OPINIÃO

Psicanálise: por que não saber é importante

Vemos, ouvimos, sentimos e fazemos a partir de uma perspectiva singular e incompartilhável.

22/08/2017 10:39 -03 | Atualizado 22/08/2017 10:39 -03
vadimguzhva via Getty Images
Só possível vislumbrar a singularidade de cada um quando conseguimos olhar sem saberes prévios.

Andando agorinha a pé, pelo bairro, me dei conta de que uma casa pequenina, espremida entre dois bares, poderia me ajudar a explicar por que psicanalistas (não sei se todos) fazem esforço para saber sempre menos sobre seus analisandos. Cada sessão  -  acho que cada frase  -  é uma batalha.

A casinha sempre capturou meu olhar por ser modesta e graciosa, culpa das roseiras do jardim e da pintura externa, um rosa desbotado, descascando. Eu ficava a sonhar com uma casa daquelas, quem sabe. Ou imaginava quem morava ali. De certo, uma senhorinha muito, muito desconfiada, ranzinza e doce.

Eu me angustiava porque, para mim, a casa já pertencia a essa pequena mulher velha e ela não poderia estar ali, amassada entre dois barzinhos barulhentos, com a grade servindo de apoio e o jardim, de banheiro.

Ou as pessoas e as casas noturnas não poderiam estar ali, junto com ela. Para mim, não eram espaços compartilhados. O silêncio da velhice, o caos juvenil (ou desejoso de sê-lo), o barulho dos pássaros, a alegria volumosa do samba e de todos os outros ritmos que ousam tocar a gente de algum modo. Não combinavam.

E havia o fato de que eu, na minha quietude impraticável, detestava aquele som todo. Tão alto que invadia a casa, fazia tremer as janelas. Não dava nem para pensar. Eu tinha raiva por ser obrigada a compartilhar decibéis.

E porque era alegria demais para dar conta. Uma felicidade alheia e forçada, que entrava por qualquer fresta. Como a visita constante de uma barata triste por ser uma barata, mas animada pelos restos de comida.

Até que, uma tarde, eu tive tempo. Toquei a campainha. Veio uma mulher dizer que só trabalhava ali, o que eu queria, essas coisas. Eu disse que queria saber de quem morava ali se o barulho não era muito incômodo. Não sei se eu buscava uma receita, se queria, agora sim, compartilhar algo. Ou se estava apenas curiosa, como uma boa vizinha faz.

Veio a velhinha. Desconfiada. Ponto para mim.

Para minha incalculável surpresa, ela disse que não, não ligava. O quê?, perguntei mentalmente, sem acreditar. Apertadinha ali entre os batuques altíssimos. Ela não se importava. Ela achava até bom não ter tanto silêncio, àquela altura da vida. Foi o que ela explicou.

Agradeci e fui andando desnorteada. Todo o óbvio não existia. Em uma frase, ela liquidou o conceito.

Serviu de lição prática para mim. Na vida e na clínica. Tudo depende.

Vemos, ouvimos, sentimos e fazemos a partir de uma perspectiva singular e incompartilhável. Apontar essa perspectiva pode ser um dos objetivos principais de uma análise - e de toda sessão. Mas só é possível vislumbrá-la, de relance, quando conseguimos olhar sem entender. Sem ter certeza. Ou melhor, tendo a certeza de que não sabemos. Ou de que sabemos não saber. E, acreditem, esse exercício é dos mais impossíveis.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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