OPINIÃO

Quando o #PrimeiroAssédio silencia todos os outros

23/10/2015 12:24 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Shutterstock / luxorphoto

A timeline do Facebook é eloquente em seu espanto e nojo diante dos depoimentos compartilhados no Twitter com a hashtag #primeiroassédio. Talvez nunca seja possível entender como uma parte tão grande das pessoas (homens também) se choca com esses relatos, enquanto a outra parte (não só homens) continua produzindo discursos e ações criminosas. Será que quem se choca jamais seria capaz de reproduzir isso que tanto condenamos? Será que os homens que assediam e estupram um dia serão capazes de se chocar? Em que ponto uma coisa se separa da outra?

Esses relatos todos, assustadores, me fizeram lembrar da primeira vez em que eu fui assediada. E da minha completa incapacidade de fazer qualquer coisa a respeito. Mesmo sabendo que deveria. Ainda hoje, não consigo justificar completamente o meu silêncio. Acho que fui oprimida duas vezes, pelo homem que se sentiu no direito de encostar em mim (pulamos do assédio para o abuso, portanto), e pela certeza que tinha de que seria julgada por ter "deixado".

Eu viajava para o interior de São Paulo, sozinha, num ônibus. Estava mais para o fundo, dormindo. Não tinha muita gente. Os poucos passageiros se concentravam na parte da frente do veículo. Acordei com uma sensação estranha, um toque nas minhas pernas. Uma mão que teimava em subir. Em questão de segundos, vi que não estava sonhando. Havia um homem no banco logo à frente inclinado sobre o encosto. Ele se sentia no direito de encostar em mim. Ele se permitiu enquanto eu dormia. Algo ali me assustou, ainda num estado lento e impreciso entre o sono e a consciência. Eu me afastei rapidamente, como quem se queima com o ferro de passar, ainda sem entender o que acontecia. Ele também se assustou. Eu queria dizer algo, gritar, xingar. Mas a voz não saía, simplesmente não saía. Sei que a minha expressão o perturbou porque ele me olhava de um jeito completamente atordoado. Ele também não disse nada. Apenas colou o indicador nos lábios e pediu o meu silêncio. E eu aceitei. Ele se levantou, foi para a frente do ônibus e desceu na parada seguinte.

Acho que estava chocada demais para protestar. Primeiro, tentava saber se aquilo tinha acontecido mesmo ou se tinha sido um produto da minha imaginação. Depois, tive certeza. Sim, aconteceu. Comecei então a me condenar por viajar de vestido e, ainda por cima, dormir. Se tem uma coisa que uma mulher aprende nessa vida é que ela precisa se cuidar. Sentar que nem mocinha, não "provocar". E eu não me cuidei. Eu me expus e "recebi o que merecia".

Já nesse tempo eu sabia que tinha sido vítima de um homem que, como tantos outros, se apropriou do corpo de uma mulher como se não existissem leis. Ou fazendo a sua própria lei. Sabia que o fato de usar vestido não era um sinal verde para abusos. E que nada poderia justificar esse ato tão horrível, de vomitar. É estranhíssimo, mas essa consciência toda não me protegeu dos meus próprios pensamentos recriminatórios.

Eu queria ter descido na próxima parada e procurado a delegacia mais próxima, além de contar para todos ali no ônibus o que havia acontecido. Mas temi pelo que aconteceria a ele. Pela violência que poderia iniciar. Eu temi pelo meu abusador e não fiz nada por mim.

Eu queria ter feito um boletim de ocorrência, mas fiquei com vergonha de chegar à delegacia com o meu vestido e dizer que eu tinha dormido e acordado com um homem praticamente em cima de mim. Será que alguém de muito boa vontade me daria um conselho amigo? Diria que, infelizmente, quem é mulher precisa se cuidar, absolvendo assim quem pratica o crime?

Todas essas possibilidades me paralisaram. Eu tinha acabado de virar estatística. Entrei, ao mesmo tempo, para o grupo de mulheres vítimas de abuso e para o grupo das que não denunciam. Eu, que já sabia um pouco da cartilha feminista, me culpei, livrei o criminoso e fiquei em silêncio. Em que ponto o nosso feminismo se descola da gente?

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