OPINIÃO

Esta família fundou uma vila para viver de forma autossustentável

10/06/2015 17:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:25 -02

2015-06-10-1433929805-5554448-comunidadeartesaos.jpg

Uma família brasileira está no caminho certo para se transformar em lenda. O seu estilo de vida já é motivo de admiração entre as cidades mais próximas. Eles moram no interior de Minas, na casa que eles próprios construíram, chamada de Vila Barroló, e fazem o seu próprio meio de vida através do artesanato e de oficinas de arte nas cidades vizinhas. O segredo? A união faz a força!

O casal fundador da vila teve 15 filhos - e todos moram com eles! Além disso, estão todos engajados também na fabricação de potes e nas oficinas que a vila promove nas vizinhanças.

Tudo começou quando o jovem casal, Antonio Cleofas e Anita Bezerra, com seus quatro filhos pequenos, foi atrás do sonho de viver de artesanato e levar uma vida mais sustentável, longe das amarras do combo emprego+dinheiro+sucesso. Quinze filhos depois, eles se mudaram para a

localidade no Triângulo Mineiro onde construíram a própria casa, usando em sua maior parte materiais encontrados na região. Mudaram-se em 2009, plantaram árvores frutíferas, fizeram hortas. Uma vez por semana vão às compras em Uberaba, mas não há produtos enlatados no cardápio.

Na vila também está a oficina onde todos da família trabalham no artesanato com argila e cerâmica, orientados por Antônio, que "tem um histórico de sustento pelo artesanato em cerâmica já há 30 anos", revela Anita.

"O artesanato como sustento nem sempre é fácil, mesmo tendo um trabalho já bem conhecido, mas nossa intenção agora é ampliar o trabalho artesanal com outros materiais além da argila, e aqui na área rural isso já está sendo feito com mais facilidade, pode-se usar o que temos, como madeira e bambu. Fazemos também oficinas de dança, modelagem e línguas nas cidades vizinhas, e já temos vários outros projetos em andamento", diz Anita Bezerra.

De curioso também sobre Anita é a sua crença inabalável no poder da mulher para conduzir o nascimento dos próprios filhos. Seu primeiro bebê nasceu em um parto natural hospitalar. Mas os 14 filhos seguintes vieram em casa, sem assistência médica. Apenas a mãe, o pai e os irmãos mais velhos estavam presentes. Anita nunca fez pré-natal, e teve seus filhos nas mais variadas posições e lugares: na cama, de pé, na água. Aos 54 anos, ela é avó de sete crianças, todas nascidas em casa, somente com a presença dos pais dos bebês e da própria Anita. Seis dos seus netos já nasceram na Vila Barroló. Em tempos de 88% de cesáreas na rede particular de saúde e 52% na rede pública, é um alento saber que ainda há mulheres que acreditam nos seus corpos e não foram aterrorizadas pelo sistema.

A nova geração da vila já começa a viver de maneira natural. Andam no sling, a amamentação é em livre demanda, a introdução de sólidos é no tempo deles, usam fraldas de pano tradicionais mesmo, daquelas de dobrar e presas com alfinete, e as crianças estão recebendo ensino caseiro.

"O ensino também acontece de forma natural, o próprio ambiente onde vivem propicia a eles um questionamento constante e sede de aprender tudo o que presenciam dentro do seu próprio universo infantil. Assim aprendem a ler, escrever, contar, sem necessariamente ficar numa sala de aula. São estimuladas a produzir seus próprios brinquedos, não compramos nada."

E a divisão de tarefas? Há um rodízio para cozinhar, arrumar casa, cuidar de crianças. Todos ajudam. Homens e mulheres. Os filhos casados têm a sua própria casinha, e os filhos solteiros moram com os pais - rapazes num quarto, moças em outro. Reúnem-se todos na casa dos pais para planejarem as próximas ações.

Os computadores da Vila não acessam a internet. Servem mais para digitar textos, estudar, ver vídeos. A comunidade de artesãos acessa a internet para alimentar seus cinco sites, como este, quando vai à cidade fazer compras.

No futuro, a comunidade pretende se tornar mais autossustentável e deixar de depender de praticamente tudo que é industrializado para diminuir a sua pegada ecológica. Já fabricam as próprias roupas, e já há a intenção de vender roupas também, fazem sabão caseiro... Na Vila Barroló, o contato com a natureza não é apenas uma convivência pacífica. É uma interação para o benefício de todos. A Vila Barroló se junta a outras tantas iniciativas atuais que procuram fugir do modelo capitalista visando o lucro. Nos EUA, houve a história recente de quatro amigos que juntaram as famílias e fundaram uma comunidade em moldes semelhantes.

VEJA TAMBÉM:

Eles decidiram mudar de São Paulo. Veja o que aconteceu