OPINIÃO

Somos todos crianças

09/04/2016 20:14 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02
Noel Hendrickson via Getty Images
Mature woman reading milk label in supermarket, side view, close-up

Estava tomando o meu café com leite e torradas hoje pela manhã e parei para pensar que o meu leite caseiro de aveia estava bem gostoso, até lembrava o gosto de leite de vaca, que abolimos aqui em casa há mais de ano. Estava satisfeita por não contribuir para a crueldade animal e estar tomando um alimento saudável quando acabei me perguntando se ainda havia a necessidade de tomar qualquer leite.

Na linha de pensamento que se seguiu, veio o fato de que chamamos de desmame o processo de largar a mamadeira. Que é, aliás, um processo artificial, já que, a priori, ninguém precisa de mamadeira. Só precisam se alimentar de leite artificial os bebês até um ano que não podem contar com uma mulher que tenha leite. A princípio, aliás, toda mulher pode amamentar. Basta ter seios. Ao perguntar para consultoras de amamentação, elas disseram que, biologicamente falando, somente as mulheres que fizeram mastectomia total é que realmente não têm condições de amamentar.

Só para deixar bem claro, não precisa nem ter gestado - há casos de mulheres que adotaram recém-nascidos e conseguiram amamentar mesmo sem a ajuda de remédios para estimular a produção de leite, pois o peito não é depósito - é fábrica. E como fábrica, produz leite durante a sucção do bebê ou a estimulação dos seios com ordenha manual ou com a bombinha. E repito: não é preciso mamadeira. Se não há leite materno, o leite de fórmula deve ser dado num copinho ou colher, pois a mamadeira, assim como todos os bicos artificiais, pode causar uma série de problemas como atrapalhar a fala, deslocar a arcada dentária, dar cólicas no bebê.

Após um ano de idade, dizemos que o bebê está pronto para desmamar pois já se alimenta de sólidos. Mas a OMS recomenda que se mantenha a amamentação até no mínimo dois anos - o leite materno supre metade das necessidades nutricionais do bebê durante o segundo ano de vida. De quebra, reduz as chances da mãe contrair câncer de mama pela metade. Bebês que tomam fórmula podem deixar de tomá-la após um ano de vida, e substituir por outros alimentos - sucos e vitaminas naturais, sopa, água. É aí que ocorre o desmame total em bebês não amamentados, quando o processo não recebe a interferência da indústria alimentícia.

Quando o bebê, amamentado até dois, três anos, ou o bebê que não amamenta deixam de mamar, eles não precisam mais beber leite. Fim. Eles fizeram a transição. Eles desmamaram. Mas e nós, adultos, que tomamos o nosso café com leite de manhã, às vezes tomamos outro no café da tarde e ainda tomamos um belo copo de leite de noite antes de dormir. Será que realmente desmamamos? Quem determinou que precisamos dessa quantidade insana de leite de outros mamíferos? Sempre que começo a conversar sobre o assunto com alguém, vejo pessoas muito racionais chegarem a todas essas conclusões de que não faz sentido tomarmos leite com cereal, leite com café pela manhã, ou ir a um café e tomar um capuccino. E também vejo as mesmas pessoas finalizarem com frases como: "ah, mas é tão gostoso, né?" e "por que eu vou parar de tomar algo que eu gosto tanto? por que eu iria me privar desse prazer?".

É nesse ponto que eu internamente começo a questionar a nossa maturidade. Quão imaturos nós somos que não podemos deixar de consumir algo que faz mal? Sim, consumir leite de outros mamíferos faz mal, já explico o porquê. Quão imaturos nós somos que nosso único prazer na vida é comer, em vez de ler um livro, jogar um jogo, fazer uma caminhada? Quão imaturos nós somos que

não aceitamos a verdade sobre a indústria alimentícia, que nos empurra produtos duvidosos garantindo que são seguros para ser consumidos?

O que descobri durante minhas leituras sobre o consumo de leite de vaca é que o leite à venda atualmente não é seguro para o consumo, por mais que os fabricantes digam que seja. Pior, nunca foi seguro.

Antigamente, se um bebê se encontrava em uma situação onde não havia uma mulher para amamentá-lo, ele morria de fome. Simples. Com o passar do tempo, as pessoas perderam a capacidade emocional de aguentar essa perda. Provavelmente quando a maioria das mulheres passou a ter menos filhos. Pergunte a qualquer amiga atualmente que pretenda ter filhos e a maioria dirá que só terá um ou dois, porque três é demais. E as que tiveram três ou mais têm que aguentar um monte de julgamentos.

