OPINIÃO

Por que os brasileiros devem aproveitar a glória do sucesso que foi a Copa do mundo (pelo menos fora do campo).

19/07/2014 10:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
FABRICE COFFRINI via Getty Images
A fan of Brazil smiles before the semi-final football match between Brazil and Germany at The Mineirao Stadium in Belo Horizonte during the 2014 FIFA World Cup on July 8, 2014. AFP PHOTO / FABRICE COFFRINI (Photo credit should read FABRICE COFFRINI/AFP/Getty Images)

No começo deste ano eu me mudei para o Peru a trabalho e fiquei com uma imensa e profunda saudade de São Paulo quase que instantaneamente. Não é que eu não tenha gostado de Trujillo, uma pequena cidade na costa norte do Peru; é que depois de dois anos vivendo em Sampa, essa cidade monstruosamente linda já tinha se tornado meu lar, como Londres tinha sido em outro momento da minha vida. Esse sentimento fica bem exemplificado nos momentos em que eu dizia às pessoas no Peru que estava animado para "voltar para casa, para o Brasil" para a Copa do Mundo.

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MUITO animado, devo acrescentar. O mês de junho se aproximava e nesse período eu rejuvenesci uns trinta anos. Como uma criança esperando pelo dia de Natal, comecei a contar os dias; mas não para ver o papai Noel e sim pela oportunidade de realizar um sonho: estar em uma Copa do mundo. Copa que aconteceria no país conhecido como a 'casa espiritual' do futebol - e que eu agora chamo de minha segunda casa. Além disso, eu tinha ingressos para mim e para meu melhor amigo que conheço há cerca de vinte anos e que estava vindo de Londres para o torneio. Esse seria mesmo o melhor mês da minha vida.

Mas nem todo mundo estava tão entusiasmado como eu. Uma pesquisa do Datafolha feita em abril mostrou que apenas 48% dos brasileiros apoiavam a realização da copa no país contra 79% em novembro de 2008. Mas tendo em conta os protestos de junho do ano passado (e outros menores este ano) e outras questões sobre a sociedade brasileira e a política do país, eu não me surpreendo.

Também não é incomum que as pessoas fiquem um pouco desanimadas com a perspectiva de sediar grandes e caros eventos esportivos. Eu fui um dos muitos que ficaram completamente apáticos sobre as olimpíadas de Londres em 2012... até assistir à maravilhosa cerimônia de abertura de Danny Boyle em um boteco em São João Del Rey e chorar copiosamente dentro do meu copo de Original. De repente eu lembrei por que amo tanto Londres. Uma semana depois, quando três atletas britânicos ganharam medalhas de ouro no mesmo dia no Estádio Olímpico, eu fiquei a um clique de comprar uma passagem para casa para poder estar lá na última semana do torneio.

Mas o apocalipse organizacional previsto pelos meios de comunicação (brasileiros e estrangeiros) provavelmente não ajudou a levantar os ânimos. Estádios atrasados, mortes durante as construções, o cancelamento de projetos que ficariam como legado da copa, bem como preocupações em relação à segurança, corrupção, violência, os despejos em favelas e o comportamento da polícia - todas essas questões eram preocupações legitimas e questões absolutamente dignas de reportagem. Contudo, uma cobertura constantemente negativa - às vezes beirando a histeria - parecia mostrar uma predisposição generalizada em prever um desastre.

Mas quando o torneio finalmente começou, o que aconteceu de verdade? Bem, pessoalmente, meu sonho se tornou realidade. Fui assistir ao meu primeiro jogo (Espanha e Holanda, nada mau, hein?), e admito que fiquei bastante emocionado com a coisa toda. Ainda bem que aquele jogo fantástico foi uma inspiração para quatro semanas fantásticas de futebol... quer dizer, menos para a minha querida Inglaterra.

Mas é claro que houve alguns problemas menores dentro dos estádios. No primeiro jogo em Salvador, a entrada na Arena Fonte Nova para o jogo Espanha e Holanda foi muito caótica. Um conhecido meu relatou uma experiência semelhante em Brasília dois dias depois, quando ele perdeu os primeiros quinze minutos de Suíça e Equador por causa de filas épicas.

No entanto, em geral, essas questões foram resolvidas rapidamente. Quatro dias depois, em Salvador, barreiras extras e uma melhor organização dos stewards fizeram com que a entrada para o jogo entre Alemanha e Portugal fosse muito mais tranquila. Da mesma forma, tudo parecia bem em Brasília quando estive lá dez dias depois para ver Portugal e Gana.

Longe dos estádios as coisas correram bem e a Copa do mundo parece ter sido um enorme sucesso. Em termos de transporte, cheguei ao aeroporto de Guarulhos na segunda-feira, 9 de junho, apenas três dias antes do início do torneio e depois voei ou peguei ônibus entre SP, Salvador, Belo Horizonte e Brasília. Não sofri nenhum atraso e o super antecipado Armageddon aeroportuário não aconteceu. Cerca de 20 minutos depois de pousar em Guarulhos, eu já tinha passado pelo controle de passaporte, recolhido minha bagagem e estava em um táxi para casa - algo que, sinceramente, achei que seria impossível por causa de algumas experiências infernais que tive lá no passado.

