OPINIÃO

Quando leio que a culpa do meu abuso foi minha

23/10/2015 12:37 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Andres Calle via Getty Images
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Uma menina de 12 anos aparece como participante de um reality show de culinária para crianças. Imediatamente, a Deep Web dá as suas caras na forma de comentários no Twitter de pessoas que expressam o seu desejo de abusar sexualmente da menina. Grupos em luta pelos direitos humanos e feministas expressam o seu repúdio denunciando tais comentários como apologia à pedofilia.

Os donos dos comentários pedófilos criam página no Facebook para se darem força após serem duramente criticados. Os movimentos revidam - denunciam, expõem o absurdo da cultura do estupro que impera no país. Cultura essa que proíbe mulheres de amamentar em público porque os seios pertencem apenas aos maridos, mas mandar nudes, pode.

Movimentos como o Think Olga criam a campanha #primeiroAssédio para levantar a consciência de que a cultura do estupro está alegre e saltitante, chamando as mulheres para relatarem quando foi a primeira vez em que elas foram assediadas. As respostas são alarmantes. Tentando ainda recuperar alguma legitimidade, usuários machistas comentam que as mulheres que estão relatando os seus casos mereceram ser abusadas na infância porque usavam roupas curtas, ou que elas deviam ser agradecidas por alguém mostrar interesse por elas.

São novamente denunciados mas continuam insistindo no seu direito de abusar, "argumentando" (aqui entre aspas porque dificilmente isso poderia ser usado como argumento) de que a culpa do assédio é da mulher que não se deu ao respeito, que provocou o homem.

Quando eu leio que a culpa do meu abuso foi minha, eu me vejo na obrigação de me juntar aos movimentos que lutam contra a objetificação da mulher. Machistas dirão que a culpa foi minha porque fui eu quem foi na casa do meu agressor. Eu que bati lá na porta dele. Também vão dizer que a culpa foi minha de não ter me cuidado e de não ter percebido as intenções dele. Afinal, ele me levou para o fundo da garagem da casa dele, onde havia um quartinho que ele usava como um tipo de home-office. E que, além de aceitar acompanhá-lo, entrei no quartinho com ele.

Vão continuar insistindo que, se eu não quisesse fazer nada sexual com esse homem, eu não teria ficado no quartinho o tempo suficiente para que o abuso se desse. E que também eu provavelmente alegaria inocência quando este homem pegou na minha mão enquanto eu estava distráida, vendo algo numa TV, e a colocou sobre os seus genitais para que eu o acariciasse. Mas, que, no fundo, era exatamente aquilo que eu estava procurando quando aceitei ir para o quartinho dos fundos. Que eu o provoquei.

Eu tinha 8 anos de idade quando, um dia, fui na casa de um parente de meu padrasto, que morava numa rua próxima, chamar a filha dele para brincar, e estava esperando por ela terminar a refeição quando o abuso se deu. Quando eu leio que a culpa do meu abuso foi minha, questiono veementemente se foi a roupa que eu usava (provavelmente muito sensual com shorts), afinal eu não deveria estar expondo meu corpo daquela forma (mesmo sabendo que eu devia pesar uns 30kg, era magra, baixa para a idade, tanto que estava indo brincar com uma menina de seis anos, e não tinha seios).

Chega. Argumentos afirmando que a culpa do estupro é da vítima é totalmente século passado. Neste, estamos desvendando os seus truques para cultivar o abuso, como sexualizar as meninas, dar-lhes responsabilidades domésticas enquanto se ensina aos meninos serem "pegadores" (desde bebês ainda por cima, quando dizemos "segurem suas filhas, heim"), criticando mulheres que se relacionam com homens mais novos (e insistindo em dizer que as meninas crescem mais rápido só para justificar pedofilia). Muitos ainda têm passado. Mas muitos machistas também não passarão mais. Estamos acordando, e estamos expondo, porque a impunidade se alimenta do silêncio.

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