OPINIÃO

Machismo e a questão moral do Enem 2015

26/10/2015 11:56 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
ASSOCIATED PRESS
Writer Simone de Beauvoir, center, speaks during a news conference in Paris, Nov. 27, 1961 with lawyer Gisele Halimi, left, and Prof. Hauriou, where they discussed Djamila Boupacha, the Algerian girl who was arrested several years ago for allegedly having placed two bombs in a milk bar and in the center of Algiers, causing the death of one and injuries to about forty others. (AP Photo)

Em 2014, o tema da redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) foi sobre a publicidade voltada para as crianças, assunto muito debatido nas redes sociais. Este ano, o assunto que não sai da cabeça de muita gente é o feminismo.

A luta por igualidade em termos salariais, por condições justas para o autosustento sendo mãe e o fim da violência contra a mulher têm sido temas de debates acirrados desde que algumas celebridades, como a cantora Rihana (que usou as redes para mostrar o rosto ferido após ser vítima de violência doméstica) e a atriz Jennifer Lawrence (que confirmou ter recebido um cachê menor do que seus colegas homens em um dos filmes que fez, mesmo sendo uma das protagonistas) mostraram que o machismo afeta a todas, independente de sua esfera social.

A prova desse ano contou com questões sobre Paulo Freire, Ziraldo e Nietzsche, mas acabou polemizando, para o deleite dos coletivos feministas, sobre Simone de Beauvoir, autora e pensadora reverenciada por vários movimentos. Não satisfeitos, os organizadores do Enem propuseram o tema "A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira", o que participantes da prova afirmaram que deu um nó na cabeça de muitos.

Uma questão sobre Simone de Bevoir dificilmente teria sido colocada às pressas na prova só porque, na última semana, a menina Valentina, do MasterChef, foi assediada, gerando a campanha ‪#‎primeiroAssédio‬, onde mulheres relataram o abuso sexual ocorrido ainda na primeira infância. Sem falar em retrocessos como o que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, está articulando, como instrumentos legais para dificultar a ajuda às vítimas de estupro.

Se não há conforto em saber que a questão e o tema não foram resultados direitos desses últimos fatos, há conforto em saber que o assunto entrou na prova antes mesmo desses fatos absurdos terem ocorrido, mostrando que são temas mais do que atuais e que merecem ser tratados com a gravidade devida. Ao colocar estes assuntos na prova, o Enem fez cerca de 7 milhões de jovens falar sobre ele, e muitos outros entraram em contato com o tema agora e estão debatendo também. Trazer o assunto à baila já é um passo muito importante.

Com esse tema polêmico, veio também a dúvida sobre a validade da correção da redação por alguns setores, que questionam se é democrático "reprovar" uma redação se ela contiver argumentos em favor do machismo. Argumentam que é autoritarismo dos organizadores darem nota baixa à uma redação bem escrita e argumentativa, mesmo que defenda a violência contra a mulher.

Não seria o caso de darem nota baixa para redações que defendam o machismo e a violência institucionalizada contra a mulher porque o autor fugiu do tema? Afinal, se o tema era "A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira" e o autor do texto escreve que isso não existe, ou que isso se justifica porque há razões biológicas para isso, ou até mesmo dizendo que é culpa das mulheres, estão negando o assunto? E se fosse outro assunto? E se fosse: "Fale sobre a descida do homem na lua", e escrevessem "o homem nunca foi na lua, isso é uma invenção para justificar os milhões de dólares gastos com o programa espacial", essa redação merecia boa nota porque mostrou boa argumentação, ainda que tenha faltado embasamento?

E como lidar com a questão de Simone de Beauvoir? Se a pessoa foi obrigada a escrever na resposta sobre feminismo e acertou, teria como escrever defendendo o machismo na redação e tirar boa nota? Então não seria considerado contraditório a mesma pessoa afirmar que existe o feminismo e escrever corretamente a sua função, para logo em seguida negar tudo?

Resta o consolo de que o assunto está, finalmente, sendo mais debatido do que nunca entre os jovens, e quando eles estiverem no comando absoluto de suas vidas teremos finalmente uma sociedade bem menos machista do que a atual. A manutenção do machismo está com seus dias contados.

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