OPINIÃO

Com ou sem véu e grinalda, precisamos de mais autonomia

É trabalho pesado quebrar a lógica que impera dentro e fora, mas no processo as coisas vão ficando mais fáceis.

27/09/2017 16:37 -03 | Atualizado 27/09/2017 16:43 -03
Trash Riot
Segundo, a crença cruel que está por detrás: mulher sozinha não vale muita coisa.

- Você está sozinha? Cadê seu namorado?

- E você, Joana, quando vai casar? Já fez 30 né?

- E você, Mariana, quando vai ter nenê? Já fez 31, né?

-- Ai, amiga. Vou fazer promessa para você encontrar um cara legal que nem eu encontrei o Alberto. E eu sei que você vai.

Parece besteira, coisa de vó, de gente antiquada. Mas não. Em muitas das frases que a gente solta descompromissadamente pela boca mora uma crença tão importante quanto cretina: se a mulher é adulta e está desacompanhada, tem algum problema.

A gente mal tem três anos de idade e já é príncipe, princesa, casamento e filhos para tudo quanto é lado. O problema não é amar. Nem querer ser mãe. O problema é, primeiro, a compulsoriedade heteronormativa da construção: tem que ser princesa (o nome já diz), achar um príncipe (um homem, maravilhoso e salvador, o que está em falta então vamos só chamar de "cara legal"), construir uma família linda e sustentar o núcleo familiar para todo o sempre. Se não, falhou feio, falhou rude.

Segundo, a crença cruel que está por detrás: mulher sozinha não vale muita coisa. Se é adulta e está sozinha: ou é lésbica, ou tá na vida louca, ou tem algum problema em se relacionar. É insegura, coitada. Não sabe jogar o jogo, tem autoestima baixa. Está meio relaxada, displicente. Falta feminilidade. E por aí vai.

Esses pensamentos são um recorte de um dos maiores modelos mentais que sustentam a estrutura patriarcal: a mulher como um ser incompleto, inferior, subalterno (ao homem). Eva está aí (na Bíblia) para provar: veio depois, porque o homem (Adão) estava se sentindo meio sozinho. E veio de parte do todo: só precisou de uma costela.

Isso tudo está aqui, em nós, mulheres, de um jeito bem profundo, que vem de uma consciência coletiva antiga. Pode ser descolada, mas um olhar mais atento para dentro revela: em algum lugar aí mora esse mesmo modelo mental.

Na prática, ele cria um mar turbulento para nós, que vai desde relações abusivas, violentas, até relações nocivas, que nos prendem ao invés de impulsionar. Filhos que nascem para cobrir rombos que a gente mal sabe que existem.

Uma dificuldade enorme de sair de uma relação doente. Uma tonelada de mulheres incríveis com a plena certeza de que tem algo de errado com elas porque um outro alguém não quis namorar, casar, seguir em relação.

Não tem a ver com casar ou não, ter filhos ou não. Ser monogâmica ou explorar novos arranjos. Principalmente para nós, mulheres, tem a ver com descobrir que não falta nada. Está tudo aqui dentro. Passa por descobrir a nossa força, reconhecer nossas potencialidades, nossos recursos internos. Driblar a pressão social e parar de pé, firme. Se sustentar no próprio eixo.

A partir daí, se fizer sentido, a gente pode começar a explorar relacionamentos mais lúcidos. Ou não, também. A gente consegue sair de relações nocivas, de dinâmicas doentes. Casar de branco na igreja ou só tomar uma breja com o/a/e parceirx depois do cartório. Juntar. Podemos ter nenê agora, depois ou nunca. Podemos adotar. Podemos seguir a vida toda trocando de companhia, ou sozinhas. Não importa.

É trabalho pesado quebrar a lógica que impera dentro e fora, mas no processo as coisas vão ficando mais fáceis, ganhando diferentes cores e tons. Com ou sem alguém do lado, o chão fica mais firme, o ar mais leve. Temos mais para oferecer e menos intenção de conseguir algo do outro, da relação.

Isso tem nome: autonomia afetiva. Não é auto-suficiência, fazer tudo sozinha, bater no peito, bancar, se isolar do mundo. Pelo contrário. Tem a ver com se conhecer, entender as próprias necessidades, crenças e valores. Se libertar de expectativas e padrões sociais. Reconhecer qualidades.

A Autonomia Afetiva e Relações é o tema da nova trilha de conteúdo da Comum, uma plataforma de desenvolvimento humano para mulheres. Vários assuntos dentro desse tema vão ser explorados com profundidade pelas próximas semanas, através de textos, vídeos, práticas e conversas no fórum online da comunidade. Só entre mulheres.

Fica aqui meu convite, recomendação e pedido: recomendem para todas as mulheres que se beneficiariam desse conteúdo. Para mais informações, vem nesse link aqui.

É o melhor jeito de apoiarmos outras mulheres a florescerem: com menos crítica e julgamento, mais impulsionamento. Bloqueando menos a passagem, indicando mais caminhos.

Vamos juntas.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade

18 livros para entender mais sobre feminismo e direitos das mulheres