OPINIÃO

Conta com a cota

13/03/2015 17:18 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02
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Comparar o sistema de cotas no Brasil com o apartheid na África do Sul e a segregação racial que vigorava nos EUA até os anos 60 é uma espécie de ranço de elitista. É um pensamento inconsciente de que não se pode dar uma chance aos negros, que ainda são considerados uma subclasse.

O apartheid não apenas tirava todos os direitos humanos dos negros mas também permitia que se cometessem atrocidades contra eles. A segregação dos negros americanos proibia que eles se casassem com brancos, que votassem, que estudassem. Dificilmente o sistema de cotas será a mesma coisa - a lei das cotas vai colocar mais estudantes negros na faculdade.

O Brasil possui um racismo velado que cisma em permanecer vivo, mesmo com todo o desenvolvimento econômico, social e político que o país vêm tendo nas últimas décadas. Quem morava no Rio e ia para Valença, no interior, pelo menos duas vezes por mês para estar com a família, se deparava com situações extremas de racismo. Na volta, o ônibus era frequentemente parado em blitz no meio da estrada, antes mesmo de chegar em Barra do Piraí. Nessas inspeções, os policiais - mesmo que fossem negros - sempre mandavam todos os passageiros negros saírem para ser revistados. Os brancos nunca passavam por isso.

Mas ainda há quem diga que não há racismo. Não só há preconceito quanto a quem não é branco, mas também contra as mulheres, que ainda não têm as mesmas chances que os homens, contra os estrangeiros (de países mais necessitados, é claro) e até mesmo contra quem não é do mesmo estado ou da mesma cidade.

Isso só piora a discrepância que existe no sistema educacional brasileiro. A educação é universal e toda criança tem direito a uma vaga em uma escola pública. No entanto, o ensino peca por qualidade. Até o segundo grau, poucas famílias abastadas usam o ensino público. Mas nas escolas particulares, os alunos são devidamente preparados para o vestibular dificílimo das universidades públicas, que são gratuitas. O resultado: crianças pobres recebem educação fraca e quando terminam o ensino básico ainda têm que pagar para estudar em faculdades privadas que, muitas vezes, também estão bem aquém das expectativas em termos de qualidade. Os filhos dos mais abastados, por sua vez, vão para a universidade pública gratuita.

Até há alguns anos, o caminho para os mais humildes era fazer curso pré-vestibular comunitário e se inscrever para fazer as provas de várias universidades federais. Nem sempre o cursinho pré-vestibular era suficiente para aprender o que se pede nas provas. Outra solução era buscar o ensino privado, que fazia vestibulares com provas mais fáceis. Alguns não tinham sequer as matérias História e Geografia, apenas algo muito parecido com Estudos Sociais. Um vestibular de uma conhecida faculdade particular do Rio tinha a pergunta: "Qual é nome do filme, estrelado por Fernanda Montenegro e passado em uma estação de trem do Rio de Janeiro?"

Ser a favor das cotas não quer dizer ser a favor do "nivelamento por baixo", mas talvez de algum tipo de nivelamento que corrija essa anomalia. O próprio vestibular já devia estar caminhando para o seu fim, assim como o voto obrigatório, pois só aumenta a desigualdade. O aluno devia conseguir vaga na faculdade através de todo o seu esforço feito durante o segundo grau, como se as suas boas notas na escola fossem parte de um currículo, e não fazendo uma nova prova, o vestibular, que sequer é unificada pelo País afora e é injusta.