OPINIÃO

Por que o Oscar ainda tem muito o que melhorar no quesito 'representatividade'

Então aqui estamos, em 2017, enxergando o mundo por meio do cinema, essa mídia tão influente, quase exclusivamente pela ótica masculina.

25/02/2017 16:13 -03 | Atualizado 26/02/2017 17:41 -03

Está em cima da hora, já sei, faltando apenas minutos para a entrega do Oscar, mas tenho algumas reflexões de última hora que preciso compartilhar sobre as indicações ao Oscar deste ano.

Cuidado: spoilers pela frente!

Para começar, achei o personagem Lee Chandler, por quem Casey Affleck foi indicado ao Oscar de melhor ator em Manchester à Beira-Mar, indicado ao Oscar de melhor filme, um sujeito imaturo e irritável. Ele ajudou a provocar sua própria tragédia quando se recusou a agir como gente grande e depois passou o resto do filme negando-se a amadurecer. Procurou inúmeras brigas em inúmeros bares, andando por aí de mau humor e soturno, obviamente precisando loucamente de terapia ou dos Alcoólicos Anônimos, mas nunca assumindo a responsabilidade por ele próprio, o que dirá pelo sobrinho adolescente e problemático que a morte de seu irmão deixou a seu cargo.

Mike Blake / Reuters

Isabelle Huppert recebeu uma indicação a melhor atriz pelo papel de Michelle, estuprada com violência por um homem mascarado em Elle. Não vi onde, no filme, ela "vira o jogo contra seu agressor", como prometeram as resenhas. Eu a vi tecer fantasias em que estava fazendo isso; a vi ser estuprada novamente pelo mesmo homem, cuja máscara consegue arrancar, com muita coragem; e então, mais tarde, a vi levar o mesmo sujeito para uma sala de máquinas e fazer sexo com ele por vontade própria. Ele a esmurra, ela o esmurra de volta, então ele a esmurra de novo e de novo, com violência cada vez maior, enquanto eles continuam a transar, até que ele tem um orgasmo, fica em pé e ela, deitada no chão, ou tem um orgasmo ou uma convulsão.

Philippe Wojazer / Reuters

O fato de ela consentir com aquele roteiro sexual violento pretendeu ser o quê, uma maneira de ela conseguir uma revanche? Devemos supor que esse sujeito – que, quando ela pergunta "por quê?", só consegue responder "por que eu tinha que fazer" – nunca mais vai voltar a estuprar a ela ou outra mulher inocente, só porque dessa vez ela consentiu? Pelo menos ela quebra o vidro do carro dele com um pé-de-cabra. Mas não o denuncia à polícia, nem reflete que pode ser uma boa ideia tirá-lo de circulação. Não sei o que me deixou mais irritada: o próprio filme de Paul Verhoeven ou as críticas, que entenderam tudo errado.

O indicado a vários Oscar La La Land foi divertido. Adorei as cores, o número que abre o filme, com todas as pessoas saindo de seus carros na via expressa para cantar e dançar, e adorei o fato de o filme não ter um final feliz padrão. Mas achei lamentável a cena em que o branquíssimo Sebastian (Ryan Gosling, indicado a melhor ator) defende a pureza do jazz para seu amigo negro Keith, traidor da causa (John Legend). E, enquanto os vocais foram ruins, as danças foram ainda piores. Não é nem um pouco simpático o fato de esses dois atores ótimos (Ryan Gosling e Emma Stone, também indicada ao Oscar) não saberem cantar ou dançar bem.

Kim Kyung Hoon / Reuters

E o que foi isso – Annette Bening não foi indicada para o troféu de melhor atriz? Em Mulheres do Século 20 ela fez uma mulher mais velha, divertida, enfurecedora, rabugenta, misteriosa, exausta, irônica, cativante e sábia. Representando a personagem sem um átimo de fingimento, Bening habitou plenamente seu próprio corpo vivido, coroado por aqueles cabelos grisalhos curtos e desarrumados. Adorei o modo como ela cuida de seu filho Jamie (representado com entusiasmo e perplexidade por Lucas Jade Zumann). Embora o título seja Mulheres do Século 20, o filme trata igualmente de um garoto do século 20 que cresce na órbita de algumas mulheres fascinantes do século 20.

Mas quero voltar a falar um pouco de Manchester à Beira-Mar. Casey Affleck teve uma performance tremenda, sim. Mas acho que foi superado por outro dos indicados na categoria de melhor ator, Denzel Washington, fazendo Troy Maxen no indicado ao Oscar Um Limite Entre Nós, com roteiro de August Wilson, baseado na peça Fences, que lhe deu um Prêmio Pulitzer. Affleck e Washington têm em comum o fato de terem feito grandes atuações, mas seus personagens também têm algo lamentável em comum. Cada um deles à sua própria maneira, eles extravasam seu sofrimento, raiva e decepção em cima de outras pessoas – Lee sobre praticamente todo o mundo com quem entrou em contato e Troy, de modo implacável, sobre seu filho e sua mulher, representada com grande brilho por Viola Davis, em papel que lhe deu uma indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante.

Getty Images for BET

Foram a imaturidade, o egocentrismo e o descuido de Lee – deixando três crianças pequenas e sua mulher exausta sozinhos no meio da noite com a lareira acesa, sem ninguém cuidar do fogo – que provocaram a tragédia que o faria sofrer pelo resto da vida. Enquanto isso, Troy sofreu o efeito do racismo terrível da América nos anos 1940, mas descarrega a raiva sobre sua mulher, tem um filho com outra mulher (enquanto é casado), leva o bebê para casa para ser criado por sua esposa e, em uma cena, quase mata seu filho.

