OPINIÃO

O que classifica algo como 'feminino', afinal?

11/04/2016 16:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
fairywong via Getty Images
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Tenho falado muito ultimamente com algumas feministas que se definem como radicais a respeito de esteriótipos de gênero. De como as mulheres são socializadas para gostarem apenas de determinadas coisas, cores, hábitos, comportamentos, definindo bem o que Simone de Beauvoir disse e que foi questão do ENEM em 2015: não se nasce mulher, torna-se.

A socialização feminina inclui um determinado modo de se vestir, agir e até mesmo pensar que, no fim, inferioriza a mulher em relação ao homem. Somos as sensíveis, as irritadas, as histéricas, as fracas. Eu poderia começar a desconstruir cada um desses adjetivos a partir de razões biológicas para o comportamento feminino.

Sensíveis? Talvez, já que as que têm filhos têm de estar atentas aos apelos dos bebês, por exemplo, levando-se em conta que, após a concepção, a mulher pode perfeitamente dar conta de tudo relacionado à gestação e ao parto sozinha. Inclusive, o próprio bebê tem mecanismos capazes de transformar a mãe em um sonar ambulante para o atender, como o choro estridente para chamar a atenção. Instinto materno existe não para ditar que toda mulher deva ter filhos mas que as que escolhem ter podem muito bem estar escolhendo por instinto materno, e podem se realizar como mães também por ele. Sensibilidade ajuda a mãe a perceber sinais de perigo para proteger a cria, e portanto pode ser que talvez faça a mulher ser "mais sensível" que o homem.

Irritadas? Bem, há hormônios que desregulam (ou que regulam, na verdade) todo o mês no processo da reprodução humana. Mas também há a socialização e a mania constante de calar e diminuir a mulher na sociedade patriarcal. Sem direito a voz, quem não ficaria irritada quando suas demandas e necessidades são ignoradas?

Histéricas? Talvez seja porque a voz feminina geralmente é mais fina e suave. Não sei nem se é mesmo. Talvez seja suave porque é um mecanismo para combinar com o bebê, que nasce com voz fina e suave também. O histerismo fica até bem melhor associado a homens somente quando estes elevam sua voz e a afinam.

Fracas? Só se for em relação a determinadas tarefas em determinadas circunstâncias, e mesmo assim pode ser uma falsa concepção. Numa gestação, por exemplo, nos tempos das cavernas, devia ser mais complicado correr atrás da caça e, depois da cria nascer, se esconder em silêncio com um bebê gritando sem espantar a presa. Ou seja, não seria sinal de fraqueza uma grávida ou puérpera deixar de caçar, seria mais questão de praticidade. Mulheres sem filhos pequenos e homens teriam melhores condições de caçar.

Essas todas são características associadas às mulheres de forma, digamos, mais "biológica". Além dessas, tem as características externas que vemos como femininas, como o uso de saias, vestidos, maquiagem. Há todo um conjunto de acessórios que somente as mulheres "podem" usar. Em compensação, a mulher pode usar basicamente tudo o que os homens acham que só os homens podem usar. A cor azul, calças, ternos, e não precisa nem ter sido feito só para mulheres. Eu mesma costumava herdar as calças jeans que haviam sido usadas pelo meu irmão mais velho e que já não lhe serviam. Nos anos 90, ainda dava perfeitamente para comprar calças que poderiam ser usadas por qualquer pessoa. Aliás, se bem me lembro, o uniforme escolar (a calça/short de tergal azul marinho e a camisa branca de abotoamento frontal) eram exatamente o mesmo modelo unissex.

Isso me fez pensar nas ilustrações que restaram de civilizações antigas (romanas, egípcias, por exemplo) e nas comunidades que, de alguma forma, preservam tradições de indumentária que remotam a centenas de anos, como as tribos indígenas nas Américas, alguns países de maioria religiosa muçulmana, alguns países asiáticos (Índia, China). Em comum, os trajes. Não só em comum entre estes exemplos citados, mas surpreendentemente, entre homens e mulheres. As togas romanas, amarradas num ombro só, as saias egípcias, os vestidos e calças usados por ambos os sexos na Ásia, os tapa-sexo das tribos indígenas e africanas (sem dar maior atenção aos seios como faziam os egípcios).

O que me chamou a atenção nisso tudo é justamente o fato de que, quanto mais tradicional é a indumentária, mais "feminina" ela é. Ou será que, na verdade, ela não é feminina? Será que essa indumentária de togas e vestidos e saias é, na verdade, como todo mundo se vestia nos primórdios das civilizações, e que só nos tempos mais modernos é que os homens fizeram questão de se "diferenciarem" das mulheres com roupas como as calças? Pensei em dois pontos a respeito disso: ou as mulheres são muito dóceis e aceitam tudo, isto é, aceitam ser obrigadas a se vestir de saia e vestido, ou os homens é que se "obrigam" a não usar vestidos e saias para não se identificados como mulheres.

Por que os homens fariam tanta questão de não ser identificados como mulheres? Provavelmente para poder exercer um poder sobre elas - isto é o patriarcado. Quando você está junto de um monte de pessoas que tem cabelo comprido (sim, nos tempos antigos homem deixava o cabelo crescer igual a mulher, e isso ainda é hábito onde? Onde? Tribos indígenas, entre sikhs), usa pintura corporal (de novo, índios, tribos africanas, os egípcios faziam até o lápis nos olhos), usa um vestido, bata, toga, poncho, e não são extremamente diferentes fisicamente no quesito tamanho (com mulheres obrigatoriamente magras e homens obrigatoriamente fortões), devia ser mesmo difícil distinguir entre os gêneros. Ah, tem a barba, claro, mas nem todos os homens são barbudos, algumas etnias inclusive não crescem mesmo pelos no rosto do homem (geralmente asiáticos, etnias mongolóides, segundo uma rápida pesquisa no Google me revela).

Ainda hoje, inclusive, existe uma vestimenta que causa espanto, o kilt escocês, que é uma saia usada pelos homens. É uma vestimenta de guerra. Símbolo dos exércitos, militarismo, a grosso modo. É saia. E é usada por homens nos dias atuais. Por homens brancos e heteros, diga-se de passagem. O que me deixa ainda mais na vontade de desafiar o estereótipo de gênero que determina que meninos não podem usar saias. Aliás, como vivo na Escócia, meus dois meninos já usaram kilts.

O que me leva à conclusão, não fechada ainda, mas estimada, de que as mulheres, sinceramente, estão sendo bem mais naturais do que os homens quando deixam seu cabelo crescer, quando usam saia, maquiagem, vestidos. Gosto de pensar que estamos preservando a indumentária de tempos mais antigos, os hábitos de épocas em que havia muito menos diferença entre os sexos e muito, muito mais igualdade entre homens e mulheres em todos os sentidos.

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