Mas num passado não muito distante, as mulheres tinham mais filhos. Muitos morriam, alguns sobreviviam. Com a mudança forçada pela sociedade de que não é bonito ter muitos filhos, foi preciso fazer com que esses poucos concebidos sobrevivessem. Uma maneira encontrada foi o leite de vaca. Se era bom para o bebê da vaca, pensaram, será que não ajuda o bebê humano? É leite, ora. E é pouco, o estômago do bebê não é tão grande assim. É só por uns poucos meses. Depois

introduzimos alimentos sólidos bem dissolvidos com dois meses, aí não precisaria dar tanto leite de vaca.

Daí surgiram os hábitos de se dar algum leite "artificial" para o bebê para que sobrevivesse, e também o de oferecer papinhas, em vez de oferecer o alimento inteiro, pois bebês com menos de seis meses não conseguem digerir alimentos sólidos, seus aparelho digestivo não está pronto para isso ainda. Vai ver que é daí também que surgiu tanto prato que é assim desmanchável na boca, como os pudins todos, mousses, cremes de sopas.

As pessoas precisam entender que a decisão de dar leite de vaca, ou de cabras, para os bebês humanos não foi feita com base em evidências científicas. Não houve uma pesquisa extensa para ver que danos poderia causar um animal beber leite de outro. Mas faz. Ao tomar leite de uma vaca que vive naturalmente (não existem vacas mais à solta por aí, mas é um exercício de imaginação, vamos lá), estamos consumindo bactérias que fazem bem aos bezerros, mas que não fazem bem aos bebês. A prova disso é a quantidade de humanos com intolerância à lactose. Ah, e se a vaca tiver um engurgitamento (empedramento) por produzir leite demais, já que a ordenha extra vai fazê-la produzir mais leite do que ela normalmente teria se estivesse apenas amamentando o seu filhote, o leite ainda vem com pus, tá?

Além disso, os animais criados atualmente para fornecer leite produzem algo que não é natural e não é saudável. Os animais comem ração de soja e milho. A produção de soja e milho para alimentar as vacas leiteiras, os animais de corte e as aves de postura usa dois terços de todas as terras cultiváveis do planeta. Essa produção é feita com agrotóxicos para crescer mais rápido e atender à demanda. Os bichos comem essa ração contaminada e ficam doentes. Tomam antibióticos e hormônios de crescimento para resolver esses problemas. O leite que produzem contêm tantas substâncias nocivas que estas acabam atrapalhando a absorção do cálcio pelo nosso corpo, que seria a única vantagem de se consumir leite de vaca. Mas ainda assim nós acreditamos inocentemente que é a única verdade nessa história toda. Novamente, a nossa imaturidade nos impede de enxergar o óbvio.

Até parece que nunca vimos pessoas vendendo produtos de origem duvidosa. Lembremos, por exemplo, que quando as primeiras instalações elétricas domésticas foram instaladas não havia nenhuma segurança. Que muitos morriam eletrocutados ou carbonizados em incêndios porque os fios que ligavam as lâmpadas de casa aos postes do lado de fora não estavam dentro das paredes das moradias, mas expostos do lado de fora. Não havia tomadas, os fios não tinham revestimento de borracha para isolar a corrente de energia.

Mas essas histórias de descasos ninguém conta porque contar a verdade dá as pessoas o direito do livre arbítrio. E quem, em sã consciência, vai continuar consumindo produtos ditos alimentícios sabendo que fazem mal, que são a causa de tortura de milhares de animais todos os dias e ainda por cima que também escravizam milhares de humanos que trabalham por tostões mundo afora, e que não têm dinheiro suficiente para consumir do próprio leite, carne e ovos que produzem? Quem vai preferir permanecer na ignorância, vivendo num mundo de fantasia, onde o leite de vaca é uma ótima fonte de cálcio e que precisamos tomar litros de leite todos os dias para ter ossos fortes? As crianças, com certeza - se nós dissermos isso a elas, como fazemos todos os dias.

Mas nós adultos podemos crescer e reconhecer que a coisa não é assim. Não há nenhum trauma nisso. Ninguém vai passar fome, ficar sem cálcio, ficar anêmico e morrer em uma semana se deixar de consumir leite de vaca. Existem substituições para suprir todas as necessidades, tanto as nutricionais quanto as emocionais. Está mais do que na hora de sermos responsáveis pela nossa saúde e pelo planeta. Até quando vamos permitir que a indústria alimentícia nos trate como crianças mimadas?

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