A ideia é que fiquemos indignados e chocados com as ações desses homens mas, no final, os vejamos como "figuras trágicas". Enquanto isso, espera-se que suas esposas sofredoras transcendam suas circunstâncias pavorosas e as convertam em alguma coisa positiva para elas e também para seus homens, coisa que elas acabam tentando fazer.

Compare-se o retrato feito desses homens com a história verídica e inspiradora de mulheres matemáticas mostrada no indicado ao Oscar Estrelas Além do Tempo, mulheres que conseguiram superar obstáculos tremendos para fazer seu trabalho – na Nasa, em um ambiente de segregação racial extrema, numa época de segregação racial extrema na história americana – para ajudar a lançar o astronauta John Glenn no espaço. Baseado num roteiro de Allison Schroeder (que valeu um Oscar a ela) e adaptado do livro Fences, de Margaret Shetterly, o filme mostra a barragem de insultos que essas mulheres enfrentavam diariamente. Havia a sala de computação para negros, os banheiros para negros, as escolas para negros, a biblioteca para negros, até a cafeteira para negros, assim rotulada por colegas de Katherine Johnson (representada com discrição espantosa por Taraji P. Henson, por algum motivo passada por cima nas indicações a Oscar) que não queriam usar a mesma cafeteira que ela.

Mario Anzuoni / Reuters

Essas mulheres também tiveram vida difícil, mas você não as vê descarregando sua dor sobre todo o mundo que as cerca, esmurrando paredes ou o rosto de outras pessoas. Você tem uma visão de vidas brutalmente limitadas, mas também enxerga a perseverança, paciência, coragem, humor e grande fé necessárias para elas superarem tudo.

Gostei de A Chegada, outro indicado na categoria melhor filme, porque sou fascinada pelo que pode existir "lá fora" e adoro o fato de que a mulher que está ao centro do filme – uma linguista (Amy Adams) cujos conhecimentos são necessários para comunicar-se com seres de outro mundo – é inteligente, corajosa, incansável e sem afetação. O indicado ao Oscar Jackie foi doloroso de ver (e ouvir, com Natalie Portman, indicada ao Oscar de melhor atriz, se esforçando para capturar a entonação bizarra de Jackie Kennedy). Mas o fato de o filme focar não a morte de Kennedy ou a experiência americana, mas aquilo pelo qual Jackie passou, foi fascinante. Outra coisa interessante foi que Mica Levy foi indicada na categoria de melhor trilha sonora pelo filme – a primeira mulher citada nessa categoria desde 2000.

Danny Moloshok / Reuters

Ava DuVernay — a única mulher de cor jamais indicada ao Oscar por um longa-metragem, Selma, Uma Luta pela Igualdade – foi indicada este ano por seu documentário sobre o sistema carcerário, A 13ªa Emenda, trabalho chocante e revelador sobre a história do crime, castigo e raça na América. E, já que estamos falando nisso, não posso deixar de mencionar como foi ótima a primeira temporada da série Queen Sugar, de DuVernay, exibida pela Oprah Winfrey Network. Saga familiar sobre uma fazenda de açúcar pertencente a proprietários negros na Louisiana de hoje, a série passou de levemente melodramática para história política incisiva, tudo isso em uma só temporada, com grandes atuações de todos os envolvidos.

Este ano, felizmente, não estamos tendo um #OscarsSoWhite. Mais pessoas negras foram indicadas a Oscars que em qualquer outro ano da história da premiação, incluindo três mulheres afro-americanas na categoria de atriz coadjuvante, pela primeira vez. Mas, segundo análise recente do Women's Media Center, a situação continua difícil para as mulheres atrás das câmaras e para histórias que giram em torno de mulheres.

Joi McMillan, co-editora de Moonlight, é a primeira mulher afro-americana jamais indicada pela edição de um filme. E, como foi mencionado acima, uma mulher recebeu uma indicação a melhor trilha sonora original por Jackie. Ao todo, porém, as mulheres se saíram muito mal nas categorias que não envolvem atuação: 80% das indicações nessas categorias foram dadas a homens.

Produtores homens foram indicados a Oscar em número mais que duas vezes maior (21) que produtoras mulheres (nove), e apenas uma roteirista mulher foi reconhecida (Schroeder, por Estrelas Além do Tempo). Pelo sétimo ano consecutivo, nem uma única diretora mulher tem seu trabalho indicado ao Oscar de melhor filme, e apenas uma mulher, Ava DuVernay, é candidata ao Oscar na categoria documentário. O recorde de nenhuma indicação a uma mulher na categoria melhor fotografia continuou sem ser rompido, apesar de dois dos indicados a melhor filme este ano terem diretoras de fotografia: Charlotte Bruus Christensen por Um Limite entre Nós e Mandy Walker por Estrelas Além do Tempo.

Então aqui estamos, em 2017, enxergando o mundo por meio do cinema, essa mídia tão influente, quase exclusivamente pela ótica masculina. Está claro que, para que o cinema alcance seu maior potencial de refletir nosso mundo de volta a nós de modo mais profundo, pleno e justo, ainda temos um longo caminho a percorrer.

Este artigo saiu originalmente no CWCW Blog, no site do grande podcast de Sandi Klein Conversations with Creative Women. Para ouvir a entrevista que dei a Sandi, clique aqui. Foi publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte do nosso time de blogueiros, entre em contato por meio de editor@huffpostbrasil.com.

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