempo, às vezes não.

No início de meu livro há uma dedicatória. Não é ao meu companheiro, a meus filhos, a meus pais ou a mim mesma. É a única maneira que sei de me perdoar: criar alguma coisa permanente (ou que tenha pelo menos uma tiragem) que dê algum sentido à experiência que vivi, sem descartá-la ou descartar minha decisão perpetuamente correta. A dedicatória diz:

À pessoa que conheci infinitamente

e momentaneamente.

Uma versão deste post saiu originalmente no Medium.

Siga Anna Spargo-Ryan no Twitter: www.twitter.com/annaspargoryan

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.