OPINIÃO

Cabelo em ovo, chifre em cavalo (ou sobre os leitores sensíveis)

Liberdade de expressão é tão importante em uma sociedade que a luta contra o preconceito passa necessariamente – e até obviamente – por ela.

14/08/2017 22:40 -03 | Atualizado 14/08/2017 22:40 -03
Divulgação/Globo
Segundo o articulista, os próprios críticos literários dizem que Emília é a voz do preconceito de Monteiro Lobato.

Passei uns três dias pensando e cheguei à conclusão que, no fundo, eu já esperava chegar: o tal do leitor sensível é realmente uma censura.

Ou melhor, é patrulhamento ideológico, que é a censura sem o poder de veto do Estado.

Patrulhamento ideológico, pelo que reza a história política do País, é uma expressão que surgiu nos anos 1960. Era praticado por setores da esquerda que realmente têm dificuldade em conviver com a democracia, com a opinião diversa e, especialmente, contrária.

Embora seja e já tenha me posicionado contra atrocidades como homofobia e racismo, confesso o temor de estar na mira do leitor sensível, aquele que será pago pelas editoras (e o fará também nos canais de produção de conteúdo, como as redes sociais) para identificar preconceitos raciais, de gênero, de orientação sexual – e por aí vai – nos livros.

Sou homem de classe média (bem média mesmo, quase fodida, embora melhor que a maioria no País), branco, olhos claros, meia idade, descendente de europeu. Sou o protótipo físico do racista, do homofóbico e do machista. Em uma sociedade em que a aparência instiga julgamentos instantâneos, já me sinto vigiado com atenção redobrada pelo leitor sensível.

É claro que não vou me intimidar. Mas temo que ao criar, por exemplo, um personagem que odeia negros ou homossexuais, a patrulha dos que muitas vezes enxergam chifre em cavalo e cabelo em ovo venha para cima de mim dizer que aquilo na verdade é meu preconceito expresso em uma terceira voz disfarçada. É algo que os próprios críticos literários dizem da Emília em relação a Monteiro Lobato.

A figura do leitor sensível não ajuda em nada no combate a preconceitos. Ao contrário, pelo que vejo, instiga a salivação dos Danilos Gentilis e Bolsonaros de plantão, que pisoteiam com escárnio o (necessário) politicamente correto. Para, na verdade, dizerem prazerosamente: olha lá, tá vendo como é ditadora essa cambada de preto, bicha, sapatão e feminista?

Liberdade de expressão é tão importante em uma sociedade que a luta contra o preconceito passa necessariamente – e até obviamente – por ela.

Nos casos de apologia, via literatura, do racismo e seus odiosos similares discriminatórios, mais eficaz e salutar que a figura do leitor sensível será o boicote à obra. E, em última análise, a Justiça.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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