Em termos de segurança, eu não tive nenhum problema, embora essa sempre tenha sido a minha experiência no Brasil e no resto da América do Sul desde a minha primeira vez aqui em 2007. No entanto, ouvimos várias pessoas reclamando de assaltos em Salvador, incluindo um inglês que foi assaltado à mão armada por cinco jovens. Bem, ele estava bêbado e vagando por ruas desertas às duas da manhã. Quem conhece Salvador sabe que você provavelmente não deve fazer isso.

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No geral, todos os torcedores estrangeiros que conhecemos- alemães, holandeses, espanhóis, ingleses, colombianos, argelinos e até mesmo um indiano - eram só elogios sobre a experiência toda e principalmente sobre a recepção dos brasileiros. Uma nova pesquisa Datafolha parece confirmar isso, com 95% dos estrangeiros classificando a viagem como excelente ou boa e dizendo que gostariam de voltar ao país. Além disso, 83% disseram que a organização do torneio foi boa ou excelente, enquanto 69% disseram que gostariam de morar no Brasil - Lucas Podolski faz parte dessa lista, eu imagino.

Mas é claro que visitar o Brasil e ver ótimos jogos de futebol enquanto passa os outros dias na praia de Ipanema ou na floresta Amazônica é uma experiência completamente diferente daquela dos que vivem aqui, com os inegáveis problemas e frustrações de quem vive no Brasil do dia a dia - coisas que a maioria dos estrangeiros não vivenciará em apenas um mês.

Os brasileiros são esforçados, pagam altos impostos e frequentemente não recebem bons serviços públicos que justificam a taxação. A corrupção continua a ser um problema e burocracia pode ser extremamente confusa e frustrante. Os 18 meses de demora para processar e receber meu visto foram uma das experiências menos memoráveis da minha estadia no Brasil.

Além disso, a polícia militar brasileira, em grande parte inalterada desde a época da ditadura e responsável por catástrofes como o massacre do Carandiru, precisa urgentemente de reforma (na verdade, qualquer serviço civil com a palavra MILITAR no nome precisa de uma reforma!).

Depois de tudo isso você pode entender por que os brasileiros olham para seus serviços públicos e se perguntam se as reformas e melhorias necessárias não poderiam ser feitas mais rapidamente uma vez que 12 estádios novinhos em folha foram construídos para FIFA... bom, não quero nem falar da FIFA.

Mas será que países em 'desenvolvimento' como o Brasil deveriam então ser proibidos de sediar grandes eventos esportivos? Será que eles deveriam priorizar seus serviços públicos e problemas sociais, em vez de construir estádios de futebol? Será que apenas países 'desenvolvidos' e ricos como meu próprio Reino Unido estariam autorizados a sediar uma Copa do mundo?

Minha resposta não deve ser surpresa para ninguém: não.

Em relação ao Brasil, a questão que precisa ser discutida é o complexo de vira-lata. Em seu livro The Brazilians, Joseph Page observa que 'os brasileiros estão acostumados a ignorar suas próprias virtudes e se concentrar apenas em suas falhas'. Na verdade, é comum ouvir brasileiros comparando desfavoravelmente os problemas (reais ou não) do Brasil com os de países 'desenvolvidos' da América do Norte ou da Europa - suas análises muitas vezes retratando esses países como paraísos utópicos de esperança e prosperidade.

Quem dera.

Ninguém questionou a capacidade de Londres para sediar as Olimpíadas, mesmo após uma semana de protestos e tumultos em 2011. Os jogos custaram £9 bilhões (R$ 34 bilhões) ao Reino Unido e aconteceram em um momento de austeridade econômica, em que milhões foram cortados de serviços públicos - algo que me afetou pessoalmente em 2012, quando meu cargo e minha equipe de trabalho social foram fechados. É uma das razões de eu ter me mudado para o Brasil.

Alguns dias antes da Copa, minha esposa foi convidada a participar de uma edição especial sobre o Brasil no Today Programme da BBC, considerado um dos programas de notícias mais importantes do rádio na Grã-Bretanha. Nele, o apresentador Evan Davis - o antigo editor econômico da BBC - se perguntou por que os brasileiros estavam tão infelizes, tendo em vista que do ponto de vista econômico o Brasil está indo muito bem, na direção certa. Do mesmo modo, 'o Brasil', como Kenneth Rapoza escreve neste artigo, 'está melhor do que pensam os brasileiros. Não está melhor do que os EUA, a França ou a Itália. Mas está melhor do que o Brasil de 2000'.

Claro, o Brasil enfrenta muitos desafios, mas talvez devêssemos lembrar o quão longe ele chegou como a jovem democracia que é. É por isso que os brasileiros devem aproveitar a glória do sucesso que foi a Copa do mundo (pelo menos fora do campo).

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