OPINIÃO

'Ligações Perigosas': Por que na Globo um beijo gay é polêmico e uma cena de estupro é aceitável?

08/01/2016 21:54 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Reprodução/TV Globo

*Atenção: este texto contém relatos de cenas de estupro

A microssérie Ligações Perigosas estreou nesta semana na Rede Globo prometendo um enredo fiel ao texto original, o clássico Les liaisons dangereuses (As Ligações Perigosas, em tradução livre), romance epistolar do século 18, com cenas e estética sensuais, envolvente e um beijo entre duas mulheres.

Uma fórmula que costuma dar certo, mas que, desta vez, não agradou.

Os motivos?

Primeiro, o capítulo da última quinta-feira (7).

Nele, Cecília (Alice Wegmann) permite que Augusto (Selton Mello) vá ao seu quarto todas as noites entregar cartas de amor de Felipe (Jesuíta Barbosa), por quem Cecília é apaixonada.

Ingênua e romântica, ela não imagina que, por trás da atitude de Augusto, está Isabel (Patrícia Pilar), e que a intenção dele é, na verdade, seduzi-la para tirar sua virgindade a mando da tia.

E foi isso o que Augusto fez.

Mas não foi seduzindo, envolvendo a adolescente, como a Globo anunciou.

Ele estuprou Cecília.

Na cena, Cecília pede repetidas vezes para Augusto ir embora, mas ele insiste em ficar e diz que só vai sair após um beijo. Ele diz que quer ensiná-la a dar "um beijo de verdade".

Ela cede ao beijo, mas insiste para que ele vá embora depois. Mas Augusto continua investindo contra Cecília, que diz que vai gritar para interrompê-lo.

E é neste momento em que Augusto tapa a boca dela e deita a menina na cama.

Assim se consuma o estupro.

O capítulo acaba com o foco no rosto de Cecília, que demonstra estar sentindo prazer após a penetração, romantizando uma violência vivida por muitas mulheres.

E as telespectadoras ficaram incomodadas -- e com razão:






Você pode até questionar que a cena citada acima se passou no século 18 (e na década de 1920, quando a série global ocorre) e que isso, para o livro, e para a época, se encaixa... Afinal, a mulher não tinha tanta liberdade quanto tem nos dias atuais, não havia internet e, sim, grande maioria delas era submetida a situações assim e acreditava ser "natural".

Mas a principal questão não é essa!

A crítica não é sobre o livro, sobre a trama. E é aí que está o segundo motivo e ponto crucial do repúdio de telespectadores. O comentário da jornalista Daniela Lima se encaixa perfeitamente:

A Globo passou anos debatendo se faria uma cena de beijo gay ou lésbico. Consultou várias vezes o público. No entanto,...

Publicado por Daniela Lima em Sexta, 8 de janeiro de 2016


Inicialmente, a trama prometia um beijo gay entre duas personagens.

No primeiro capítulo, em uma brincadeira, a personagem Alice (Hanna Romanazzi) tentaria beijar Cecília. No primeiro capítulo, de fato, elas ficaram bem próximas. Não houve beijo.

Em outro momento, o personagem de Selton Mello estava em uma cena com outras duas mulheres e, no momento em que elas insinuaram um beijo entre si, a câmera mudou de plano. Mais uma vez, sem beijo entre mulheres.

A Globo já colocou um beijo gay entre duas mulheres no primeiro capítulo de uma novela no ano passado em Babilônia. Mas, para isso, tomou todos os cuidados -- o que também causou expectativa nos telespectadores e na comunidade LGBT. E foi com toda essa parcimônia também que, depois de cinco décadas, a Globo resolveu levar ao ar um beijo de dois homens, na novela Amor à Vida, no início de 2014.

Por que esse cuidado todo que a TV Globo tem com as cenas de beijo gay não se repete na exibição das cenas de estupro, como o sofrido por Cecília?

A "moral", citada no comentário acima, que interdita o amor e abre espaço para a violência é real.

A verdade é que questões como esta estão diretamente ligadas à cultura do estupro, que culpabiliza vítimas e coloca agressores em posições de grandeza desde sempre.

Cenas de estupro podem ser consideradas "aceitáveis" porque, na lógica machista e patriarcal, a mulher é apenas um objeto e existe em função do homem e para servir ao homem. Então, qual o problema, não é mesmo?

No caso de Cecília, em Ligações Perigosas, o estupro foi romantizado quando mostra a personagem sentindo prazer e demonstrando gostar do ato.

A cena coloca Cecília no lugar de "menina inexperiente que só disse 'não' porque não sabia o que era bom" e reforça a falta de liberdade sexual da mulher. Também enfatiza que um "não", quando parte de uma mulher, nunca é realmente um "não".

E por que, por sua vez, o beijo gay é tão velado e escondido?

Porque fere com a sexualidade alheia de uma forma moralmente inaceitável dentro da mesma lógica patriarcal, que é também homofóbica.

Homens devem apenas se relacionar com mulheres. E mulheres devem se relacionar apenas com homens.

Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ocorreram, pelo menos, entre 136 mil e 476 mil casos de estupro no Brasil só em 2014. É uma violência velada em que apenas 10% dos casos são notificados.

Nunca, jamais, em tempo algum, romantizem o estupro.

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