OPINIÃO

Os 40 anos do Joelma e a lucidez em falta de Armando Nogueira

14/04/2014 17:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02
Flickr/Pzado

Foto: parapeito do 19º andar do Edifício Joelma hoje.

Pelo prisma da imprensa, podemos dizer que os 40 anos do incêndio do Edifício Joelma, em São Paulo, completados no dia 1º de fevereiro, marcam também quatro décadas de uma das maiores coberturas do telejornalismo brasileiro.

Aliás, vou além: mesmo sem comprovante histórico no momento em que escrevo, arrisco a dizer que foi a primeira grande cobertura (ao menos na seara das tragédias urbanas), a pioneira a mostrar, em cadeia nacional, pessoas se atirando para a morte.

Por ocasião da data, o excelente Arquivo N, da Globo News, exibiu documentário sobre o incêndio e em determinada parte do programa há declarações de Armando Nogueira, um dos jornalistas mais completos que já passaram por nossas redações.

Diretor de jornalismo da TV Globo à época do incêndio, seu depoimento teve a função de rememorar aquele dia de 1974 pela ótica de quem comandava as equipes que estavam na rua captando em imagens e entrevistas a dramaticidade do fato.

De tudo que disse, ficou-me o desfecho que deu à história. Conta ele que, exultante pelo sucesso da cobertura, carregada de imagens fortes, exclusivas, informativas, recebeu, ao final do Jornal Nacional, o telefonema de uma telespectadora. Do outro lado da linha, ela dizia que o filho, de nove anos, havia tido uma síncope ao assistir às imagens das pessoas se jogando do alto do prédio, e que naquele momento, após ter voltado a si, estava catatônico diante da TV.

Com a propriedade dos homens lúcidos, Armando Nogueira diz que caiu em si, adquirindo imediatamente a consciência em relação aos efeitos que a cobertura jornalística que comandara havia alcançado no emocional do público.

Quarenta anos depois, dois fatos mostram o quanto o telejornalismo brasileiro anda distanciado da consciência de um dos seus mais consagrados ex-diretores.

O primeiro é a barbárie a que foi submetida a dona de casa arrastada por um carro da Polícia no Rio, cerca de um mês atrás. A repetição exaustiva das imagens do corpo sendo arrastado, gravadas por um cinegrafista amador, foge de qualquer limite responsável da informação para colocar os dois pés no sensacionalismo. Nem a comprovação pelos legistas de que ali, naquele momento, ela já estava morta, e, portanto, não sentia a dor da atrocidade, suaviza o impacto nos nervos de quem assiste. Muito menos o faz o recurso cínico e desgastado da imagem distorcida.

O segundo fato aconteceu na cidade gaúcha de Viamão, esta semana. Um entrevero entre dois homens termina com um deles atropelando o outro e passando com o carro diversas vezes por cima do corpo. Até matar. As imagens, acho que de algum circuito de vigilância, foram ao ar sem cortes, e sabe-se lá por que motivo, a desfaçatez da distorção só foi usada no final da reportagem.

Curiosamente foi na Globo News que assisti às duas coberturas, o mesmo canal a cabo do Arquivo N em que Armando Nogueira foi capaz de levar ao público sua lucidez sobre a responsabilidade do jornalista perante o público.

A conduta, é claro, não é exclusividade da Globo News. Inclusive é mais exacerbada em outros canais e mesmo veículos de comunicação. O que, infelizmente, é sinal de que nas redações, hoje em dia, há carência da noção de que a responsabilidade precisa ser pilar da informação.