OPINIÃO

Um Desabafo

Minha conversa com Han, um paquistanês em busca de uma nova vida na Europa.

25/03/2017 14:53 -03 | Atualizado 31/03/2017 19:48 -03
Giorgos Moutafis / Reuters
Refugiados utilizam barcos e botes para travessia a países distantes de local onde são perseguidos.

Han foi uma das primeiras pessoas com quem conversei quando cheguei aqui no sul da Grécia.

Servimos café da manhã e janta todos os dias no local onde ele está vivendo e sempre que nos encontramos ele é bastante gentil.

Como ele fala bem inglês, conseguimos nos comunicar para além do "bom-dia", "boa-noite" e "obrigado", que muitas vezes são as únicas palavras que consigo trocar com esses cerca de 150 homens que tenho encontrado todos os dias. E tanto ele quanto eu aproveitamos essa oportunidade para fazer muitas perguntas um para o outro.

Eu costumo fazer perguntas sobre o Paquistão, seu país de origem, e ele sobre a organização em que estou trabalhando. Tento saber dos costumes do Paquistão e o que eles geralmente comem por lá, e ele tenta entender como é que conseguimos cozinhar para esse batalhão de gente.

E no final sempre comentamos sobre a comida que estamos servindo; ele gosta de cozinhar. Foi assim, de pouquinho em pouquinho, de pergunta em pergunta, que fomos nos aproximando nesses 20 dias em que estou aqui.

Nessa última semana, a polícia grega tem estado em peso na zona portuária onde refugiados tentam pegar os navios que vão para Itália e tem sido muito agressiva com esses homens.

Eles nos têm relatado que a polícia tem quebrado os chips de seus celulares (e às vezes o celular por inteiro), arrancado seus sapatos e os levado para salas de tortura nas delegacias, onde são espancados. Por conta disso, sempre estou atenta aos homens que estão mancando. Temos um kit de primeiros-socorros que nos permite ajudar a tratar pequenos ferimentos.

Ontem reparei que Han estava andando com um pouco de dificuldade e quando perguntei se estava tudo bem, ele me respondeu que sim, mas os homens à sua volta fizeram sinal com as mãos, indicando que ele havia sido preso.

Insisti na pergunta e então ele me contou que havia sido espancado pela polícia pelo segundo dia consecutivo, mas que isso não importava, no dia seguinte ele estaria lá novamente.

Nada vai fazê-lo desistir.

Com algum esforço, consegui convencê-lo a aceitar alguns comprimidos de analgésico que tinha no carro, então ele me acompanhou até lá. Aproveitei que estávamos afastados do restante das pessoas para fazer algumas perguntas mais pessoais, que talvez ele não se sentisse confortável em responder na frente dos outros homens.

Tenho muita curiosidade sobre como eles chegam na Grécia; então essa foi a primeira pergunta que fiz.

Han me contou que pagou sete mil euros (cerca de 24 mil reais) para fazer a travessia Paquistão-Grécia, que foi iniciada há 14 meses.

Na fronteira entre Irã e Turquia, levou dois tiros do exército turco, que faz o patrulhamento com metralhadoras.

Ele levantou a barra da calça para me mostrar as cicatrizes na perna direita.

Na Turquia pegou um barco que o levou, junto com mais algumas dezenas de pessoas, até a zona de águas internacionais entre Turquia e Grécia, onde foram colocados em um bote inflável e remaram por dez horas.

O mar estava agitado, com ondas altas, e uma pessoa morreu afogada.

A essa altura da conversa eu já não tinha coragem de perguntar mais nada, mas ele precisava desabafar e a conversa seguiu.

Eu sou uma pessoa forte, não vou desistir. Disse ao policial que eu não quero pegar o navio, por mim eu ficaria aqui, mas não posso sem os papéis. Aqui eu não posso trabalhar, eu já tentei, mas não consigo sem os papéis. Então amanhã eu vou tentar de novo.

E foi a partir daí que começou a me contar sobre sua "vida passada", como ele mesmo a chama.

Trabalhava no aeroporto de Dubai para grandes companhias como Emirates, Luftansa e Air Canada. Me mostrou algumas fotos em seu celular junto com seus colegas de trabalho na frente de uma aeronave da Emirates.

Eles faziam um banquete e Han estava bastante diferente, o cabelo mais curto, a barba feita, o rosto mais cheio. Chega a ser irônico que justo ele, que trabalhava para companhias de aviação famosas pelo alto padrão de conforto e segurança, tenha feito tamanha travessia de forma tão precária e perigosa.

Deixou o Paquistão porque estava sendo ameaçado de morte pelo seu primo por conta da posse de uma propriedade no campo que passara para seu nome após a morte de sua mãe.

O primo em questão queimou todos os seus documentos e o dinheiro que havia guardado.

Temendo pela vida do filho, o pai septuagenário de Han fez um empréstimo no banco para poder financiar sua travessia para a Europa e, por conta de todas essas despesas, seus dois irmão mais novos tiveram que deixar de ir à escola.

"Minha prioridade quando conseguir um emprego é pagar o empréstimo no banco e dar educação para meus irmãos. Ninguém é nada na vida sem educação", diz.

Eu, que já estava me segurando para não chorar desde quando ele contou sobre como chegou na Grécia, nesse momento não consegui conter as lágrimas.

Na minha cabeça só via imagens dele correndo dos tiros na Turquia, remando em um bote inflável em mar aberto e sendo espancado pela polícia grega.

Queria abraçá-lo - não sei se para consolá-lo ou para consolar a mim mesma - mas, tendo em vista nossas diferenças culturais, apenas passei a mão sobre seu ombro.

Com a voz trêmula, tentei dizer que desejava toda a sorte do mundo para ele, mas acho que não consegui.

Ele, que não tinha a intenção de me contar essa história para que eu sentisse pena ou chorasse, mudou de assunto rapidamente, comentando a melhora da pele da minha colega de voluntariado que estava ao meu lado. Nós três demos risada.

Entreguei a ele alguns comprimidos, nos desejamos boa-noite e eu entrei no carro, onde me escondi para chorar por mais alguns minutos antes de voltar para casa.

O motivo de relatar essa história aqui é provavelmente o mesmo pelo qual Han a me contou, um desabafo.

Este mundo é muito grande, às vezes nos esquecemos (ou ignoramos) o que acontece em boa parte dele e essas pessoas precisam ser ouvidas.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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