OPINIÃO

No episódio do Quitandinha, não podemos perder de vista o que realmente importa

16/02/2016 20:21 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

A novela do Bar Quitandinha, na Vila Madalena, São Paulo, continua.

Tudo começou com a denúncia que Júlia Velo fez nas redes sociais no dia 5 de fevereiro, relatando um assédio sofrido por ela e uma amiga no bar na noite anterior. O post fez barulho: foram quase 140 mil curtidas, mais de 40 mil compartilhamentos e um linchamento sem tamanho nas redes.

Em seguida, na tentativa de se defender, o bar fez várias posts no facebook tentando descredibilizar Júlia e negar o constrangimento sofrido por ela:

O bar existe há 25 anos, nunca teve esse tipo de situação, nunca houve uma ocorrência como esta, o bar é frequentado por 70% de mulheres, sendo que nunca houve essa reclamação durante todo esse tempo. Estranha o fato da pessoa que conta a história não querer assistência como foi dada no momento, estranha a pessoa não querer denunciar o agressor e sim, apenas falar do bar.

Todas as comunicações do bar foram inundadas por milhares de comentários negativos de pessoas revoltadas com o episódio e, mais ainda, com a postura do estabelecimento durante e depois do acontecido.

No dia 6, o bar faz um post com pedidos de desculpas, esclarecendo que não teve a intenção de culpar a vítima:

Devido à gravidade e relevância da situação ocorrida, relatada por Julia Velo, a equipe do Bar Quitandinha pede desculpas se em algum momento demos a impressão de que estávamos transferindo alguma culpa ou acusando alguém.

Hoje (16), numa tentativa de limpar sua imagem, o Quitadinha soltou nas redes sociais, um post sobre a "verdade dos fatos", junto com um vídeo chamado "O desmonte de uma acusação absurda", que traz algumas cenas da câmera de segurança na tentativa de dissecar e refutar cada trecho da denúncia de Júlia.

O vídeo provocou mais uma onda enorme nas redes: vários comentários sexistas e agressivos no próprio post do bar ("feministas loucas", "feministas são doentes", "vagabunda branquela", entre muitos outros), além de discussões sobre cyberlinchamento e o poder da internet.

Muita gente aplaudiu a "descoberta da verdade" enquanto outras tantas seguiram xingando o bar pela avalanche de mentiras e manipulações. Certo, errado, exagero ou não estão em pauta no facebook e twitter.

Mas essa não é a questão.

Uma mulher se sentiu desrespeitada por homens enquanto estava no bar. Recorreu ao estabelecimento e sentiu que não foi ouvida, assistida. Ponto final.

Isso já era o suficiente pra que o bar tivesse pedido desculpas pelo acontecido e se posicionado a favor das mulheres e contra o assédio.

Mas não. A queda de braço e a colheita de provas para desmentir o relato da moça fizeram o contrário. Alimentaram mais ódio nas redes. Ódio contra o feminismo (que nada mais é que a luta por direitos iguais para as mulheres), ódio contra as mulheres.

O vídeo deu abertura para milhares de comentários machistas e misóginos - na exata contramão do que o bar pregou quando disse ser "contra o assédio":

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Mais uma vez, perdemos de vista o que realmente importa.

A postura do bar e as brigas na web fizeram com que a gente focasse em miúdezas do episódio, do que aconteceu ou deixou de acontecer, deixando de olhar pro ponto mais importante da história: mulheres sofrem assédio o tempo todo, desde que nascem, só por serem mulheres.

Somos olhadas na rua como se fossemos pedaços de carne.

Encostadas, encoxadas, alisadas. Temos nosso espaço invadido o tempo todo. Enfrentamos tapa na bunda no ônibus, puxões de cabelo na balada, mãos estranhas no ombro e elogios maliciosos na calçada. Ouvimos absurdos à luz do dia quando estamos a caminho do trabalho. Somos desrespeitadadas com uma frequência surreal. Quando tentamos reagir com um "dá licença, camarada", "se afaste, por favor" - é comum ouvirmos xingamentos de todos os tipos e agressões ainda piores.

Não importa a roupa, a idade, a quantidade de maquiagem na cara. Somos assediadas, agredidas e estupradas pelo simples fato de termos nascido com o nosso corpo.

Ninguém deveria ter medo de caminhar pelas ruas simplesmente por ser mulher. Ou ter que tomar cuidado o tempo todo com as roupas que veste, onde é que vai se sentar no transporte público, nem ser obrigada a atravessar a rua vinte vezes num zigue zague sem fim para evitar bares, padarias e grupos de homens abusivos.

É isso o que realmente importa.

E é sobre isso que a gente deveria pensar e falar a partir do episódio no Quitandinha. Por que é que essas coisas ainda acontecem com as mulheres? Por que é que posturas de assédio e abuso são comuns, entendidas como normais, silenciadas? O que podemos fazer para mudar esse cenário de machismo e desigualdade no Brasil?

É o que o bar deveria ter feito, também. Lançado uma campanha bacana, um movimento. Aproveitado o gancho e transformado o que aconteceu em uma postura positiva, educativa - ao invés de ter incentivado um pão e circo misógino sem tamanho nas redes sociais só pra salvar a própria pele.

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